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Aventuras na História

Capela Sistina: lição de anatomia

Sérgio Miranda | 01/08/2004 00h00

Pesquisadores brasileiros acreditam ter desvendado um mistério de quase 500 anos, envolvendo uma das obras mais conhecidas de Michelangelo. Eles afirmam que os afrescos da Capela Sistina, no Vaticano, escondem partes do corpo humano dissecadas pelo mestre do renascimento

Durante uma missa celebrada em 8 de abril de 1994, o papa João Paulo II voltou o olhar para o teto da capela, a 20,7 metros de altura, onde se estende um retângulo abobadado de 40,9 metros de comprimento por 13,4 metros de largura repleto de imagens bíblicas, profetas e querubins. Quando olhou novamente para os fiéis, referiu-se à Capela Sistina como “santuário da teologia do corpo humano”.

A opinião do papa, apesar de seu privilegiado ponto de vista, é apenas mais uma das inúmeras que as pinturas do mestre renascentista Michelangelo Buonarroti despertou, em quase 500 anos de existência. Pesquisadores e críticos de arte sempre estudaram o significado das cenas e do conjunto de figuras que retratam com perfeição a linguagem de uma época em que as figuras humanas assumiram o papel central nas representações artísticas, fossem elas históricas, sociais ou religiosas. Mas, se os brasileiros Gilson Barreto e Marcelo de Oliveira estiverem corretos, as palavras de João Paulo II deixarão de ser metafóricas e soarão proféticas. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autores de A Arte Secreta de Michelangelo, eles acreditam que o conjunto de afrescos pintados entre 1508 e 1512 seja o maior (e mais brilhante) estudo da anatomia humana já produzido. “Cada uma das 38 cenas que compõem o conjunto representa partes dissecadas do corpo humano”, diz Gilson, médico-cirurgião e pintor nas horas vagas. E tem mais: segundo ele, Michelangelo teria agido de maneira intencional e didática, desenvolvendo um código que – agora desvendado – permite identificar cada uma das dissecações escondidas.

A tese é polêmica, embora não propriamente inédita. Gilson e Marcelo não foram os primeiros a enxergar uma figura anatômica na obra de Michelangelo. Em 1990, o médico americano Frank Lynn Meshberger publicou um artigo no prestigiado Journal of the American Medical Association mostrando a impressionante semelhança entre a mais difundida cena da Capela Sistina, A Criação de Adão, e um corte do cérebro humano.

Em 2000, outro indício surgiu. O nefrologista (médico especialista no sistema renal) americano Garabed Eknoyan identificou o formato de um rim direito no manto da figura de Deus em A Separação das Águas da Terra. Segundo ele, não poderia ser coincidência – a função do rim é produzir a urina, justamente isolando líquidos dos sólidos. “A partir do ensaio de Eknoyan, uma idéia surgiu: Michelangelo não teria também desenhado figuras anatômicas nos demais afrescos?”, diz Gilson. Para responder a essa pergunta, ele chamou o amigo e químico Marcelo de Oliveira e os dois passaram a pesquisar as imagens de cada cena da Sistina à procura de um código comum que pudesse identificar as figuras anatômicas escondidas pelo pintor.

A primeira pergunta a ser feita é: por que o pintor italiano faria isso? Para responder, precisamos voltar ao século 16, época em que o Renascimento dirigia as atenções da ciência e das artes para o homem fazendo com que, entre outras coisas, o corpo humano passasse a ser estudado com mais interesse. A dissecação de cadáveres – condenada pela Igreja – era uma prática disseminada tanto entre médicos e pensadores quanto entre pintores e escultores. Michelangelo era um deles (ao lado de Leonardo da Vinci, Rafael, Luca Signorelli e Andrea Verocchio). Realizava experiências com cadáveres em seu próprio estúdio com tanta freqüência que chegou a ser convidado por Realdo Colombo, um dos médicos mais famosos de seu tempo, para ilustrar um completo manual anatômico que não chegou a ser realizado. “O humanismo era o código de conduta da época. E esconder um cérebro na figura de Deus criando o homem, bem sobre as cabeças coroadas de bispos e do próprio papa, seria uma ironia típica do gênio de Michelangelo”, diz o historiador italiano Agostino Giovanelli, da Universidade Católica de Milão.

A segunda dúvida é: como ele fez isso? Para essa pergunta, Gilson e Marcelo têm respostas surpreendentes. Partindo das pistas levantadas pelos estudos anteriores (um cérebro na criação do homem e um rim na separação das águas), os pesquisadores brasileiros investigaram os documentos disponíveis sobre a Sistina para provar que Michelangelo ocultou as figuras anatômicas intencionalmente. Analisando centenas de esboços e anotações do pintor, eles acreditam ter decifrado o código que revela os órgãos e tecidos presentes em cada uma das cenas. “A posição das figuras retratadas, que expõem certas partes do corpo ou apontam para outras, a direção dos olhares, a luminosidade que incide sobre determinada parte do corpo e os detalhes das figuras secundárias – antes consideradas ornamentais –, tudo isso faz parte das indicações do que Michelangelo queria mostrar em suas figuras”, afirma Gilson.

Agora, com as pistas decifradas, é provável que você diga: puxa, como é que ninguém tinha visto isso antes? Segundo Marcelo, a observação das obras no próprio local é bastante difícil. Antes da invenção da fotografia e dos métodos de reprodução de imagens, pouquíssima gente havia visto essas cenas a menos de 20 metros de distância. E essas raras pessoas – padres e religiosos – não estavam nem um pouco inclinadas a enxergar ou discutir o aspecto sagrado daquilo que foi retratado por Michelangelo. Além disso, até a última restauração da capela, na década de 1990, cores e detalhes estavam escondidos sob fuligem de vela e incenso. Um enigma de quase cinco séculos, que dois especialistas brasileiros esperam ter resolvido.

 

 

Aula 1 - Cérebro

Na cena mais famosa da Capela Sistina, Deus levita sustentado por querubins e estende o dedo indicador para quase tocar a mão esquerda de Adão, reclinado sobre uma rocha. O momento criador, de transferência da capacidade intelectual de Deus para o homem, é a pista para se observar um corte do crânio que mostra as três camadas da calota craniana, o lobo temporal, a hipófise, o tronco cerebral e o corpo caloso, descritos anteriormente no estudo de Meshberger. Apresentado em 1990, a impressionante semelhança foi encarada como mais uma expressão da genialidade de Michelangelo.

Aula 2 - Laringe

A profetisa está representada sentada de lado, com as pernas cruzadas e pescoço à mostra. Ao fundo, um anjo insufla as bochechas para assoprar uma tocha. No manto sobre as pernas da sibila os autores identificaram a imagem oblíqua de uma laringe, com uma epiglote caída que deixa visualizar as cordas vocais. O esboço realizado por Michelangelo mostra a preocupação com os detalhes do manto, enquanto a figura humana é adaptada posteriormente a ele. Outro detalhe é que a mão direita da sibila, que cobre o manto na versão final, sequer existia nos primeiros esboços do autor.

Aula 3 - Pescoço

A figura anatômica desta cena foi a última a ser encontrada. “Depois que identificamos a figura só pude pensar como não havia enxergado isso antes, de tão evidente”, diz Gilson. Em A Separação da Luz e das Trevas, Deus ergue os braços e afasta a escuridão à sua direita da claridade à sua esquerda. Nessa posição, estende a cabeça de modo a deixar o pescoço bem visível. Cercado por quatro figuras humanas, chamadas ignudis, Deus dirige o olhar para a única que tem o pescoço à mostra. Ali, nos braços de Deus, a imagem do osso hióide, localizado exatamente no terço superior do pescoço, acima da laringe.

Aula 4 - Cotovelo

Profeta que descreveu as passagens da vida de Cristo com 700 anos de antecedência, Isaías é representado como se ouvisse o querubim à direita. O profeta expõe o cotovelo direito a uma grande luminosidade no centro da cena. Ao fundo, os putti (os meninos peladinhos atrás) mostram os cotovelos, além de abraçar o companheiro justamente nessa parte do corpo. Para Gilson e Marcelo, Michelangelo reproduz com fidelidade a articulação do cotovelo em flexão na vestimenta abaixo da cintura, mostrando seus três ossos: úmero, rádio e ulna.

Aula 5 - Parte 1 - Rim

Esta cena exemplifica o papel importante dos elementos secundários como pistas para os achados anatômicos. Além da figura masculina que expõe o dorso lateralmente e da criança que posiciona a mão examinando o flanco da figura feminina, os escravos na parte superior também colocam as mãos sobre os flancos e os ramos de adorno mais evidentes cruzam essa mesma parte do corpo. Depois das pistas todas, a vista lateral de um rim esquerdo aparece nítida formada pelo braço da criança, o ombro e a mão esquerda da figura feminina.

Aula 5 - Parte 2 - Rim

“Agora é certo que sofro da ‘pedra’, mas é pequena e, graças a Deus e aos benefícios da água de Viterbo que estou bebendo, ela será aos poucos dissolvida”, escreveu Michelangelo anos depois de ter acabado o teto da Sistina. Mais um caso em que a pista está no próprio tema representado. Afinal, nenhuma outra figura poderia melhor sugerir o tema do que um rim humano, que já no século 15 tinha sua função descrita como “separadora da água”. Na cena Deus está sobre a linha do horizonte que separa o céu do mar, cercado por um grupo de querubins. O manto que envolve o Criador tem o formato de um funil, cercado por uma forma oval delimitada pelos corpos dos querubins. O artigo de Eknoyan comparou a imagem identificando o contorno do rim, a pelve renal e o ureter.

Aula 6 - Ombro

Uma das mais belas profetisas de Michelangelo, a filha de Zeus com a feiticeira Lâmia é uma das representações mais repletas de pistas. Líbica está com o ombro esquerdo desnudo, iluminado em primeiro plano. Ao fundo um querubim vira o rosto e aponta para o próprio ombro. As figuras infantis nos cantos superiores, os putti, olham, apontam e examinam os ombros. Não poderia ser mais evidente. Invertendo a imagem 180 graus aparece na vestimenta da sibila a articulação do ombro, com a cavidade glenóide e a cabeça do úmero.

Aula 7 - Áxis

Judite é uma viúva judia que, depois de seduzir o general assírio Holofernes, corta-lhe a cabeça. Michelangelo pintou o corpo do general numa posição pouco provável, com o braço direito erguido e a perna esquerda flexionada. A forma é semelhante à segunda vértebra cervical, o áxis, justamente onde Judite teria decapitado o general. Se não guarda tanta semelhança aos nossos olhos, observe o esboço feito por Michelangelo para a mesma obra. Mesmo em outra posição, o corpo continua parecido ao áxis visto de um outro ângulo. Parece que o pintor queria mesmo mostrar a figura nesta cena.

 

Saiba mais

Livro

A Arte Secreta de Michelangelo, Gilson Barreto e Marcelo G. Oliveira, Arx, 2004

 

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