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Aventuras na História

Egito: a maldição e as pragas

Rio que vira sangue, dia que vira noite, doenças apavorantes e mortes inexplicáveis dos que violaram o túmulo da múmia

01/06/2007 00h00

Na tumba do jovem Tutancâmon, uma inscrição ameaçava: “A Morte tocará com suas asas aquele que perturbar o sono do faraó”. Isso não impediu que o arqueólogo Howard Carter e sua equipe invadissem a única tumba intacta remanescente do Egito antigo naquele ano de 1922. O financiador da expedição, lorde Carnarvon, também entrou. Desde então, coisas estranhas começaram a acontecer. Uma cobra comeu o canário de estimação de Carter. Pouco tempo depois, lorde Carnarvon foi picado por um inseto. Ao barbear-se, cortou o local. Uma grave infecção se alastrou. Cinco meses depois de ter entrado na tumba, morreu de pneumonia. Os jornais que não puderam entrar na tumba (Carter tinha feito um contrato de exclusividade com o Times de Londres) resolveram investir nesses fatos “sobrenaturais”. Um jornalista disse que as luzes do quarto do lorde acenderam e apagaram sozinhas pouco antes de seu último suspiro. Outro afirmou que a picada em seu rosto ficava no mesmo lugar onde a múmia de Tutancâmon tinha uma cicatriz. Um príncipe egípcio foi assassinado pela esposa ciumenta em um hotel londrino. A imprensa não teve dúvidas: a alma de uma princesa egípcia saiu da tumba e possuiu a ciumenta na hora do crime. A lenda da maldição do faraó correu o mundo. Em pouco tempo, dizia-se que, dos 26 membros da equipe, 22 tiveram mortes misteriosas e repentinas.

Na verdade, as inscrições ameaçadoras serviam para amedrontar saquea- dores – e eles não eram poucos no Egito antigo. Mas os meliantes já tinham perdido o medo. O próprio Tutancâmon mal havia “esfriado” no caixão, cerca de 15 anos depois de sua morte, quando tentaram roubar os tesouros que ele levaria para a outra vida. Arqueólogos acreditam que os ladrões foram pegos a tempo pelos guardas que vigiavam o local. Muito tempo depois, no século 19, livros de ficção voltaram a explorar o tema. Nas primeiras décadas do século 20, depois da descoberta de Carter, filmes de terror do cinema alimentaram ainda mais a lenda.

Conta Zahi Hawass, maior autoridade egípcia em arqueologia, que, em 1977, alguns tesouros descobertos na tumba de Tutancâmon em 1922 rodaram o mundo em diversas exposições. O diretor da Organização de Antiguidades Egípcias era Mohammed Mahdy. Ele assinou a autorização para que 50 objetos da tumba fossem enviados aos Estados Unidos e Londres. No mesmo dia, ao sair de seu escritório, no Museu do Cairo, foi atropelado e morreu. Sobre a volta da maldição, seu sucessor, Gamal Mehrez, declarou a um jornalista alemão: “Eu trabalho há 30 anos como arqueólogo, descobri templos, tumbas, múmias, e ainda tenho saúde”. No dia seguinte, morreu de ataque cardíaco fulminante.

COMO EXPLICAR?

O lorde inglês pode ter morrido de choque anafilático por causa da picada. Os que morreram depois podem ter sido vítimas de doenças pulmonares. Em ambientes fechados, sem luz do sol, cheios de excrementos de morcego, desenvolve-se o fungo causador da histoplasmose, doença pulmonar de difícil cura. Howard Carter morreu de câncer em 1939, aos 66 anos. O resto é o tradicional “quem conta um conto aumenta um ponto”. A própria inscrição que abre este texto nunca foi vista. Dizem que estava numa placa, que se perdeu. Outras existem até hoje. Uma das mais simples e diretas diz: “Eu torcerei seu pescoço como a um ganso”.

DEUS ENVIOU DESGRAÇAS

Segundo a tradição, as dez pragas do Egito foram castigos que Deus enviou contra o faraó e seu povo, por intermédio do profeta Moisés, para convencer o soberano a libertar Israel de seus domínios. Os hebreus viviam em paz em território egípcio durante a dominação dos hicsos (que teria durado de 1640 a.C. a 1522 a.C.). De repente, com a expulsão dos hicsos, foram transformados em escravos. A missão de pôr um fim ao cativeiro coube a Moisés.

Cada vez que o profeta pedia ao faraó para que ele deixasse seu povo partir e o faraó recusava, Deus mandava uma desgraça se abater contra os egípcios. Só com a morte dos primogênitos Moisés conseguiu ser atendido.

Guiados pelo profeta, os hebreus chegaram às margens do mar Vermelho. A essa altura, o faraó tinha se arrependido da decisão e mandado seu exército recapturá-los. Durante a perseguição, aconteceu mais um fato extraordinário. Para permitir a passagem de seu povo, Moisés dividiu o mar, criando um caminho pelo meio. Os hebreus atravessaram em segurança. Quando os egípcios tentaram passar, foram engolidos pelas águas. Pode-se dizer que esse foi o 11º castigo de Deus.

CATÁSTROFE ECOLÓGICA

Segundo especialistas, entre eles o físico britânico Collin Humphreys, da Universidade de Cambridge, existem explicações científicas para todos esses fenômenos. Uma mudança climática repentina pode ter aquecido as águas do Nilo e provocado a reprodução descontrolada de uma alga (Pfiesteria piscicida) que provoca hemorragia nos peixes. A intoxicação da água pode ter feito rãs e sapos fugirem, espalhando-se por uma área maior. O sumiço dos sapos do rio provocou uma superpopulação de insetos, inclusive do maruim, um pequeno mosquito de picada dolorida. A peste eqüina africana e a peste da língua-azul são doenças transmitidas pelo maruim. Outro tipo de inseto, a mosca dos estábulos, também teria proliferado. O mormo, doença eqüina que também ataca o homem, é transmitida por essa mosca e produz úlceras na pele.

Uma chuva de granizo, embora rara, pode ocorrer na região. Nuvens de gafanhoto até hoje atormentam agricultores de vários países. A escuridão de três dias é atribuída a uma forte tempestade de areia. A morte dos primogênitos teria sido provocada por um bolor tóxico desenvolvido nos celeiros. Em tempos de vacas magras, era costume dar preferência ao filho mais velho na alimentação. Eles teriam sido as primeiras vítimas da intoxicação. Quanto à suposta travessia do mar Vermelho, uma hipótese é a de que os hebreus tenham cruzado terrenos alagadiços rasos na região onde hoje é o Canal de Suez.

“Escutem todos! O sacerdote de Hathor castigará em dobro aquele que entrar nesta tumba ou fizer qualquer mal a ela. (...) O crocodilo, o hipopótamo e o leão devorarão aquele que causar qualquer malefício à minha tumba.”

(Maldição inscrita na tumba de Petety, um dos construtores das pirâmides de Gizé)

 

As 10 pragas do Egito

1. As águas do Nilo se transformam em sangue

2. Rãs infestam o rio e cobrem ruas e telhados

3. Infestação de piolhos ou maruins

4. Moscas varejeiras invadem as casas do faraó e de seus servos

5. Uma peste mortífera atinge os animais

6. Homens e animais ficam cobertos de tumores que arrebentam em úlceras

7. Uma chuva de granizo castiga pessoas, animais e vegetação

8. Gafanhotos cobrem o solo e comem o que resta das plantações

9. Durante três dias, o Egito fica na mais completa escuridão

10. Todos os primogênitos do Egito, inclusive do faraó, morrem

 

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