Guia do Estudante

Aventuras na História

A criação da Bíblia

Para cerca de 2 bilhões de pessoas em todoo mundo, ela conta a história de como Deus criou tudo o que existe. Agora, arqueólogos, historiadores e teólogos estão descobrindo como a própria Bíblia surgiu

Rodrigo Cavalcante | 01/12/2005 00h00

"No princípio, Deus criou o céu e a terra.” A frase curta, simples e direta – e talvez, por isso mesmo, de uma força avassaladora – está logo na abertura da Bíblia, o conjunto de textos mais conhecido do mundo. É quase impossível pensar o Ocidente sem essas narrativas. Seria o mesmo que imaginar o mundo sem as sonatas de Bach, os oratórios de Handel, os afrescos de Giotto, as esculturas de Michelângelo, os quadros de Leonardo da Vinci, as catedrais góticas – nunca é demais lembrar que boa parte dessas obras foram inspiradas em textos bíblicos. A própria noção divina de criação, ao menos como a conhecemos, sequer existiria – assim como não conheceríamos também o sentimento de pecado original e culpa que lota os consultórios de psicanálise.

Mas se a versão bíblica da criação é conhecida até por seguidores de outros textos sagrados, como budistas, hinduístas e muçulmanos (no caso dos seguidores do Islã, esses textos teriam sido atualizados e superados pelo Alcorão), poucos são os que se perguntam, afinal, como a própria Bíblia foi criada.

Durante muito tempo, a maioria dos cristãos (hoje estimados em mais de 2 bilhões) se contentava com uma resposta simples para essa pergunta: a Bíblia fora escrita por líderes religiosos inspirados diretamente por Deus, e pronto. “Ainda hoje há uma noção ingênua de que ela praticamente caiu do céu”, diz o historiador André Chevitarese, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em primórdios do cristianismo. “Poucos se dão conta de que esses textos foram selecionados, escritos, copiados e modificados durante séculos e que, até chegar às versões atuais, muitos outros manuscritos ficaram de fora.”

Após décadas de pesquisas, os especialistas estão conseguindo, finalmente, revelar como os textos sagrados da Bíblia foram escritos e editados até se transformarem no livro mais influente do planeta.

Autoria coletiva

Hoje é fácil identificar quem escreveu um livro. Quase sempre o nome do autor está lá, em letras chamativas, na capa da edição. No caso da Bíblia, contudo, a coisa é bem mais complicada. Por muito tempo, a tradição pregava que os textos bíblicos foram escritos por autores claramente identificáveis. A tradição cristã e judaica, por exemplo, costuma identificar Moisés como o autor do Pentateuco, os cinco livros que abrem a Bíblia. O rei Davi seria autor da maioria dos Salmos, Samuel seria autor de Juízes, enfim, cada uma dessas obras teria sido escrita por uma pessoa. Mas hoje os estudiosos sabem que, durante o período em que esses textos foram criados, essa idéia de autoria sequer existia.

Arqueólogos e historiadores estimam que as primeiras narrativas bíblicas começaram a ser transmitidas oralmente antes do segundo milênio antes de Cristo. Ainda assim, elas só teriam sido compiladas em forma escrita por volta do século 7 a.C. Ou seja: entre a tradição oral e sua reunião em rolos de pergaminho teriam se passado séculos. Para complicar ainda mais a situação, os escribas que copiavam manualmente os pergaminhos ficavam à vontade para fazer correções, adições e inserções no texto, de acordo com a inclinação religiosa de sua comunidade. Ou seja: a Bíblia seria, no final, uma obra de autoria coletiva a partir de antigas narrativas orais. “Acostumados com a moderna noção de autoria, essa idéia parece hoje estranha para muitos leitores”, diz o pesquisador John William Rogerson em seu livro An Introduction to the Bible (no Brasil, traduzido como O Livro de Ouro da Bíblia). Mas como seria possível provar que a Bíblia foi escrita dessa maneira?

Durante muito tempo, a resposta estava na análise dos próprios textos. Segundo os especialistas, até um leitor comum poderia identificar, na repetição de vários trechos, essa autoria coletiva. Esse seria o caso, por exemplo, da narrativa do Dilúvio, no capítulo seis do Gênesis. Com uma distância de poucas linhas, há trechos praticamente idênticos, como os dois abaixo:

“Iahweh (Deus) viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo desígnio de seu coração.”

“Deus viu a terra: estava pervertida, porque toda a carne tinha uma conduta perversa sobre a terra.”

A repetição acima não seria, como já se chegou a cogitar, um artifício literário para reforçar o conteúdo do texto – e sim a fusão de duas narrativas distintas sobre o mesmo tema, assim como um editor de jornal pode escrever um artigo com base em reportagens de vários jornalistas.

Até meados do século passado, conclusões como essa só podiam ser feitas a partir de textos relativamente recentes. Desde então, uma série de descobertas arqueológicas revolucionou a pesquisa sobre as origens da Bíblia, fazendo com que os historiadores pudessem ter acesso a pergaminhos com mais de 2 mil anos, em um tempo em que não existia nem o chamado Novo Testamento.

Primeiros textos

Imagine se você pudesse voltar no tempo e ler os textos sagrados que existiam na antiga Palestina antes de Jesus nascer – ou mesmo durante a vida dele. Foi isso o que aconteceu em 1946 quando, ao procurar uma cabra perdida em uma gruta nas proximidades do mar Morto, o pastor Mohamed Adh-Dhib encontrou, por acaso, jarras de cerâmica com escrituras sagradas em peles e papiros que foram datadas do século 3 a.C. até o ano 68. Eram os chamados Manuscritos do Mar Morto, considerados a mais importante descoberta da moderna arqueologia bíblica.

No total, foram encontrados 15 mil fragmentos de texto, a maioria em hebraico, a língua em que as primeiras narrativas bíblicas foram escritas. Mais tarde, os pesquisadores descobriram que as grutas funcionavam como uma espécie de biblioteca. Logo que começaram a ser traduzidos, os pergaminhos provocaram uma verdadeira revolução na pesquisa dos primórdios da Bíblia. “Eles revelaram a diversidade de textos do período entre as várias correntes religiosas que existiam dentro do judaísmo”, diz Paulo Nogueira, professor de Literatura Bíblica da Universidade Metodista de São Paulo. “Além disso, os manuscritos trouxeram à luz textos religiosos até então desconhecidos.”

Entre esses textos, estava uma narrativa apocalíptica sobre uma guerra entre “Os Filhos da Luz e os Filhos da Escuridão”, além de um “Manual de Disciplina”. Os pesquisadores atribuíram os textos aos essênios, seita judaica radical cujos seguidores viviam distantes do judaísmo oficial do Templo de Jerusalém, seguindo regras que incluíam a renúncia de todo bem material assim como de toda forma de prazer carnal. Por adotarem esse estilo de vida, há pesquisadores que acreditam que João Batista e que o próprio Jesus teriam tido contato com os essênios.

Polêmica à parte, a descoberta dos pergaminhos levou os estudiosos a concluir que não havia apenas uma coleção de textos sagrados. De acordo com a direção religiosa de cada grupo judaico do período, outros textos podiam ser copiados em rolos de pergaminho.

Alguns deles, contudo, traziam versões parecidas com o que se conhece hoje. É o caso, por exemplo, dos trechos do Pentateuco, os cinco livros que abrem o que os cristãos chamam de Antigo Testamento e que os judeus chamam de Torá, a “Lei” (fazem parte do Pentateuco Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). “Esses textos eram a base de qualquer biblioteca judaica”, diz Nogueira.

Apesar das mudanças feitas com o passar do tempo, a essência dessas narrativas foi preservada. Após a queda dos reinos de Israel e Judá entre os séculos 8 e 6 a.C., quando milhares de judeus partiram para o exílio, surgiram as primeiras traduções dos textos bíblicos para outras línguas. A partir daí, narrativas como as do Gênesis escaparam das fronteiras da Palestina para o mundo.

A mais famosa dessas traduções foi feita por volta do século 3 a.C. para a língua grega, o idioma mais influente na época. A tradução foi encomendada para a Biblioteca de Alexandria, o mais importante centro cultural do período. Como há uma lenda dizendo que o trabalho foi obra de 72 tradutores judeus para o governante egípcio Ptolomeu II, essa versão ficaria conhecida como a Septuaginta, ou LXX (70, em algarismos romanos), que ainda hoje é a base da Bíblia usada pela Igreja Ortodoxa Grega. Essa versão da Bíblia Hebraica para outro idioma geraria a primeira grande polêmica envolvendo as traduções. O Talmude, livro de tradições judaicas que reúne textos escritos entre os séculos 2 e 5, narra a confecção da Septuaginta: “O dia foi tão doloroso quanto o dia em que o bezerro de ouro foi construído, pois a Torá não poderia ser acuradamente traduzida”. Segundo a tradição judaica, “as trevas cobriram a Terra durante três dias”.

A primeira tradução realmente continha diferenças, a partir dos próprios nomes dos livros do Pentateuco. No hebraico, o primeiro se chamava Bereshit (“No princípio”). Na versão em grego foi renomeado de Genesis, que quer dizer “origem”. Shemôt (“Nomes”, em hebraico), o segundo, virou Exodos, ou “saída”. O terceiro livro, chamado Vaicrá (“Ele chama”) ou Sêfer Torat Cohanim (“Livro dos sacerdotes”), recebeu o nome de Levitikon (“Descendentes de Levi”). Bamibdar (“No deserto”), também chamado Humash Hapercudim (“Livro dos censos”), virou Arithmoi em grego, ou Números em português. Por fim, Dvarim (“Palavras”) ou Misné Torá (“Segunda Torá”) virou Deuteronomos (deutéros = segundo / nomos = lei).

Além da versão em grego, havia traduções para o aramaico, a língua corrente na antiga Palestina na época do nascimento de Jesus. Por isso mesmo, os pesquisadores dizem que Jesus pode ter tido acesso a essas escrituras.

Se Jesus teve ou não acesso aos textos bíblicos, ninguém sabe – há estudiosos que defendem que, por ter nascido em uma família pobre, ele sequer sabia ler. A única coisa certa é que, após a sua morte, novos textos iriam ser escritos por seus seguidores. Dali em diante, os textos sagrados de judeus e cristãos iriam se separar, e a Bíblia ganharia o que seria mais tarde chamado de Novo Testamento.

Bíblia d.C

Após a pregação de Jesus, seus seguidores tiveram que lidar com uma questão nada fácil: os antigos escritos sagrados continuam valendo, ou eles foram anulados pela mensagem do Cristo? A resposta dos primeiros cristãos não podia ter sido mais habilidosa. Por um lado, ficou acertado que as antigas escrituras tinham, sim, validade, como prova da aliança firmada entre Deus e o povo hebreu. Por outro, a mensagem de Jesus teria criado um novo pacto, já que o próprio Deus havia enviado seu filho para ser crucificado e assim redimir os pecados da humanidade.

Essa nova mensagem é a base dos quatro evangelhos, livros que foram incluídos na Bíblia junto com outros textos cristãos, no que passou a ser chamado de Novo Testamento. Mesmo quem não é cristão já ouviu falar dos evangelhos de Marcos, Lucas, Mateus e João. Mas poucos são aqueles que ouviram falar, por exemplo, do Evangelho de Tomé, uma das muitas narrativas sobre Jesus que ficaram de fora.

Encontrado em 1945, na aldeia de Nag Hammadi, no Egito, o Evangelho de Tomé fascina os historiadores pelo seu formato completamente diferente do dos outros evangelhos. Praticamente não há narração. Tampouco há qualquer menção a eventos como a anunciação, a infância, os milagres ou a ressurreição de Jesus, mas apenas uma coletânea de 114 ditos atribuídos diretamente a ele. Quem o lê tem a sensação de estar ouvindo frases de um sábio, sem interpolações. Por que, então, o Evangelho de Tomé foi excluído da versão definitiva?

“O Evangelho de Tomé não trata do Jesus ressuscitado, um dos pilares da ala mais forte da Igreja liderada por Paulo de Tarso”, diz o pesquisador André Chevitarese. “A decisão do que entra ou não no cânon, afinal, sempre foi uma questão de poder.” Na prática, o cânon é uma espécie de lista oficial de livros considerados de inspiração divina e reconhecidos como tal por autoridades eclesiásticas. (O termo “cânon”, de origem grega, deriva da palavra semita ganu, “vime”, utilizado para construir cestos e também como medida de comprimento – e, por extensão, significa norma, lei).

O manuscrito mais antigo que contém a íntegra do Novo Testamento foi achado em 1844, em um mosteiro no Monte Sinai, e data do século 4. Escrito em grego, ele é uma evidência de que o cânon já estava praticamente fechado nesse período. Além disso, o manuscrito tem o formato de códice, o ancestral do livro moderno, revelando a preferência dos cristãos pelo uso da nova tecnologia no lugar dos velhos rolos de papiro ou pergaminho. Segundo os pesquisadores, o uso do códice foi uma vantagem na difusão dos textos cristãos, tornando-os mais fáceis de serem manuseados em comparação aos antigos rolos. A “nova mídia” possibilitava também, pela primeira vez, a inclusão de todas as escrituras em um único volume, o que deu unidade à narrativa bíblica.

Com a conversão do imperador romano Constantino ao cristianismo, no século 4, o centro da nova religião se desloca do Oriente Médio para Roma. Nada mais natural, então, que os textos sagrados ganhem uma versão em latim, a língua do império. A tarefa é dada a São Jerônimo (cujo retrato feito pelo holandês Joos Van Cleve, no século 16, está reproduzido na capa desta edição), que, em 405, cria a versão conhecida como Vulgata, traduzida com base na versão em grego e em textos hebraicos.

Durante a Idade Média, a Vulgata seria a base das edições da Bíblia, reconhecida até hoje como texto oficial da Igreja Romana. Nos mais de mil anos que separam a versão de Jerônimo da primeira Bíblia impressa de Gutemberg, em 1455, a única forma de difundir os textos sagrados eram as cópias à mão, tarefa quase exclusiva de monges especialistas. Fora a possibilidade de erros no entendimento da letra alheia, os copistas se especializaram em tornar o texto mais agradável aos reis, cardeais e poderosos de ocasião: surgiram assim diferenças entre as versões francesa, de Flandres e outras. Eram, em sua maioria, trocas de palavras ou supressões de trechos considerados impróprios ou imorais – ou simplesmente erros. Na Espanha, por exemplo, o termo “infiel” era usado para os babilônicos, para associá-los aos muçulmanos, inimigos na briga pelo controle da península Ibérica. Em 1441, durante o Concílio de Ferrara-Florença, eram tantas e tão diferentes versões, que a Bíblia trazida pela missão francesa tinha 340 páginas a mais do que a versão dos espanhóis.

A reforma

Depois da Reforma Protestante, em 1522, Martinho Lutero publica a famosa tradução em alemão do Novo Testamento, a primeira feita em uma língua européia moderna, a partir do grego e do hebraico. Em 1534, ele publica a tradução completa da Bíblia para o alemão. Nela, houve uma supressão na escolha dos textos que até hoje faz com que a Bíblia de católicos e de protestantes seja diferente. Para escrever sua versão do Antigo Testamento, Lutero se baseou apenas no cânon da Bíblia Hebraica, que não incluía os livros do Antigo Testamento conhecidos pela Igreja Católica como deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, Macabeus I e II, partes de Daniel e Ester), chamados assim por terem sido reconhecidos somente após a canonização dos outros livros do Antigo Testamento. Já que não havia uma versão hebraica desses textos, Lutero não os reconheceu (apesar de considerá-los uma leitura edificante), e até hoje eles são considerados apócrifos (não inspirados por Deus) pelos protestantes.

Desde então, com a proliferação das técnicas de impressão mecânica, a Bíblia já foi traduzida para mais de 250 línguas – as primeiras versões em língua portuguesa apareceram no século 18. Entre as edições modernas, há tantas versões diferentes do livro que os pesquisadores preferem falar de bíblias, no plural, no lugar de Bíblia, no singular. Eles lembram que a edição que você tem em casa, dependendo da tradução e da linha teológica que segue, pode ser diferente da de outra edição. E essa diferença não se restringe apenas a nuances do texto e de traduções. Católicos, protestantes e seguidores da Igreja Ortodoxa até hoje não chegaram a um consenso sobre se alguns textos devem ou não ser considerados sagrados.

No século 20, surgiu até uma adaptação em linguagem moderna, baseada nas teorias gramaticais do pesquisador Noam Chomsky. Com o objetivo de provocar nos leitores modernos o impacto que o texto original teria causado, o Salmo 1, por exemplo, mudaria de “Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios, não pára no caminho dos pecadores...” para “Felizes aqueles que rejeitam os conselhos de homens maus, que não seguem o exemplo de pecadores”.

Deixando de lado as diferenças, a Bíblia continua, em pleno século 21, encabeçando a lista dos livros mais influentes do mundo. São publicadas, anualmente, mais de 11 milhões de versões do texto integral, 12 milhões de Novos Testamentos e 400 milhões de brochuras com trechos de textos bíblicos. Como diz o escritor americano Jack Miles, autor de Deus, uma Biografia, a Bíblia criou um ideal de caráter humano e divindade que vem moldando os homens por séculos. Até mesmo aqueles que não acreditam nela ou em Deus.

 

Escrita valiosa

Quais são e ondeestão os manuscritosoriginais da Bíblia
Michelle Veronese

Guardado na biblioteca da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o Papiro Nash é um verdadeiro tesouro arqueológico. Adquirido no Egito, em 1902, por Walter Llewellyn Nash, é composto por quatro fragmentos que, reunidos, revelam 24 linhas escritas à mão, onde aparecem os Dez Mandamentos e alguns versos do Deuteronômio, livro do Antigo Testamento. A língua utilizada é o hebraico antigo e o texto não possui vogais. Embora diminuto em tamanho (consiste em apenas uma folha de papiro), sua importância é gigantesca – data do século 2 a.C., o que faz dele um dos mais antigos manuscritos da Bíblia. Textos como o do Papiro Nash são pistas preciosas para os arqueólogos, teólogos e historiadores que buscam desvendar os mistérios sobre a composição da Bíblia. A análise desse material permite uma aproximação do conteúdo original das Sagradas Escrituras, já que os primeiros textos hebreus não resistiram ao tempo. Além disso, os manuscritos revelam fatos interessantes, como os métodos de redação e o contexto em que surgiram. Sabe-se, por exemplo, que os mais antigos textos bíblicos foram escritos a pincel e pena, primeiramente em rolos de papiro e, depois, em pergaminhos. As folhas de papiro eram feitas de uma planta muito comum no Egito (chamada Cyperus papyrus), mas, por serem frágeis, poucas chegaram aos dias de hoje. Já os pergaminhos eram feitos do couro de animais, como ovelhas e carneiros, e resistiram por mais tempo. “Os papiros, em tese, dão acesso a cópias mais fiéis aos textos originais. Porém, pela fragilidade do material, eles são compostos por milhares de fragmentos, alguns do tamanho de confetes. “É o caso do Papiro Bodmer, do final do século 2, onde se encontra o Evangelho de João quase na totalidade, e isso já é algo espetacular”, diz o teólogo Pedro Lima Vasconcelos, da PUC de São Paulo.

Os pesquisadores também descobriram que o papiro, além de frágil, era mais barato que o pergaminho – o que explicaria por que os cristãos demoraram a utilizar o segundo material em seus escritos. “Nos primeiros séculos, quando o cristianismo era uma religião de grupos marginalizados, houve uma predominância de textos em papiro. Só quando a religião foi aceita pelo Império Romano, no século 4, o pergaminho começou a ser adotado”, diz Pedro. O conjunto mais famoso de papiros e pergaminhos bíblicos foi descoberto em 1946, em onze cavernas na região de Qumran, em Israel. Batizados de Manuscritos do Mar Morto, a maioria teria sido escrita entre os séculos 3 a.C. e 1 d.C. Atualmente expostos no Santuário do Livro, em Jerusalém, eles contêm alguns dos textos mais antigos das Escrituras de que se tem notícia. Mas não são os únicos considerados valiosos pelos especialistas. Com o tempo, os rolos de papiro e pergaminho começaram a ser trocados pelo códice (ou códex), espécie de livro arcaico, cujas folhas eram sobrepostas e costuradas numa das margens. É esse o formato de outros grandes achados arqueológicos, como o Códex Sinaítico, descoberto em 1844 no mosteiro de Santa Catarina, próximo ao Monte Sinai, no Egito, e o Códex Vaticano, localizado no século 15, num canto esquecido da biblioteca do Vaticano. Escritos em grego, no século 4, ambos contêm tanto o Novo quanto o Antigo Testamento, embora algumas partes estejam faltando. O Manuscrito de Santo Efrém – também chamado de Reescrito de Santo Efrém – é um códice igualmente importante, principalmente pela técnica nele utilizada. Os copistas empregaram um processo conhecido como palimpsesto (do grego “raspado de novo”), que consistia em raspar ou lavar o pergaminho e usá-lo de novo. Testes com luz infravermelha revelaram que o texto havia sido copiado no século 4, raspado 200 anos depois e, mais tarde, substituído pelos sermões de Santo Efrém, religioso que viveu na Síria no século 4. Atualmente, está exposto na Biblioteca Nacional de Paris.

Da Vulgata (tradução da Bíblia para o latim feita por São Jerônimo no século 5) sobraram milhares de manuscritos. Há mais de 8 mil, a maioria anterior ao século 12. O mais antigo e completo é o Códex Amiatinus, hoje guardado na Biblioteca Laurentiana, em Florença, na Itália. Foi escrito por várias mãos, em caligrafia medieval. Alguns calculam que sua redação tenha consumido peles de mais de 500 carneiros. Ao contrário do Papiro Nash, este tem tamanho e peso proporcionais a sua importância: são 2 060 páginas e mais de 30 quilos.

 

Saiba mais

Livros

O Livro de Ouro da Bíblia, J.W. Rogerson, Ediouro, 2002 - Uma introdução à história da Bíblia, do seu uso e de suas diferentes versões

História do Cristianismo, Paul Johnson, Imago, 2001 - Clássico para entender a história da Igreja – e, por conseqüência, o debate sobre a origem da Bíblia

O Evangelho de Tomé, Marvin Meyer, Imago, 1993 - Além da versão em português do interessantíssimo evangelho apócrifo, a edição traz um belo ensaio do crítico literário Harold Bloom

Deus, Uma Biografia, Jack Miles, Companhia das Letras, 2002 - Ao abordar a Bíblia como uma obra literária, o autor consegue traçar um perfil fascinante de seu personagem principal, Deus.

 

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