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O Caso Watergate - O último homem do presidente

Há 33 anos, um homem sem rosto delatava irregularidades que provocaram a renúncia de Richard Nixon. Só agora Garganta Profunda se revelou - e desfez o maior segredo do jornalismo

Adriana Maximiliano | 01/08/2005 00h00

Quando Richard Nixon renunciou à presidência dos Estados Unidos, em 9 de agosto de 1974, W. Mark Felt ainda não estava certo de que tinha feito um bom trabalho. O chamado caso Watergate chegava ao fim com um final triste para o presidente, feliz para o país e duvidoso para Felt, então vice-diretor do FBI, a polícia federal americana. Foi ele quem passou informações confidenciais sobre irregularidades do governo para o repórter Bob Woodward, do Washington Post. Por 33 anos – enquanto seu nome era mantido em segredo –, Felt se questionou sobre seu papel de dedo-duro na história dos Estados Unidos e temeu que sua identidade fosse descoberta.

A princípio, apenas Woodward, Carl Bernstein, seu parceiro nas reportagens sobre o caso Watergate, e o editor Ben Bradlee sabiam quem era o Garganta Profunda, apelido que Felt ganhou por causa de um filme pornô que fez sucesso nas bilheterias americanas. Na edição de julho da revista Vanity Fair, o advogado de Felt, John D. O’Connor, revelou a pedido do cliente o maior segredo do jornalismo mundial.

Felt era uma espécie de conselheiro profissional de Woodward quando o caso Watergate começou, em 17 de junho de 1972, durante a campanha para a reeleição de Nixon. Ao saber que um porteiro noturno do edifício Watergate, em Washington, flagrou um arrombamento no escritório do Partido Democrata, o repórter não fazia idéia do que estava por vir.

Felt, que vinha investigando irregularidades da campanha de Nixon havia algum tempo, já desconfiava de que o presidente republicano estava envolvido naquele arrombamento e em outras tentativas de espionagem e conspiração contra o partido adversário. Durante quase dois anos, o agente marcou encontros secretos com o repórter numa garagem próxima ao Watergate. Neles, Garganta Profunda contava tudo o que o FBI descobrira sobre o caso.

Woodward tinha prometido a Felt só revelar que ele era o Garganta Profunda depois de sua morte. A própria família de Felt soube que ele foi o informante misterioso que provocou a renúncia de Nixon há apenas três anos, quando Woodward procurou pelo ex-agente do FBI em sua casa, na Califórnia. Agora, aos 91 anos, Felt foi convencido pela família de que era chegada a hora de revelar o último mistério do caso Watergate. E ninguém melhor do que ele para contar segredos.

 

Mágoa antiga

No filme Todos os Homens do Presidente, Bob Woodward foi interpretado por Robert Redford, Carl Bernstein por Dustin Hoffman e Garganta Profunda aparece apenas como um vulto (Hal Holbrook) numa garagem escura. Inspirado no livro homônimo de Woodward e Bernstein, o filme ganhou quatro Oscars e mostrou ao público que foi graças ao informante obscuro que os repórteres descobriram as armações do governo Nixon. Nas reportagens do Washington Post, Garganta Profunda jamais havia sido citado, nem como fonte anônima – uma das exigências que Felt fez a Woodward. Eles tambem deviam se encontrar sozinhos – Bernstein participou de apenas um encontro –, sempre à noite, depois de trocarem alguns sinais, como um relógio desenhado a mão por Felt no New York Times que o repórter recebia na porta de casa. A amizade formal que Woodward tinha com Felt desde 1970 e a vontade de mostrar a desonestidade de Nixon não foram os únicos motivos que levaram Felt a virar o Garganta Profunda. Ele tinha uma mágoa com o presidente desde maio de 1972, quando o então diretor do FBI, J. Edgar Hoover, morreu. Felt era seu substituto direto, mas Nixon preferiu nomear o antigo aliado L. Patrick Gray III. Felt continuou como vice-diretor do FBI e começou a delatar as descobertas do FBI sobre o caso Watergate. Ele chegou a ser apontado como Garganta Profunda, mas sempre negou. Até em seu livro The FBI Pyramid: From the Inside (A Pirâmide do FBI: do Lado de Dentro, inédito em português), lançado em 1979: “Nunca deixei vazar informação para Woodward, Bernstein ou qualquer outra pessoa”, escreveu Felt. Trinta e três anos depois, a verdade veio à tona, virou livro (que seria lançado em julho nos Estados Unidos) e, quem sabe, filme. Woodward e Bernstein já trabalham no projeto. E, desta vez, Mark Felt ganhará nome e rosto. E o papel principal.

Personagens de uma novela real

Bob Woodward

Conheceu por acaso o agente do FBI Mark Felt na Casa Branca, em 1970, e, por ver semelhanças em suas trajetórias, o ligava para pedir conselhos profissionais – e, depois, para conseguir informações confidenciais. Ganhou fama e o Prêmio Pulitzer com o caso Watergate, se casou três vezes, lançou 12 livros, ficou milionário e hoje é editor executivo do Post.

Richard Nixon

Vice-presidente por oito anos, perdeu a eleição em 1960 para John F. Kennedy, mas ganhou o cargo em 1968. Para ser reeleito em 1972, ordenou escutas telefônicas e roubos nos escritórios do Partido Democrata. Conseguiu, mas o escândalo provocou um processo de impeachment. Antes, porém, Nixon renunciou. Morreu aos 81 anos, em 1994, e foi enterrado sem as honras de um chefe de Estado, conforme ele próprio havia pedido.

Carl Bernstein

Entrou para o Washington Post aos 22 anos, em 1966. Ganhou o Pulitzer, deixou o jornal, passou pela TV, namorou mulheres como Elizabeth Taylor, se casou três vezes, faliu e virou alcoólatra. Ano passado, vendeu com Woodward por 5 milhões de dólares todo o material do Watergate à Universidade do Texas. Agora, os dois se uniram para escrever o livro sobre Mark Felt.

Ben Bradlee

Sem saber quem era o informante e apesar da pouca credibilidade que o caso Watergate tinha no começo, o editor Ben Bradlee apostou nos dois jovens repórteres e se negou a colocar gente mais experiente quando o assunto ganhou importância. Bradlee só conheceu a identidade do Garganta Profunda duas semanas após a renúncia de Nixon. E não contou o segredo nem para sua terceira e atual mulher. Hoje, aos 84 anos, é vice-presidente do jornal.

 

Saiba mais

Filme (DVD)

Todos os Homens do Presidente, 1976 - Direção: Alan J. Pakula

 

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