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Aventuras na História

Chica da Silva: Senhora sem procedência

A escrava Chica da Silva conquistou o homem mais poderoso das Minas Gerais. Ele comprou sua liberdade e a tornou rica. Mais que isso: a ex-cativa ganhou respeito

Flávia Ribeiro | 01/11/2007 00h00

Francisca nasceu pobre e escrava. Conseguiu a liberdade após viver em concubinato com um homem branco. Ficou rica e conquistou um espaço na sociedade. Isso não era lá algo incomum no Brasil do século 18. Nossa Francisca talvez não fosse citada sequer uma vez em livros se não tivesse se envolvido com um dos homens mais ricos do país na época. Depois de seu relacionamento com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, ela virou Chica da Silva.

E Chica da Silva se transformou em um mito. Como ocorre com todos eles, muito foi dito – grande parte, porém, não era verdade ou não tem qualquer comprovação histórica. Ganhou diversos livros, filme no cinema e novela na extinta TV Manchete. Entre outras coisas, Chica foi descrita como perdulária, devoradora de homens, bruxa. O primeiro homem a escrever sobre a ex-escrava em livro foi Joaquim Felício dos Santos, com suas Memórias do Distrito Diamantino, de 1853. Vista à luz da sociedade do século 19, para quem mulatas como Chica eram dignas de desprezo, ela foi apresentada como uma mulher que “não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim, não possuía atrativo algum que pudesse justificar uma forte paixão”. Era feia, de feições grosseiras, e escondia a cabeça raspada sob perucas, diziam.

Mesmo negativas, as citações a Chica em diversos outros livros da época a fizeram conhecida. Só na segunda metade do século 20, no entanto, ela ganhou aspectos positivos. Passou a ser descrita como bela, o que justificaria a paixão de um homem branco e rico como o contratador de diamantes. O que antes era visto como ato perdulário, como viver cercada de luxo e riqueza, virou sinônimo de refinamento. Tornou-se ainda, num período marcado pelo nacional-desenvolvimentismo ufanista, “a primeira heroína da nascente nacionalidade brasileira, redentora da sua raça”, segundo afirma a historiadora Júnia Ferreira Furtado em Chica da Silva e o Contratador de Diamantes, a mais completa biografia da ex-escava já escrita.

Nos anos 70, surgiu a imagem de Chica que permanece até hoje: sensual, libertária, de sexualidade aflorada. Um novo mito foi criado pelo livro Xica da Silva, de João Felício dos Santos, sobrinho-neto de Joaquim Felício dos Santos, e difundido pelo filme homônimo de Cacá Diegues, ambos de 1976. Além da substituição do “Ch” pelo “X”, a personagem ganhou a beleza de Zezé Motta e a liberação de costumes da mulher daquela década, marcada pela revolução sexual. “Chica é uma personagem com várias construções. A virada do mito, com Cacá Diegues, na verdade diz mais sobre os anos 70 do que sobre a mulher que retrata”, afirma a historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e co-autora do livro para-didático Para Conhecer Chica da Silva.

Outras Chicas

Em 1953, a poetisa Cecília Meireles versava em seu Romanceiro da Inconfidência: “Ainda vai chegar o dia / de nos virem perguntar / – Quem foi Chica da Silva, / que viveu neste lugar?” Pois então: afinal, quem foi ela? Livre dos anacronismos dos séculos subseqüentes, Chica da Silva não foi uma exceção. Foi, sim, um produto de seu tempo. “Muitas ex-escravas afirmavam seguidamente que sua condição de liberta devia-se a elas próprias”, afirma Júnia Furtado, que é professora da Universidade Federal de Minas Gerais. “Mais de 50% dos chefes de domicílio no arraial do Tejuco (como era chamado, então, o distrito de Diamantina) na época eram mulheres libertas, ex-escravas.”

Havia, portanto, muitas outras Chicas, ex-escravas que viviam como senhoras. Muitas eram amantes ou mesmo casadas com homens brancos e poderosos. Outras viviam de seu próprio trabalho, ligado, em grande parte das vezes, ao comércio. Não só no Tejuco, como diz Júnia: “Essa formação social era típica de áreas urbanas, e a região da mineração foi a área mais urbanizada da colônia”. Para ela, Chica passou a ser vista como única porque, objeto de livro, não se perdeu a memória da sua existência. “Já as demais ficaram sob o manto do esquecimento a que a sociedade machista, escravocrata e tradicional do século 19 as relegou”, afirma.

Em 1774, época de Chica, havia 511 residências no Tejuco. Dessas, 282 eram chefiadas por homens livres ou forros – apenas 89 eram negros ou mulatos. No entanto, as outras 229 casas eram comandadas por mulheres livres ou forras. E, dessas, 197 eram negras ou mulatas. Incluindo Chica. Elas se misturaram à sociedade branca. Eram escravas que ganharam a alforria, foram concubinas de brancos ricos, tiveram filhos com eles, enriqueceram, montaram um patrimônio, freqüentaram a Igreja e participaram de ordens religiosas de elite, reproduzindo o modo de vida das brancas, para serem aceitas.

Sobre Chica, não se sabe ao certo quando nasceu, apenas que foi entre 1731 e 1735, no arraial do Milho Verde, perto do Tejuco. Não era negra, e sim parda – o pai dela, Antônio Caetano de Sá, era branco, e sua mãe, Maria da Costa, era uma escrava africana da Costa da Mina. Embora não haja comprovação histórica, acredita-se que Chica era uma mulher bonita, já que atraiu um homem poderoso.

Escrava do médico Manuel Pires Sardinha, ela se envolveu com seu proprietário e foi mãe de Simão Pires Sardinha, nascido em 1751. Dois anos depois, foi viver com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, que a comprou. Acredita-se que Sardinha a vendeu porque teria se comprometido com a Igreja a deixar de viver ilicitamente com duas de suas escravas – Chica, como se sabe, era uma delas. Poucos meses após comprá-la, em pleno Natal de 1753, João Fernandes deu a alforria a Chica. Data do ano seguinte o primeiro documento que a apresenta como a parda forra Francisca da Silva. Naquela época, o sobrenome Silva, bastante adotado no mundo português, indicava o sujeito sem procedência ou origem definida.

Mulher de poderoso

Nossa “Francisca sem procedência” passou a assinar Francisca da Silva de Oliveira depois que a primeira filha do casal, Francisca de Paula, nasceu, em 1755. “Foi com esse nome que Chica iniciou uma nova etapa em sua vida, em que se afirmava no mundo livre por seus próprios meios, porém conectada ao homem ao qual permaneceria ligada até o fim de seus dias”, escreveu Júnia. A nova vida de Chica foi bem diferente daquela a que estava acostumada. Graças à união com o contratador de diamantes, o homem mais poderoso da região, ela ascendeu socialmente e ganhou privilégios. Pôde, por exemplo, freqüentar igrejas e irmandades. Chegou a ser madrinha de batismo e casamento inúmeras vezes – o que prova sua boa posição na rede de relações da cidade, já que era costume escolher para madrinha pessoas influentes. Entre as ordens religiosas, freqüentou algumas que, teoricamente, eram apenas para brancos, como a Irmandade do Carmo, a mais elitista de Tejuco.

Chica não se transformou apenas em uma pessoa rica – também ganhou respeito. Parte disso deve-se ao fato de ter virado uma espécie de mecenas da região. Costumava promover bailes e peças de teatro. “Uma mulata podia virar uma dama e ninguém tocava no assunto”, diz a historiadora Sheila Siqueira de Castro Faria, diretora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de artigos sobre mulheres forras, como “Sinhás Pretas: Acumulação de Pecúlio e Transmissão de Bens de Mulheres Forras no Sudeste Escravista”. Apesar disso, era analfabeta, embora tenha aprendido ao menos a assinar o nome, libertando-se de mais um estigma.

A ex-escrava teve ainda uma legião de escravos. Eram pelo menos 104, negros como sua mãe ou mulatos como ela. A maioria das negras forras tinha escravos – ou para se afastar do mundo do trabalho, como as senhoras brancas, ou para trabalhar com elas, aumentando sua riqueza. “A filosofia abolicionista é do século 19. No 18, quando Chica viveu, não havia nenhuma incoerência no africano vir como escravo e, ao virar livre, comprar seus próprios escravos”, diz Sheila. A própria mãe de Chica, Maria da Costa, foi escrava de um ex-escravo, Domingos da Costa.

Ainda contrariando os mitos criados em torno dela, Chica tampouco era uma devoradora de homens. Teve filhos com apenas dois. O primeiro ainda com seu primeiro dono, o médico. Todos os outros 13 rebentos tiveram o mesmo homem como pai, João Fernandes, durante os 17 anos em que viveram juntos. Os dois nunca foram casados oficialmente, mas viveram em concubinato até o contratador de diamantes viajar para Portugal, em 1770 – ele foi defender sua herança após a morte do pai e não voltou mais.

João Fernandes morreu em 1779. Sete anos depois, em 16 de fevereiro de 1796, foi a vez de Chica, cuja cerimônia fúnebre foi “cercada de toda pompa a que ela tinha direito como irmã do Santíssimo, de São Francisco de Assis, das Almas, da Terra Santa, das Mercês e do Rosário”, relata Júnia Furtado. Quando morreu, segundo a autora, “não era mais uma escrava parda sem nada de seu; era senhora de ‘grossa casa’, possuidora de bens imóveis e numerosos escravos”. Era, já havia mais de 40 anos, uma mulher importante, que viveu com um homem poderoso, acumulou fortuna e se tornou, como disse Cecília Meireles também no Romanceiro da Inconfidência, “a Chica-que-manda!”

 

Prole embranquecida

Um dos filhos de Chica se envolveu com os inconfidentes mineiros

Chica da Silva lutou para livrar os filhos do estigma da cor e da escravidão. Todos esconderam do jeito que puderam o passado de ex-escrava da mãe, para assim continuar a ascender socialmente. João Fernandes conseguiu que dom José I, o rei de Portugal, legitimasse todos os rebentos.

A tentativa de “embranquecer” a prole tinha um objetivo: garantir o futuro de todos na sociedade. Para isso, Chica mandou todos os cinco filhos homens estudarem em Portugal e as mulheres, em um convento. De todos os herdeiros, quem mais se destacou foi o filho mais velho, Simão Pires Sardinha. Graduou-se em Artes em Lisboa, virou membro da Ordem de Cristo – “a maior honraria que um indivíduo não nobre poderia almejar”, segundo a historiadora Júnia Ferreira Furtado –, sócio-correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, sargento-mor das ordenanças das Minas Gerais e almoxarife do Reino. Em 1788, Simão envolveu-se com os participantes da Inconfidência Mineira – embora nunca tenha sido formalmente acusado disso. De acordo com Júnia, “foi Simão que mandou avisar o alferes (Tiradentes) de que estava sob vigia e que sua prisão era iminente”.

 

O brilho do diamante

Companheiro da ex-escrava tinha autorização para explorar a pedra preciosa

Brasileiro, filho do sargento-mor português João Fernandes de Oliveira com a carioca Maria Inês de Souza, João Fernandes nasceu em 1727 e ficou rico quando, em 1739, seu pai arrematou seu primeiro contrato de exploração de diamantes da demarcação Diamantina – área em torno do arraial do Tejuco que incluía povoados como Milho Verde, Gouveia, São Gonçalo, Chapada e Rio Manso. Era ele o responsável por controlar o fluxo de diamantes da região e o pagamento à Coroa portuguesa. João Fernandes estudou em Portugal, na Universidade de Coimbra, e formou-se doutor em Cânones, o que o habilitava ao exercício do direito civil e do canônico. Tornou-se cavaleiro da Ordem do Cristo e, aos 25 anos, desembargador. De volta ao Brasil, seguiu para o Tejuco, onde assumiu o quarto contrato diamantino conquistado por seu pai. Foi esse homem de formação acadêmica impecável que, aos 26 anos, encantou-se com Chica, na época ainda uma escrava com entre 18 e 22 anos e já mãe de Simão. Controlando a extração de diamantes, João Fernandes acumulou incrível riqueza. Chica também. Tanto que, mesmo após a ida dele para Portugal, a ex-escrava manteve a riqueza e a influência.

Saiba mais

Livro

Chica da Silva e o Contratador de Diamantes – O Outro Lado do Mito, Júnia Ferreira Furtado, Companhia das Letras, 2006

Mais completo estudo sobre Chica da Silva, a biografia revela ainda, através de minuciosa pesquisa, como vivia a sociedade diamantina do século 18. Em especial, descreve a trajetória de dezenas de outras forras do período, provando que a trajetória de Chica não foi uma exceção.

 

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