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Aventuras na História

Cabo da Boa Esperança: Na esquina do mundo

Nunca uma caravela havia ido tão longe. Em 1488, Bartolomeu Dias contornou o traiçoeiro cabo da Boa Esperança, no sul da África, e provou que era possível chegar ao Oriente pelo mar

Fabiano Onça | 01/11/2007 00h00

Como você se sentiria se, um dia, seu soberano o chamasse para uma audiência e lhe confiasse a seguinte missão: navegue até onde nenhum homem jamais navegou. Vá até o fim da África, rumo ao desconhecido, e veja o que encontra por lá. Você aceitaria? Mesmo sabendo que teria de atravessar mares traiçoeiros, com tempestades capazes de destruir seu navio em minutos? Mesmo ciente dos longos períodos de calmaria, em que sua embarcação ficaria à deriva durante semanas sob um calor de fritar a cabeça? Mesmo tendo ouvido relatos de que o litoral estaria coalhado de selvagens, prontos a matar quem tentasse pôr o pé em terra? Essa foi a decisão que o navegador português Bartolomeu Dias teve de tomar em 10 de outubro de 1486, diante de dom João II, rei de Portugal.

Naquela época, as nações ocidentais não sabiam o que existia ao sul da África. A região não havia sido descrita em mapas nem contava com portos amigos onde aventureiros pudessem buscar apoio ou consertar uma avaria em seus navios. A proposta de dom João II, sem dúvida, beirava as raias da loucura. Mas nem ele nem Bartolomeu padeciam de insanidade. Muito pelo contrário: eram homens ambiciosos, dispostos a correr riscos. A recompensa? Encontrar a rota marítima para as Índias (nome genérico dado às regiões orientais – muitas delas situadas na atual Índia – que produziam valiosas especiarias como pimenta e cravo).

“Embora tenha governado relativamente pouco tempo (de 1481 a 1495), dom João II ocupa um lugar fundamental na história portuguesa da transição dos tempos medievais para os modernos”, escreveu o historiador português Luis Adão da Fonseca em D. João II (não publicado no Brasil). Quando assumiu o trono, ele não se deixou influenciar por forças estrangeiras e demonstrou aversão às intrigas palacianas. Rapidamente, tomou uma série de medidas para tirar poder da nobreza e concentrá-lo em suas mãos.

O monarca logo foi vítima de conspirações. Nobres, liderados por Fernando II, duque de Bragança, começaram a flertar com o reino vizinho de Castela, pedindo por uma intervenção contra o jovem governante. Dom João II pareceu não tomar atitude. Quando a conspiração estava quase madura, o monarca caiu como um raio. Seu serviço secreto havia interceptado várias mensagens comprometedoras. O duque de Bragança foi executado. No ano seguinte, o próprio dom João II matou a punhaladas o duque de Viseu, seu primo, também acusado de conspiração. Sua autoridade nunca mais foi questionada.

Era esse o homem – ambicioso, estrategista, calculista – que estava diante de Bartolomeu naquele 10 de outubro. Um rei que sabia que uma nova rota para as especiarias da Índia traria a Portugal uma riqueza incalculável. Justamente por isso dom João II tinha dedicado boa parte do seu reinado à revitalização da Escola Naval de Sagres – um dos maiores centros de excelência em navegação da época, fundado por seu tio dom Henrique, o infante.

Bartolomeu, por sua vez, era um membro da pequena nobreza. Sua origem é obscura, mas alguns historiadores afirmam que ele nasceu por volta de 1450, na região de Trás-os-Montes, no norte de Portugal. Era parente de Dinis Dias e Fernandes, desbravador das ilhas de Cabo Verde. É provável, inclusive, que uma indicação dele tenha permitido a Bartolomeu ser admitido na Universidade de Lisboa, onde adquiriu conhecimentos raros naquela época: estudou astronomia e matemática.

Em 1481, numa expedição chefiada pelo veterano marinheiro Diogo de Azambuja (da qual também participou um navegador genovês chamado Cristóvão Colombo), o jovem Bartolomeu assumiu a função de capitão de um dos navios, o São Cristóvão. A missão era construir a primeira colônia européia na África, a fortaleza costeira de São Jorge da Mina (no atual litoral de Gana), fundada no ano seguinte. Foi ali, naquele entreposto perdido no meio da vasta costa, que Bartolomeu familiarizou-se com o comportamento do mar africano, com suas correntes, seus ventos e suas calmarias.

Ao aceitar a missão de tentar contornar a África, Bartolomeu deixou dom João II aliviado. Afinal, os outros navegadores de confiança do monarca estavam incapacitados. O predileto, Diogo Cão, morrera (não existem registros precisos de onde e por quê) naquele mesmo ano, 1486, logo após mapear o rio Congo e parte do litoral da Namíbia – até então, o lugar mais ao sul ao qual os portugueses tinham se atrevido a ir. Já o velho Diogo de Azambuja, fundador da fortaleza de São Jorge da Mina, havia ficado louco.

Na rota do Cão

A expedição de Bartolomeu Dias saiu do porto de Lisboa no fim de agosto de 1487. O navegador comandava duas pequenas caravelas: São Cristóvão e São Pantaleão, cada uma com cerca de 50 toneladas. Além delas, Bartolomeu mandara preparar uma galeota, embarcação menor que levava a mais preciosa das cargas: água e comida extras. É possível que Bartolomeu, lendo os relatos de Diogo Cão, tenha sido alertado para um fato fundamental: as terras ao sul não tinham bons lugares para aportar e conseguir alimento. O comando da estratégica galeota ficou nas mãos de Diogo Dias, irmão de Bartolomeu. Para completar o time, foram convocados dois dos melhores pilotos da frota portuguesa: Pêro de Alenquer e João Infante. Se a expedição se perdesse no meio do caminho, não haveria melhores pessoas para orientar, pelas estrelas, os barcos de volta à costa.

O motivo real da viagem foi mantido em segredo. Oficialmente, ela seria realizada para procurar o mítico reino de Preste João (uma suposta comunidade cristã perdida em meio a terras bárbaras). “Nos bastidores, os portugueses já se preparavam para descobrir caminhos únicos para as Índias e tomar posse de novas terras”, afirma o historiador português Francisco Contente Domingues, da Universidade de Lisboa. Para impressionar os nativos africanos, o rei mandou que Bartolomeu levasse a bordo dois negros e quatro negras, capturados na viagem de Diogo Cão. Devidamente trajados à moda da corte portuguesa, os prisioneiros deveriam ser desembarcados no litoral africano para que os moradores locais se impressionassem com a “grandeza” dos modos lusitanos.

Durante o mês de setembro, a pequena frota singrou o oceano Atlântico sem maiores contratempos. Após uma pequena parada em Cabo Verde, os portugueses começaram a se afastar do litoral africano. A manobra, claro, não foi acidental. Bartolomeu começava a utilizar o conhecimento quase exclusivo que possuía da costa da África, realizando uma manobra chamada “a volta do mar”. A artimanha consistia em afastar-se do litoral, navegando para oeste nas imediações do golfo da Guiné, para depois se aproximar novamente da costa. Com isso, os portugueses evitavam o interior do golfo da Guiné, conhecido por suas infernais calmarias. A manobra surtiu efeito. Quando alcançaram novamente o litoral africano, Bartolomeu Dias estava quase na entrada da luxuriante foz do rio Congo. Até ali, os portugueses estavam em segurança. Diogo Cão, outro navegador, já havia estado lá anos antes e havia cartografado a área.

O desafio maior começou quando, em outubro, a frota passou pelo último ponto desbravado até então, o cabo do Padrão (o atual Cape Cross), a aproximadamente 22 graus de latitude. Naquele lugar, Diogo Cão havia erigido um padrão (um grande marco de pedra) com uma cruz no topo. A partir dali, Bartolomeu não poderia contar mais com mapas. O mar, suas correntes, seus ventos – tudo seria estranho. Para piorar, as chances de descer à terra eram quase nulas. À sua frente, desenhava-se um litoral rochoso, árido, assolado por ventanias de areia – aquele território desértico seria, séculos depois, denominado Costa do Esqueleto, por conta dos intermináveis naufrágios ali ocorridos.

Após passar pelo cabo do Padrão, Bartolomeu navegou por cerca 270 milhas náuticas rumo ao sul (cerca de 500 quilômetros), sempre bordejando a costa. Ao chegar à baía batizada de Angra Pequena (próxima à atual cidade de Luderitz, na Namíbia), Bartolomeu intuiu, pelo recorte do litoral, que estava perto de finalmente dobrar a costa da África. Deixou a galeota de suprimentos ancorada em Angra Pequena e partiu para o ataque com suas duas caravelas.

Surpresa a bombordo

Mesmo olhos experientes podem se enganar. Após passar, em 26 de dezembro de 1487, ao largo de uma baía, batizada pela tripulação de Santo Estevão (atualmente Elizabeth Bay, na Namíbia), Bartolomeu Dias constatou que o suposto “fim” da África não estava onde ele pensava. Até onde a vista alcançava, ainda havia costa – e nenhum sinal promissor. Àquela altura, Bartolomeu poderia voltar e, assim como anos antes fizera Diogo Cão, relatar suas descobertas para que, mais tarde, outra expedição tentasse ir adiante. Mas não foi isso que ele fez. As duas caravelas permaneceram em curso. Após navegar outras intermináveis 150 milhas náuticas (ou 280 quilômetros) para o sul, já próximo dos 29 graus de latitude, ele encontrou a foz de um rio (hoje o Orange, na divisa entre Namíbia e África do Sul).

Ali começou o martírio. Durante cinco dias, ventos contrários empurraram os navios de volta, obrigando-os a darem voltas e mais voltas na tentativa de quebrar a força da ventania. Vencido o obstáculo, Bartolomeu seguiu firme por mais 70 quilômetros para o sul. Na altura da atual cidade de Port Nolloth, os maus ventos transformaram-se numa potente tempestade. Obrigados a abandonar o refúgio da costa sob risco de baterem em rochedos, os dois navios foram atirados ao coração da tormenta. Por 13 dias, as caravelas navegaram sem rumo, ao sabor da tempestade, lutando para não serem engolidas pelas ondas gigantescas. Quando o castigo amainou, os portugueses não faziam idéia de onde tinham ido parar. Só sabiam que o tempo esfriara significativamente – segundo alguns historiadores, o motivo da mudança no clima era a localização: naquele momento, as naus portuguesas teriam chegado a 40 graus de latitude.

A situação era desesperadora. A comida já escasseava. Os marujos não sabiam, mas estavam a mais de 1200 quilômetros do local onde a galeota de Diogo Dias havia sido deixada. A última esperança para sair da enrascada estava no maior trunfo da marinha portuguesa: o uso avançado de instrumentos marítimos, como o astrolábio, e a experiência ímpar de seus navegadores. Pêro de Alenquer fez os cálculos e chegou à conclusão de que eles estavam muito ao sul. Deram meia-volta.

Após dias navegando para o norte, os portugueses encontraram terra. Mas não onde esperavam. Eles imaginavam ver a costa a estibordo (lado direito, tendo como referência a frente do barco). Mas viram montanhas a bombordo, o outro lado do navio. Os cálculos foram refeitos e eles perceberam que, enquanto navegavam em alto-mar, haviam ultrapassado o extremo sul da África. Mesmo sem querer, Bartolomeu tinha conseguido. Quando chegaram à costa, libertaram os negros que traziam consigo e fincaram, na altura do recém-batizado rio do Infante (hoje o Great Fish, na África do Sul), um padrão de pedra para atestar aos viajantes posteriores que Portugal havia ido até lá primeiro.

Naquele momento de glória, Bartolomeu estava dividido. Especula-se que ele tenha tentado seguir viagem e chegar às Índias – de fato, as naus avançaram mais alguns dias rumo ao Oriente. Mas as privações tinham sido muitas e, sem a galeota de suprimentos, a aventura tornava-se impraticável. Foi preciso retornar para casa. No caminho de volta, as naus portuguesas foram bordejando a costa. Em 3 de fevereiro de 1488, aos 34 graus de latitude, Bartolomeu finalmente avistou a tão sonhada “esquina” da África. A travessia foi feita sob ferozes tempestades, o que inspirou o navegador a batizar o local de cabo das Tormentas. O nome, porém, teve vida curta. Em dezembro, dez meses após realizar a façanha, Bartolomeu aportou em Lisboa. O rei dom João II, exultante com a nova rota comercial, preferiu deixar para a história um nome menos sombrio, e rebatizou o lugar como cabo da Boa Esperança.

A vingança do cabo

Depois do feito, Bartolomeu Dias não recebeu condecoração alguma. Permaneceu sem grandes incumbências, relegado ao emprego burocrático de recebedor da Casa da Guiné (responsável por receber e catalogar os bens provenientes da fortaleza de São Jorge da Mina). Mesmo assim, mantinha-se esperançoso para liderar a futura expedição que finalmente levaria os portugueses para as Índias. O rei dom João II, entretanto, preferiu não dar novos passos antes que os novos domínios portugueses fossem regulamentados com a bênção da Igreja. Enquanto nada se resolvia no campo político, Cristóvão Colombo realizou a façanha que ofuscaria para sempre o contorno do cabo da Boa Esperança: em 1492, liderando uma frota espanhola, o genovês chegou à América.

Dom João II morreu em 1495, levando consigo as chances de que Bartolomeu conduzisse uma expedição marítima para as Índias. Com a ascensão do novo monarca, Manuel I, Vasco da Gama ganhou a preferência da corte. No dia 8 de julho de 1497, ele partiu para, enfim, alcançar as Índias de barco. Levou como piloto Pêro de Alenquer, que havia participado do contorno do cabo da Boa Esperança.

A Bartolomeu coube o papel de coadjuvante em outra aventura. Ele comandou uma das naus da expedição de Pedro Álvares Cabral que aportou no Brasil e, em seguida, rumou para as Índias. Na madrugada de 23 de maio de 1500, uma tempestade atacou os barcos portugueses. Ironicamente, a frota se encontrava próxima do cabo da Boa Esperança. Quando a intempérie se dissipou, quatro embarcações e 400 homens, incluindo Bartolomeu Dias, tinham sido engolidos pelo mar – Cabral e o resto da frota continuaram sua jornada rumo ao Oriente.

A esperança de Bartolomeu de chegar às Índias acabou vencida pelas tormentas do cabo que ele havia descoberto. Seu pioneirismo, entretanto, foi crucial para as gerações de marinheiros que o sucederam. “Bartolomeu Dias realizou uma verdadeira revolução geográfica ao provar a intercomunicabilidade do Atlântico e do Índico. Isso mudou a história do comércio na Europa e deflagrou o início do capitalismo mercantil”, diz o historiador Francisco Contente Domingues.

 

Tatuagens e fantasmas

O cabo da Boa Esperança povoou o imaginário dos marinheiros

Até o fim do século 19, o cabo da Boa Esperança foi um dos dois pontos obrigatórios que os navios tinham de cruzar para ir da Europa até a Ásia (o outro era seu “irmão” cabo Horn, na América do Sul). Cruzá-lo tornou-se uma espécie de batismo para os marinheiros. Os britânicos, por exemplo, costumavam tatuar cada marujo que fizesse a travessia com uma estrela na orelha esquerda. A cada nova passagem pelo cabo, o marinheiro ganhava mais uma estrela, até completar cinco. As marcas passavam então para a orelha direita. Quando um marinheiro tinha as duas orelhas tatuadas com cinco estrelas, ele ganhava o direito de marcar duas pequenas estrelas vermelhas na testa, indicando que ele já havia cruzado o cabo mais de dez vezes – quem chegava a esse nível, dizia-se, jamais pagava a conta num bar.

Além do costume britânico, o cabo da Boa Esperança deu origem a algumas lendas. A mais célebre é a do Holandês Voador. Segundo ela, um capitão chamado Van der Decken teria tentado atravessar as revoltas águas do cabo em 1641, vindo do Oriente. Porém, quanto mais tentava, mais seu navio era atirado de volta. O holandês não se deu por vencido e tentou uma última arremetida. Seu navio, como que por castigo divino, bateu nos rochedos e começou a afundar. Van der Decken, à beira da morte, blasfemou: “Eu vou atravessar este cabo mesmo que tenha de navegar até o dia do Juízo Final!” Desde então, ele reapareceria no cabo nos dias de tempestade, num fantasmagórico navio com as velas içadas contra o vento.

Os nevoeiros constantes no cabo inspiraram outra lenda. No século 18, o pirata holandês Jan van Hunks teria ficado famoso pelo hábito subir as montanhas que circundam o cabo para tragar substâncias alucinógenas com seu cachimbo. Certo dia, diz a lenda, um estranho sentou a seu lado e iniciou uma competição para ver quem fumava mais. Depois de vários dias, Jan derrotou o adversário, que revelou ser o diabo. O coisa-ruim desapareceu, levando consigo o pirata. Cada vez que o cabo é tomado pela névoa, seria um sinal de que Van Hunks e o capeta estão por perto com seus cachimbos.

 

Saiba mais

Livro

A Formação do Império Português (1415-1580), Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Atual, 1999

Explica como se estruturou o império ultramarino português, a partir de viagens como a de Bartolomeu Dias.

Site

www.instituto-camoes.pt/cvc/navegaport/index.html

É a melhor referência para quem quiser saber qualquer coisa a respeito do período da expansão portuguesa.

 

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