Guia do Estudante

Aventuras na História

Circo: No centro do picadeiro

Criado há menos de 300 anos por um ex-militar inglês, com técnicas de organização de quartel, o circo moderno juntou artistas que divertem e entretêm a humanidade há milênios

Felipe Van Deursen | 01/04/2008 00h00

As casas, em chamas, desmanchavam-se no chão e o som do fogo se misturava ao de tiros e gritos de mulheres. O galope sincopado na chuva aumentava a tensão. Em meio ao horror e à confusão, o temido Napoleão Bonaparte bradou de peito cheio a seus homens o orgulho de defender as cores da França, inflando-os de honra e orgulho. Após o inspirado discurso e pronto para montar no cavalo rumo a mais uma vitória, o imperador, com o olhar rígido, meteu o pé direito no estribo esquerdo, ficando de frente para o rabo do animal. Uma posição ridícula. Às gargalhadas, a platéia delirou.

Cenas grandiosas assim eram populares no circo do século 19. A palhaçada descrita acima, involuntária, foi feita por um artista que nunca havia subido no lombo de um cavalo e teve de substituir de última hora o colega que interpretava Napoleão no show As Glórias Militares. A exibição era um dos maiores sucessos do circo do veneziano Antoine Franconi na década de 1860. A dramatização, com mais de 600 pessoas no elenco (o show Alegría, do Cirque du Soleil, em exibição no Brasil, tem em média 50 artistas), encantou públicos em Paris, Londres e Washington – com palhaçadas incorporadas ao espetáculo.

Franconi foi um dos grandes nomes do circo. Mas ele mesmo apenas deu continuidade ao trabalho iniciado no século 18 por seu ex-patrão, Philip Astley – este, sim, considerado o pai do circo moderno. Ex-integrante da cavalaria do Exército inglês, onde chegou a assumir o posto de sargento-major, Astley aplicou as rígidas regras do quartel a seu novo negócio, inventou o picadeiro e juntou nele números com seus cavalos, palhaços, malabaristas e outros artistas que costumavam se apresentar nas feiras das cidades para ganhar a vida. Sim, o circo como conhecemos existe há menos de 300 anos. Mas as artes circenses são muito, muito mais antigas.

Acrobacia olímpica

As diversas atividades que compõem hoje o que chamamos de circo não têm um só local e data de nascimento. “Não existe um circo único. Ele foi e sempre será uma arte de múltiplas origens e influências, presente em quase todas as culturas”, diz Marco Antonio Bortoleto, doutor em Educação Física e pesquisador de artes circenses da Universidade Estadual de Campinas. Na Grécia, acrobatas se apresentavam nas Olimpíadas da Antiguidade e há registros de jogos semelhantes ao malabarismo praticados no Egito antigo.

Em Roma, havia espetáculos públicos com diversas atrações, como teatro, lutas de gladiadores, exibições de animais exóticos e corridas de bigas no gigantesco estádio Circo Máximo – aliás, o termo “circo” é latino, numa referência ao formato circular do estádio. Anfiteatros, como o Coliseu, construído no século 1, foram erguidos para eventos assim. “Em geral, os espetáculos eram oferecidos por cidadãos ricos em homenagem a mortos importantes, vitórias militares ou em honra aos deuses”, afirma Renata Garraffoni, historiadora da Universidade Federal do Paraná.

Trezentos anos antes, na China, artistas que se contorciam e se equilibravam sobre cordas já entretinham imperadores e visitantes estrangeiros. Com o fim do Império Romano e o início da Idade Média, no século 5, trupes de mímicos, ventríloquos, ilusionistas e equilibristas, entre outros, começaram a se apresentar em feiras e praças pela Europa. Pulavam de cidade em cidade, sobrevivendo de contribuições espontâneas. Só no século 18 é que organizadores de espetáculos perceberam que as pessoas pagariam para assistir a esses artistas do povo. Alguns palcos com entrada paga foram abertos no continente. Foi nessa época que Philip Astley teve sua grande sacada.

Em 1768, Astley criou uma pequena arena no distrito de Lambeth, na Inglaterra, para demonstrar sua habilidade em números com cavalo, acompanhado por um tocador de tambor. O show Pequeno Cavalo Militar Adestrado fez sucesso entre nobres e plebeus, e logo Astley mudou-se para a beira do rio Tâmisa, num hipódromo perto da ponte Westminster. Lá, seu lado belicoso floresceu. O rufar dos tambores, os uniformes, as ordens de execução em números e, principalmente, a organização do espetáculo seguiam técnicas da rígida estrutura de um quartel.

Diversão real

No verão de 1770, cartazes chamavam atenção para o galpão de madeira de Astley. Eles diziam: “Vinte diferentes números. Um, dois ou três cavalos todas as noites. Lugar sentado: 1 xelim. De pé: 6 pence”. Naquele ano, seu circo dera um salto e tanto. Ele havia percebido que era mais fácil manter-se de pé sobre os cavalos a galope movendo-se em um círculo – o princípio da força centrífuga. Graças a essa sacada, estava inventado o picadeiro. Sobre ele, o ex-militar juntou, sempre com rigor militar, os números de diversos artistas saltimbancos. Seu espetáculo cresceu e espalhou-se. “Devido à fama e ao nomadismo de seus componentes, similares do circo de Astley despontaram por toda a Europa com impressionante rapidez”, escreveu em Circo Júlio Amaral de Oliveira, um dos maiores pesquisadores do assunto no Brasil. Em 1775, Astley levou o circo a Paris, voltando dez anos depois a convite da rainha Maria Antonieta. Nessa época, Antoine Franconi ingressou no L’Amphitheatre Astley como domador de feras, mas acabou assumindo o comando do negócio em 1789 – com o estouro da Revolução Francesa, o inglês abandonara a cidade. A partir de então, Franconi se tornou o grande nome do circo francês.

Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos viveriam sua era de ouro do circo no século 19. Na década de 1830, o equilibrista inglês Thomas Taplin Cooke criara seu próprio show – que, após encantar o rei William IV, passara a ser chamado Circo Real de Cooke. Com o estrondoso sucesso, em 1836 ele juntou sua companhia de 120 pessoas (um terço delas membros da família) e embarcou para Nova York – foi o primeiro homem de que se tem notícia a cruzar o Atlântico com um circo inteiro. Estabelecidos na América, muitos dos Cooke se casaram com membros de outras famílias circenses, fazendo do clã um dos mais importantes das famílias de picadeiro. “Em 1897, havia mais de 200 descendentes diretos de Thomas Taplin Cooke, a maioria envolvida com o circo. O circo era, e ainda é, uma comunidade fechada”, diz Peter Verney em Here Comes the Circus (“Aí vem o circo”, inédito em português).

Na época, um sapateiro americano resolveu arriscar a sorte ao criar o próprio espetáculo. Aron Turner usou uma tenda desmontável, novidade que acabara de dar os primeiros primeiros passos na Europa – até então, o circo tinha uma estrutura fixa. O Circo Turner rodou o país agitando cidades com uma invenção de seu fundador, as paradas de rua. O espetáculo com estrutura móvel fez sucesso. Na Europa, a itinerância também agradava. George Sanger fazia turnês de nove meses, passando por 200 lugares. Na Rússia, os espetáculos apresentavam-se desde o fim do século 17, incentivados pelo czar Pedro, o Grande, e formaram a base de uma das escolas mais respeitadas no mundo do circo.

Em 1883, no Nebraska, Estados Unidos, William Cody iniciou um fenômeno que virou moda por décadas: o Velho Oeste. Com elencos enormes, que incluíam mais de 100 índios e perseguições a cavalo, Cody tornou-se uma lenda, lembrada até hoje por seu nome artístico: Buffalo Bill. Na mesma época Phineas Taylor Barnum, famoso pelo chamado “circo dos horrores” , e James Bailey exibiam-se dentro e fora dos Estados Unidos com o show O Maior Espetáculo da Terra.

De fato, era mesmo. Numa área de 20 mil metros quadrados, eles atraíam 10 mil pessoas por sessão. Nas turnês, usavam ferrovias. Com seus próprios vagões para carregar tendas, equipamentos, animais e artistas, o diretor do circo, William Coup, criou um sistema logístico tão funcional que atraiu as Forças Armadas – às vésperas da Primeira Guerra (1914-1918), oficiais foram enviados para viajar com o circo e observar o engenhoso método de Coup. O exército, que influenciara as origens do circo moderno, agora aprendia com ele.

A guerra inviabilizou turnês na Europa, palco do conflito, e foi um dos problemas do circo mundial no século 20. Além disso, surgiram o rádio e o cinema para disputar o tempo de lazer das pessoas. Na Europa, muitos circos pereceram. Nos Estados Unidos, o governo tentou evitar isso. O circo Ringling Brothers, que comprou o império de Barnum e Bailey e o ampliou, teve apoio (embora não financeiro) do presidente Franklin Roosevelt para levantar o moral dos americanos.

Mais tarde, com o surgimento da TV e a profissionalização do negócio, o circo mudou. Os anos de ouro são passado – mas o show tem de continuar. “Novos espetáculos são montados todos os anos e idéias com a temática do circo são incorporadas em outras áreas”, diz LaVahn Hoh, professor de História do Circo Americano da Universidade da Virgínia, citando exemplos como o de um hotel de Las Vegas que tem a decoração baseada no circo. Hoje, porém, é mais fácil ver malabaristas em um semáforo do que em um picadeiro de verdade. O que, mesmo sem querer, mantém viva a idéia de Philip Astley: estender a todos o privilégio de poucos.

 

A evolução das artes circenses

Como e quando nasceram os números de circo

GARGANTA PROFUNDA

Os primeiros engolidores de espada surgiram na Índia, há 4 mil anos: a prática era religiosa. Faquires e xamãs também andavam sobre brasa, encantavam serpentes e deitavam em camas de pregos. A atividade se espalhou pelo mundo todo, foi perseguida na Europa medieval e, no século 19, incorporada ao “circo dos horrores” de P.T. Barnum.

BRINCADEIRA DE MENINA

Hieróglifos egípcios encontrados nas tumbas de príncipes da 11ª dinastia (2000 a.C.) são a mais antiga referência a malabaristas. O egiptólogo Julio Gralha ressalta que se tratava de uma brincadeira de meninas acrobatas. “Eram vistos como jogos, não como espetáculos”, diz. Malabaristas gregos se apresentavam entre as competições nas Olimpíadas antigas, no século 6 a.C.

PONTO DE EQUILÍBRIO

O circo chinês começou a se desenvolver na dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), quando a educação, a ciência e as idéias de Confúcio prosperaram no país. O imperador Wu costumava receber visitantes com espetáculos cheios de acrobatas, contorcionistas e equilibristas. Fez tanto sucesso que ele decidiu, em 108 a.C., realizar os shows todos os anos.

NÚMERO DAS BESTAS

Uma das principais atrações do Império Romano era a exibição de animais exóticos e a caçada de feras. Leões, tigres, jacarés e elefantes eram expostos ao público. Os animais chegaram ao circo americano no século 18.

ARTE POPULAR

Durante a Idade Média, os saltimbancos apresentavam-se em feiras populares, especialmente na França, Alemanha, Holanda e Inglaterra. Faziam números de mímica, malabarismo, ilusionismo, ventriloquia ou marionetes. Muitos eram ciganos, outros foram perseguidos pela Igreja. E já tinham uma característica de muitos circos modernos: casavam-se entre si, formando uma grande família.

AIÔ, BILLY!

Philip Astley, um cavaleiro excepcional, estreou seu número em 1768 e ensinou muitos dos truques existentes até hoje a seu cavalo Billy. Em dois anos, mudou-se para uma arena maior, onde criou o picadeiro e se tornou o primeiro mestre de cerimônias do circo. No século 19, o inglês Andrew Ducrow criou números como aqueles em que o cavaleiro fica como uma estátua sobre o cavalo.

 

O PALHAÇO AMERICANO

Já havia palhaços na China, Grécia e Roma. Lá, dois artistas foram executados pelo império e, depois, canonizados – São Filomeno e São Genésio. Mas o primeiro grande nome foi Dan Rice, maior artista do “circo dos horrores”. Ele era tão popular que inspirou a criação de um dos maiores símbolos americanos: o Tio Sam.

 

Atração pelo diferente

"Circo dos horrores" apresentava anões, gigantes e até uma sereia

O americano Phineas Taylor Barnum entrou no mundo do entretenimento quando passou a exibir Joice Heth, uma negra apresentada como tendo 161 anos e que teria sido babá de George Washington, primeiro presidente americano. Com essa atração bizarra, Barnum iniciou o que se convencionou chamar de “circo dos horrores”. Em 1841, comprou uma mansão em Nova York e criou o Grande Museu Americano, onde exibia “500 mil curiosidades de todos os cantos do globo”, segundo um cartaz da época. Além de cães amestrados e estátuas vivas, expunha ciganos, albinos, obesos, gigantes e anões. Um ano depois, Barnum causou arrepios com uma sereia. Ninguém conseguiu nunca comprovar a autenticidade – ou a falcatrua – da criatura. Depois da sereia, o novo astro do local foi Tom Thumb (“Pequeno Polegar”). O sujeito, que se chamava Charles Sherwood Stratton, tinha nanismo proporcional, diferente dos anões. “Esse tipo de prática (mostrar curiosidades) sempre existiu na sociedade, em muitos casos como parte de shows públicos, especialmente na Idade Média”, diz o pesquisador Marco Antonio Bortoleto. Em 1865, o Grande Museu foi destruído por um incêndio, sendo reconstruído em seguida. Três anos depois, o fogo consumiu novamente o prédio. Mas, em 1870, aos 60 anos, ele voltaria ao auge com o show O Maior Espetáculo da Terra.

"Pão e circo"

Expressão é usada fora de seu contexto original

É comum escutar que o brasileiro vive de “pão e circo” no sentido de sermos apaixonados por futebol e desapegados da política. A expressão, originária do Império Romano, passou a ser usada com sentido metafórico no século 19, após estudiosos alemães a difundirem. A historiadora Renata Garraffoni afirma que o termo foi retirado do livro Sátiras, de Juvenal. Nele, o autor, que viveu no século 2, era literal: debochava da plebe, que já havia sido virtuosa, mas vivia só de shows públicos e da distribuição gratuita de trigo. “O contexto é de exagero, mas a expressão foi transformada em verdade sobre os romanos e as sociedades modernas.”

Saiba mais

Livro

Here Comes the Circus, Peter Verney, Paddington Press, 1978

Ricamente ilustrado, traça um panorama da história do circo, com ênfase na Inglaterra e nos Estados Unidos.

 

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