Guia do Estudante

Aventuras na História

El Cid, senhor da Espanha

Um dos maiores cavaleiros da Idade Média, ele foi eternizado como um herói a serviço dos reis cristãos. Mas os historiadores mostram que El Cid lutou com igual bravura pelos muçulmanos

Carla Aranha | 01/06/2007 00h00

A vista era de tirar o fôlego. De um lado, o mar Mediterrâneo. De outro, o grande lago Albufera. No meio, os pomares e campos de arroz, os vinhedos e as oliveiras. O palácio real, com suas fontes e jardins, completava a paisagem. Do ponto mais alto da construção em estilo mouro, era possível abarcar todo o incrível cenário que fazia a fama da cidade de Valência. El Cid e sua esposa, Jimena, ficaram embasbacados quando chegaram lá, em 1094, para finalmente viver juntos em paz.

El Cid morreu cinco anos depois, com cerca de 50 anos – bastante velho para uma época em que as pestes e as guerras corriam soltas. Com o fim do homem, nasceria um dos maiores mitos da Idade Média: o do herói ibérico que venceu os muçulmanos em nome do cristianismo, com dedicação canina aos reis espanhóis. Essa versão se tornou extremamente popular – dando origem, por exemplo, a obras como o clássico filme El Cid, de 1961, com Charlton Heston e Sophia Loren.

É certo que Rodrigo Díaz de Vivar, o El Cid, foi um militar brilhante, que dificilmente perdia uma batalha. Antes de morrer, já havia se tornado famoso em toda a península Ibérica. Mas a lenda a respeito de Rodrigo esconde um traço fundamental de sua vida: por muito tempo, ele foi um mercenário, que lutou tanto ao lado dos cristãos como dos muçulmanos. “Hoje, a partir do estudo isento de documentos históricos, temos acesso a um El Cid bem diferente daquele da lenda”, diz o historiador espanhol Francisco Javier Villalba, da Universidade de Madri.

Mas quem é esse El Cid que vem sendo redescoberto? Antes de responder a essa pergunta, é preciso entender o tempo e o lugar em que ele viveu. Na Europa do século 11, o conceito de Estado nacional não existia. As terras do continente eram divididas em reinos que guerreavam constantemente entre si. No norte do que hoje são Espanha e Portugal, havia os territórios cristãos de Leão, Navarra, Castela, Aragão e Galícia. Já o sul, chamado de Andaluzia, era controlado por muçulmanos, que haviam chegado à península Ibérica numa maciça invasão árabe no século 8. Nessa terra dividida, conflitos armados eram o estado natural das coisas.

Os principados da Andaluzia eram chamados de taifas. Seus habitantes, os mouros, eram hábeis agricultores e artesãos. A região prosperava e seus líderes tinham dinheiro para pagar por proteção. O esquema funcionava assim: cada reino cristão coletava impostos anuais de algumas taifas, sob a condição de enviar exércitos para protegê-las quando necessário. O inverso também era verdadeiro. Se os cristãos precisavam, os aliados muçulmanos vinham em seu socorro.

Esse clima de guerra constante era bem conhecido na família de Rodrigo Díaz. De origem nobre, ele nasceu em Vivar, um povoado no reino de Castela, por volta de 1043. O pai, o soldado Diego Laínez, ajudara a conquistar terras da região vizinha de Navarra. As boas relações familiares permitiram que o jovem Rodrigo fosse educado na casa onde morava Sancho, filho de Fernando I, rei de Castela, Leão e Galícia. É provável que, depois disso, Rodrigo tenha estudado em uma escola próxima à cidade de Burgos, onde aprendeu noções de direito e latim.

O treinamento militar era fundamental na educação dos nobres – a classe social de onde saíam os cavaleiros medievais. Ainda jovem, Rodrigo aprendeu a cavalgar e a manejar com maestria o escudo, a lança, a espada e o arco-e-flecha. O mais impressionante era sua habilidade em usar as armas sobre o cavalo, sem se desequilibrar. Nas batalhas corpo-a-corpo da Idade Média, permanecer montado podia significar a diferença entre a vida e a morte.

A lança e a lei

Com cerca de 20 anos, Rodrigo entrou para valer na violenta política ibérica. Ele ainda era um aprendiz de cavaleiro quando rumou com seu parceiro Sancho e as forças de Castela para Graus, nas montanhas dos Pirineus. A cidade era controlada por um aliado dos castelhanos, o mouro al-Muqtadir, governante de Zaragoza. Ao mesmo tempo, era cobiçada pelo reino de Aragão. Quando os aragoneses atacaram Graus, em 1063, o exército de Castela impediu que ela fosse tomada. Os detalhes da sangrenta batalha se perderam no tempo, mas sabe-se que Rodrigo lutou sozinho contra guerreiros bem mais experientes. Jimeno Garcés, famoso mercenário de Navarra, foi morto pelas mãos do aprendiz.

Dois anos após a vitória em Graus, o rei Fernando I morreu. Suas posses foram divididas entre os três filhos. O caçula García passou a governar a Galícia, enquanto Afonso ficou com o reino de Leão. Sancho, o mais velho, herdou Castela. Seu leal amigo Rodrigo, que a essa altura já havia sido ordenado cavaleiro, foi promovido a comandante de toda a milícia castelhana. Não tinha mais que 23 anos.

Os herdeiros de Fernando I não demoraram a entrar em conflito. Em 1068, eclodiu uma guerra entre Castela e Leão. Liderados por Rodrigo, os castelhanos saíram vitoriosos. Quatro anos depois, a briga se repetiria, com nova vitória de Castela. Sancho passou a reinar também sobre Leão, enquanto o derrotado Afonso partiu para o exílio. Mas o reinado duplo de Sancho durou poucos meses. Em 7 de outubro de 1072, ele foi assassinado. “É provável que ele tenha sido vítima de um complô armado pelos reinos rivais”, diz o historiador espanhol Manuel García Fernández, da Universidade de Sevilha.

Com a morte de Sancho, seu irmão retornou e foi coroado rei de Castela e Leão, ostentando o nome Afonso VI. Mas o que fazer com Rodrigo, homem de confiança do monarca morto? Ele foi destituído do comando do Exército, mas Afonso VI decidiu mantê-lo na corte. Em vez da lança e do escudo, o guerreiro passou a usar seus conhecimentos jurídicos. Como emissário real, ele viajava para julgar casos de conflito agrário ou disputas por monastérios. Não se sabe se Rodrigo preferia a burocracia à tensão da guerra, mas ele se saía muito bem como juiz. Em gratidão, o rei lhe arranjou um bom casamento. Por volta de 1076, Rodrigo desposou Jimena, filha do conde Diego de Oviedo. Mas as intrigas ibéricas logo trariam Rodrigo de volta ao campo de batalha.

O mercenário

Por volta de 1079, o juiz Rodrigo e sua comitiva foram mandados por Afonso VI à taifa de Sevilha, aliada de Castela e Leão, para coletar o imposto anual de proteção. Com o mesmo objetivo, o rei havia enviado outra missão para a taifa de Granada. Apesar de serem aliadas do mesmo monarca cristão, as duas cidades muçulmanas tinham uma rixa entre si. Abd Allah, governante de Granada, aproveitou o momento para atacar Sevilha.

Para honrar o acordo de proteção, os emissários castelhanos que estavam em Granada tiveram que participar do ataque. Quando Sevilha se viu ameaçada, exigiu a ajuda de Rodrigo e seus homens. Por mais incrível que possa parecer, as duas comitivas do mesmo rei cristão tiveram que lutar em lados diferentes de uma batalha entre muçulmanos. “Nesse tipo de situação, não havia muito a fazer”, diz a historiadora Maria Ruiz, da Universidade de Sevilha. “Era preciso seguir as regras do jogo e obedecer a vontade da taifa protegida.”

A habilidade de Rodrigo fez a diferença para os sevilhanos. As forças de Granada foram facilmente derrotadas e o cavaleiro fez diversos prisioneiros. Entre os cristãos detidos estavam alguns ilustres homens de Castela, que não receberam tratamento privilegiado. Eles foram soltos logo depois, mas se tornaram ferrenhos opositores de Rodrigo. Apesar de ser leal ao rei, ele não se preocupava em adular a nobreza. “Ao contrário do que reza a lenda, ele era voluntarioso e fez inimizades sérias”, afirma Manuel Fernández.

Dois anos depois da vitória em Sevilha, Rodrigo pagaria caro por sua impulsividade. Um grupo de bandidos vindo de Toledo saqueou o palácio de Gomaz, em Castela. Enfurecido, o cavaleiro decidiu partir para a vingança – é possível que ele tivesse terras na região atacada. A essa altura, Rodrigo já tinha um pequeno exército particular, que incluía militares castelhanos e mercenários. À frente dele, invadiu e arrasou Toledo.

Mas Rodrigo fez tudo isso sem pedir o consentimento de Afonso VI. Como se não bastasse, Toledo era uma taifa sob a proteção de Castela. Os inimigos de Rodrigo nem precisaram se esforçar para fazer com que ele fosse banido do reino. Desempregado e sem pátria, o cavaleiro deixou seus familiares em Castela e partiu para a segunda e menos famosa fase de sua vida: a de mercenário. O primeiro nobre a quem Rodrigo ofereceu seus préstimos foi o conde de Barcelona, Berenguer Ramón II. Nada feito. O cavaleiro partiu então para negociar com os muçulmanos. Al-Muqtadir, governante de Zaragoza, recebeu Rodrigo de braços abertos. “Era comum mudar de lado naquela época. O que não faltava na Europa eram soldados mercenários que lutavam por quem pagasse mais”, diz Maria Ruiz.

Em 1084, o monarca al-Fagit, senhor das taifas de Lérida, Tortosa e Denia, se aliou a Aragão e a Barcelona e partiu para conquistar Zaragoza. Mesmo com forças muito inferiores, Rodrigo salvou a cidade e prendeu o conde Berenguer – aquele mesmo que lhe tinha recusado emprego – e todo seu séquito de cavaleiros. Para libertá-los, entrou em cena uma prática comum na Europa medieval: o pagamento de resgate. A vitória encheu os cofres de Zaragoza e os bolsos de Rodrigo.

Após a vitória, o cavaleiro cristão ganhou de seus amigos muçulmanos o apelido pelo qual seria eternizado. Agora ele era El Cid – a expressão veio de al-sid (“senhor”, em árabe). Assim como sua fama, sua riqueza também cresceu – o que lhe permitiu incrementar sua milícia pessoal, que agora tinha pelo menos 200 homens. Em 1086, veio a reconciliação com Afonso VI. Acredita-se que El Cid tenha ganhado ao menos dois palácios e alguns territórios para voltar a sua Castela natal.

Cansado de guerra

Para manter sua tropa de mercenários, El Cid precisava de dinheiro. A maneira mais óbvia de consegui-lo era sair pela península conquistando territórios e saqueando o tesouro de cidades. Em 1090, o cavaleiro atacou taifas protegidas por Barcelona. Primeiro foi Denia, depois veio Valência. Furioso, o conde Berenguer montou uma emboscada para El Cid. As forças do mercenário foram surpreendidas quando estavam acampadas na acidentada região de Tévar. Mesmo cercado, El Cid venceu. E, de novo, o conde Berenguer e seus nobres caíram prisioneiros. O resgate cobrado para libertá-los foi milionário.

Dois anos depois dos combates em Tévar, Afonso VI precisou defender suas terras contra uma invasão muçulmana e convocou El Cid. O cavaleiro, que estava vivendo perto de Valência, não apareceu (acredita-se tenha sido só um problema de comunicação). Mais uma vez, El Cid foi desterrado. Seus bens em Castela acabaram confiscados e sua família foi presa.

Sem dinheiro nem posses, o cavaleiro reuniu sua milícia e partiu para conquistar Valência novamente. E não parou por aí. Em cerca de dois anos, ele se tornou senhor de grande parte do leste da atual Espanha. El Cid se tornou mais rico e poderoso que muitos reis. Mas nada era mais importante que resgatar sua família e recuperar suas terras em Castela. A estratégia foi sitiar a cidade de La Rioja, que era controlada por Afonso VI, e forçar o soberano a entrar em um acordo. Funcionou. Mais uma vez, o rei e seu antigo vassalo se reconciliaram.

Com suas filhas, Cristina e Maria, casadas com príncipes de Navarra e Aragão, respectivamente, El Cid garantiu que sua família teria um lugar seguro entre a nobreza ibérica. Em 1094 ele pôde, finalmente, aposentar suas armas e descansar em Valência. Nas refeições, tomava o vinho feito com as uvas plantadas tempos atrás pelos mouros, de quem ele próprio havia tomado a cidade. A mesquita local, em que o cavaleiro costumava rezar, foi transformada em igreja – mesmo tendo servido os muçulmanos com lealdade, ele nunca deixara de ser cristão. Em 1101, dois anos após sua morte, o corpo de El Cid foi levado para Castela. Lá, foi sepultado no monastério de Cardeña, a 13 quilômetros da cidade de Burgos, onde está até hoje.

Entre os relatos que eternizaram o herói, um deles impressiona. Foi escrito por Ibn Bassan, cronista mouro do século 12. Mesmo após as últimas conquistas de El Cid, que infligiram derrotas pesadas aos muçulmanos, Bassan superou o ódio de seus antepassados e sentenciou: “Esse homem, o flagelo de seu tempo, por seu apetite pela glória e por sua bravura heróica, foi um dos milagres de Deus”.

 

Entre Deus e Alá

Veja a terra em que El Cid viveu

Durante a expansão do mundo islâmico, a Espanha foi uma conquista óbvia para os árabes que viviam no norte da África: ficava do outro lado do minúsculo estreito de Gibraltar. Em 711, chegou a primeira expedição muçulmana à península Ibérica. Antes do fim daquela década, praticamente toda a região seria dominada pelos muçulmanos. O reino islâmico na Europa foi batizado de Al-Andaluz – “terra de vândalos”, em árabe.

Os muçulmanos trouxeram gêneros agrícolas (como o arroz, a cana e a banana) e uma cultura que celebrava a poesia e a música. Em 1031, no entanto, guerras civis acabaram com a unidade entre os árabes europeus e os principados islâmicos se tornaram independentes. Na época de El Cid, eles se aliavam a reinos cristãos enquanto lutavam entre si.

No século 13, os cristãos avançaram na conquista dos territórios islâmicos. Para sua sorte, uma nova dinastia árabe, a nazarí, implantou um governo precário e instável. Era o fim de Al-Andaluz. Em 1492, o governante de Granada, Boabdil, se rendeu aos reis de Castela e Aragão e lhes entregou a última cidade árabe da Espanha.

 

O homem, o mito

Como a literatura e os governantes mudaram a cara de El Cid

A história de El Cid não demorou a inspirar obras literárias. Cerca de um século após sua morte, ocorrida em 1099, surgiu a Historia Roderici. De autor desconhecido, é uma biografia do guerreiro, onde são relatados os principais feitos e batalhas de que participou. “Biografias de homens que não fossem nem reis nem santos eram extremamente raras na Alta Idade Média”, diz o historiador Richard Fletcher no livro Em Busca de El Cid.

Por volta de 1207, as aventuras de El Cid já tinham dado origem a uma das maiores obras-primas da literatura hispânica, o poema “Cantar de Mio Cid”. O autor, Per Abbat, ressalta a figura do herói, mostrando um El Cid que usa a espada para o bem comum. “No século 13, os reis cristãos da Espanha precisavam pregar união e lealdade, e a figura romantizada de Rodrigo Díaz caiu como uma luva”, diz a historiadora inglesa Jane Whetnall, da Universidade de Londres.

Em 1929, o historiador espanhol Ramón Menéndez Pidal publicou La España de El Cid (nos anos 60, o mesmo Pidal seria consultor do filme sobre o herói). A obra, que descreve um patriota e vassalo fiel, acabou sendo usada como propaganda pelo general nacionalista Francisco Franco, que se tornou ditador da Espanha em 1939. Com o fim do governo Franco, em 1975, o livro deixou de ser referência sobre o cavaleiro. “Hoje sabemos que Pidal utilizou obras literárias em vez de procurar documentos históricos”, diz Whetnall.

 

Saiba mais

Livros

Em Busca de El Cid, de Richard Fletcher, Unesp, 2002

O historiador, morto em 2005, faz uma das mais completas e bem fundamentadas sobre El Cid.

A Cruz e o Crescente – Cristianismo e Islã de Maomé à Reforma, Richard Fletcher, Nova Fronteira, 2004

Analisa séculos da convivência entre muçulmanos e cristãos, incluindo o período em que os mouros viveram na Espanha.

 

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