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Aventuras na História

Francesco Matarazzo: o maior de todos

De vendedor de banha de porco a dono deum dos maiores grupos industriais do mundo, Matarazzo multiplicou fábricas, cresceu nas crises, flertou com o fascismoe ajudou a construir o capitalismo brasileiro

Fábio Peixoto | 01/11/2005 00h00

Ele mede 1,83 metro, pesa cerca de 80 quilos e tem porte atlético. Por uma questão de estilo, raspa os cabelos e se mantém careca. Graças a sua grande habilidade, teve sucesso ainda muito jovem e conseguiu enriquecer rapidamente. É conhecido no mundo inteiro e, apesar de ter morado anos na Europa, nunca negou seu amor pelo Brasil. Poderíamos estar falando do centroavante Ronaldo, o “fenômeno”, certo? Sim. Mas a mesma descrição serve também a outro homem ilustre: Francesco Matarazzo. E as semelhanças param por aí. Sinal dos tempos, Matarazzo não era jogador de futebol, mas empresário. A partir de um pequeno capital inicial, ele acumulou um patrimônio que em valores atuais passaria de 20 bilhões de dólares e o colocaria confortavelmente entre os dez homens mais ricos do mundo, brigando pela sétima posição (na célebre lista de milionários da revista Forbes, os brasileiros mais bem colocados são os irmãos Safra, banqueiros que possuem 5,2 bilhões de dólares e estão em 91º). As Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, as IRFM, chegaram a empregar mais de 30 mil pessoas, número que pouquíssimas empresas privadas atingem no Brasil de hoje.

Há outro traço importante que distingue Matarazzo de Ronaldo: ele não era brasileiro, mas italiano. Sempre que pôde, elogiou o país que o acolheu, mas jamais se naturalizou. Mantendo laços fortes com sua pátria-mãe, o empresário ganhou o título de Conde do Reino da Itália – e passou a ser chamado assim também no Brasil. Morreu em 1937, vítima de falência renal, às vésperas de completar 83 anos. Além de diversificar e fazer crescer a indústria nacional, o legado de Matarazzo para o Brasil incluiu a conquista de um enorme mercado consumidor, fundamental para o desenvolvimento de nosso capitalismo. Muitos brasileiros aprenderam o que era fazer compras adquirindo produtos das IRFM. Como escreveu Ronaldo Costa Couto, autor da melhor biografia sobre o conde, ele era um “fabricante de fábricas”.

Apesar de ser um dos homens mais poderosos de sua época, Matarazzo era simpático e relativamente simples. Não era dado a grandes ostentações, ao contrário de alguns de seus descendentes, conhecidos como esbanjadores. Em 1924, em Nápoles, o conde deu provas disso ao encomendar um terno na sua alfaiataria preferida. O alfaiate estranhou, dizendo que um filho do industrial havia passado lá mais cedo e mandado fazer não um, mas seis trajes. Matarazzo não titubeou: “Ele tem pai rico, eu não”. Ao morrer, o empresário deixou a viúva Filomena, 11 filhos e mais de 30 netos e de dez bisnetos. A imensa família do patriarca é parte da explicação de como um complexo industrial dos maiores já vistos no mundo pôde desaparecer.

Francesco Antonio Matarazzo nasceu em 9 de março de 1854, primogênito de nove irmãos. Era filho do médico e comerciante Costabile (falecido em 1873) com Mariangela. O sobrenome familiar, de origem greco-sarracena, significa “rocha forte”, e o jovem Francesco fazia jus a ele: era musculoso e alto. A calvície prematura o fez optar por raspar os cabelos. Desde o século 14, os Matarazzo viviam na pequena Castellabate, a cerca de 200 quilômetros de Nápoles, às margens do Mediterrâneo. Eram uma família tradicional da cidade, mas sem grande patrimônio.

A unificação da Itália, entre 1861 e 1870, foi o estopim para a emigração em massa dos italianos. A política do governo central incluía substituir a agricultura familiar pela produção em larga escala. Privados de seu modo de vida tradicional, camponeses partiram para buscar trabalho em países como o Brasil. Algumas comunidades foram literalmente partidas ao meio: estima-se que, por volta de 1900, havia 3 mil castellabatenses vivendo na Itália e outro tanto morando em São Paulo.

Alguns poucos homens de negócio também emigraram para fugir da crise. Como Matarazzo. Ao chegar ao Brasil, aos 27 anos, acompanhado de sua companheira Filomena e de dois filhos, ele já tinha uma década de experiência no comércio. Além disso, trazia consigo economias equivalentes a algo entre 30 mil e 50 mil dólares, em valores atuais – não se fundamenta, portanto, a versão de que Matarazzo teria chegado pobre ao Brasil. Mas o jovem comerciante perdeu boa parte de seu patrimônio logo ao aportar aqui, em dezembro de 1881. No Rio de Janeiro, por um descuido no desembarque, ele viu naufragar duas toneladas de banha de porco que havia trazido da Itália para vender aqui.

O imigrante escolheu se estabelecer em Sorocaba, então com 13 mil habitantes, no interior paulista. No início, abriu um armazém de secos e molhados. Em 1883, nascia na casa de Matarazzo o que pode ser considerada sua primeira fábrica, que consistia de uma prensa de madeira e um tacho de metal, usados para extrair e derreter banha de porco (essencial para a cozinha naquela época). Em pouco tempo, a principal atividade do comerciante passou a ser percorrer o interior paulista em lombo de mula, negociando a compra de porcos e a venda da banha.

O sucesso inicial permitiu que a mãe e alguns dos irmãos de Matarazzo também viessem viver no Brasil. A banha vendia cada vez mais e, já razoavelmente rico, Matarazzo pensou em voltar para a Itália. Conversando com outros imigrantes, ele mudou de idéia e resolveu ir para São Paulo. Afinal, a capital era o centro para onde estavam indo os enormes lucros da cafeicultura paulista.

O SEGREDO DA ALTA

Há quem diga que Matarazzo chegou a ter mais de 365 fábricas, podendo visitar uma diferente a cada dia do ano. Na verdade, ele possuía pouco mais de 200, que faturavam mais do que a produção individual de todos os estados brasileiros, com a exceção de São Paulo. Mas o conde realmente gostava de visitar ao menos uma de suas instalações por dia, hábito que manteve até passar dos 80 anos. Era conhecido por acordar por volta de 4 da madrugada e trabalhar até a noite. Sinal de que o empresário acreditava mais na transpiração do que inspiração. Em 1934, de acordo com o biógrafo Costa Couto, ele resumiu assim os segredos de seu sucesso: “Alguma inteligência, certa capacidade gerencial, muito trabalho e sorte”.

Inteligente, Matarazzo certamente era. Ele sabia que a inovação era o segredo para o sucesso no capitalismo – ainda mais naquele Brasil que importava até arroz. O primeiro grande salto de Matarazzo foi a idéia, ainda em Sorocaba, de vender banha de porco em lata. Naquela época, boa parte da banha era importada dos Estados Unidos e vinha em barricas de madeira, que muitas vezes deixavam o conteúdo estragar. Ao usar embalagens de metal, Matarazzo aumentava a durabilidade do produto e permitia que os consumidores comprassem quantidades menores, evitando o desperdício. As latas do italiano começaram a expulsar as barricas norte-americanas do mercado. Décadas depois, em entrevistas, o industrial atribuiria todo o seu sucesso a essa invenção.

A banha em lata é um exemplo de como Matarazzo agiria em toda sua carreira. Fazendo barato dentro do Brasil o que antes era caro e chegava do exterior, ele ajudava na chamada “substituição de importações”. Outro traço importante, que seria levado às últimas conseqüências nas Indústrias Matarazzo, era a “integração vertical”: da matéria-prima à venda final do produto, o empresário controlava todo o processo. Nos primeiros tempos de Brasil, ele comprava pessoalmente os porcos, extraía e embalava a banha, despachava-a em sua própria tropa de mulas ou a vendia em seu armazém. A produção caseira em poucos anos daria lugar a grandes fábricas, e as mulas seriam substituídas por caminhões e navios (veja quadro na pág. seguinte).

A cidade de São Paulo não tinha mais do que 65 mil pessoas quando Matarazzo chegou, em 1890. Dez anos depois, a explosão da economia cafeeira faria a população saltar para quase 240 mil habitantes. Os negócios do empresário iriam crescer num ritmo semelhante. Quando chegou à capital, Matarazzo optou, no início, por investir no comércio, impulsionado pela venda de farinha de trigo importada dos Estados Unidos. Em pouco tempo, tornou-se o maior do ramo, mas sem negar as origens: manteve consigo duas fábricas de banha na região de Sorocaba e uma em Porto Alegre.

Estabelecido na capital, Matarazzo tratou de resolver uma pendência antiga: aos 41 anos, casou-se com Filomena, em setembro de 1895, numa cerimônia simples. A essa altura, o casal já tinha mais de duas décadas de convivência e nove filhos. Em três anos, a família se mudou para um enorme palacete, a segunda casa a ficar pronta na recém-inaugurada avenida Paulista. Não havia mais nenhuma dúvida: Matarazzo fazia parte da nata da sociedade paulistana (de sua garagem sairia, no futuro próximo, o elegante Packard, carro com a placa número 1 da frota municipal). Sua importadora não parava de crescer.

Em meados de 1899, um movimento ousado faz com que Matarazzo finque para sempre o pé na grande indústria. Em vez de importar, ele decide fazer farinha de trigo no Brasil, e resolve construir um moinho de grande capacidade. Nem o emergente Matarazzo tinha capital para tamanho investimento. Graças à sua credibilidade, conseguiu empréstimo com um banco inglês e, em dez meses, estava pronto o Moinho Matarazzo, o maior e mais moderno da América Latina. Ocupando dois quarteirões do bairro industrial do Brás, era a maior fábrica de São Paulo.

O sucesso com a venda da farinha permite quitar em pouco tempo a dívida com os ingleses. Em torno do Moinho, que duplicaria sua capacidade em menos de dois anos, novas fábricas surgem. Em 1901, a fábrica de sacos para embalagem da farinha daria origem à Tecelagem Mariangela – onde 60 mil fusos começaram a fazer tecidos leves e sofisticados. Logo depois, é a oficina de manutenção que se transforma: vira indústria de embalagens. O algodão da tecelagem começa a ser aproveitado integralmente quando, de seu caroço, Matarazzo extrai a matéria-prima para óleos e sabões. Nasceria daí, em breve, a maior fábrica brasileira de saponáceos.

Com o tempo, Matarazzo se tornou uma verdadeira atração turística: paulistanos que nasceram antes da década de 30 se lembram de quando os pais os levavam para ver o empresário sair de carro – ou passear na calçada fumando seu charuto. Matarazzo fundou e presidiu o Centro e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (o Ciesp e a Fiesp), na passagem dos anos 20 para os 30. Já havia feito a mesma coisa com o glorioso clube Palestra Itália (o atual Palmeiras), doando o terreno onde até hoje fica sua sede. A integração do imigrante ilustre na sociedade só esbarrava no idioma: ele jamais aprendeu a falar claramente o português, e se expressava no melhor estilo “macarrônico” – no leito de morte, sua última palavra foi a tradicional exclamação “Mamma!”

CRISE E FASCISMO

No fim da primeira década do século 20, Matarazzo havia consolidado sua atuação nos ramos de alimentos, tecidos e óleos e derivados. Em 1911, nascem as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, sediadas em São Paulo e com filiais em Santos e na Argentina. E a marcha de inaugurações seguia: uma usina de açúcar em 1911, uma fábrica de pregos em 1912... As IRFM já movimentavam milhões de dólares. Matarazzo, em vez de só gozar da fortuna, seguia reinvestindo seus lucros, em busca do objetivo que ele chamava de “emancipação industrial do Brasil”.

No fim de 1914, Matarazzo parte para a Itália com a esposa e os filhos mais novos. A viagem era para ser um período de repouso, mas o patriarca é surpreendido pela entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial. Em vez de voltar, Matarazzo decide ficar e ajudar seu país, cuidando da distribuição de alimentos na região de Nápoles. Essa atuação lhe renderia, além do reconhecimento de seus conterrâneos, o título de Conde do Reino, dado em 1917.

Enquanto a Europa é destruída pelo conflito, as IRFM continuam avançando no Brasil. A súbita dificuldade de se importarem produtos europeus faz com que, para dar conta da demanda interna, a indústria brasileira cresça muito. Com o fim da guerra, Matarazzo retorna a São Paulo. Em 1920, ele adquire um terreno de mais de 100 mil metros quadrados, no bairro da Água Branca. À beira das ferrovias, permitiu realizar o sonho do conde: concentrar muitas de suas fábricas num lugar só. Naquele ano, chegou ao local a produção de itens como sabão, velas e pregos.

Durante a década de 20, as IRFM ainda incorporariam frigoríficos, indústria química, destilaria e até uma distribuidora cinematográfica. E aí veio a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, seguida pela Grande Depressão, que afeta o comércio exterior no mundo todo. Enquanto os barões do café vêem suas exportações caírem 40% num ano, Matarazzo nem liga. Apoiado em matérias-primas nacionais e em seu grande capital, ele aproveita a crise para comprar concorrentes e consolidar seu domínio.

A política também vivia convulsões no início dos anos 30, quando o gaúcho Getúlio Vargas derrubou Washington Luís e assumiu a presidência. Matarazzo era amigo do político paulista, mas não demorou a apoiar o novo governo. Para não prejudicar os negócios, ele evitava se meter em disputas políticas. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo se revoltou contra Vargas, grandes industriais paulistas entraram no movimento (inclusive Ciccillo, sobrinho do conde, que fez capacetes para as tropas). Matarazzo permaneceu neutro até o fim.

A faceta mais controversa do conde, sem dúvida, foi sua ligação com o fascismo. Matarazzo contribuiu com muito dinheiro para o regime de Mussolini, a quem conheceu pessoalmente em 1923, numa viagem à Itália. Voltou elogiando o pulso firme do governante e sua visão de mundo. Nos bastidores, o conde não escondia sua admiração pela figura do ditador – admiração que era recíproca, diga-se de passagem. Mas, em público, o conde dizia não se meter em política brasileira – afinal, continuava sendo estrangeiro. Em 1928, declarou: “Se estivesse na Itália, seria fascista. Aqui, não. Não sou coisa nenhuma”.

QUEDA DO IMPÉRIO

Ermelino Matarazzo, nascido em 1883, tinha sido preparado desde cedo para assumir o lugar do pai. Durante a Primeira Guerra, com pouco mais de 30 anos, ficou encarregado de comandar as IRFM. Quando Francesco retornou da Europa, foi a vez de o jovem Ermelino viajar para a Itália. No começo de 1920, numa estrada próxima a Turim, ele bateu o carro e morreu instantaneamente. O pai nunca conseguiria superar a tragédia (Matarazzo o amava tanto que se dispôs a pagar uma soma em dinheiro para cada filho que lhe desse um neto chamado Ermelino). O patriarca então nomeou Chiquinho, seu penúltimo filho, como seu sucessor. Isso nunca foi bem aceito pelos herdeiros mais velhos. Em 1935, com mais de 80 anos, já debilitado por reumatismo, catarata e inchaço na próstata, o velho Matarazzo ainda lutava para fazer o resto da família aceitar o comando do novo escolhido.

Quando o estado de saúde do octogenário se agravou, seu médico tomou uma medida drástica: cortou o consumo diário de vinho. Em vez de beber duas garrafas, o conde teria que se contentar com apenas um copo. Matarazzo cumpriu a ordem, comprando um copo de 1 litro de capacidade – ele claramente não pretendia desperdiçar a adega pessoal de mais de 6 mil garrafas. Aos 82 anos, enxergava mal, mas ainda visitava suas fábricas apoiado em uma bengala. Mas um dia, depois de trabalhar normalmente, o conde chegou em casa e começou a ter violentas convulsões. Ficou dois dias de cama, quase inerte. Os rins não agüentaram, e ele morreu às 15h de 10 de fevereiro de 1937. Foi enterrado em São Paulo, onde 100 mil pessoas saíram às ruas para se despedir dele. No sepultamento, vários presentes fizeram a saudação fascista.

Após o falecimento do pai, Chiquinho Matarazzo manteve-se à frente do grupo industrial de sua família por quatro décadas e, durante muito tempo, foi o maior empresário da América Latina. Mas em 1969 as IRFM tiveram o primeiro balanço negativo de sua história. No início de 1977, as fábricas passaram ao comando de Mariah Pia, a neta mais jovem do patriarca. Diante de dívidas de milhões de dólares, havia pouca coisa a ser feita. A partir 1983, várias empresas do grupo entraram em concordata, iniciando o desmanche final do império, que incluiu venda de bens, disputas familiares, ações trabalhistas e arrendamento de fábricas. Nem a mansão da família na avenida Paulista resistiu: desabou em meio a uma nebulosa tempestade, em 1996.

Hoje, nas prateleiras dos supermercados, ainda é possível ver produtos que nasceram nas IRFM – um bom exemplo é o sabonete Francis, produzido por uma empresa comandada por um bisneto do conde. É, sem dúvida, um final melancólico se pensarmos que, em vida, Matarazzo vendeu apenas uma empresa, e não foi por necessidade. Era uma fábrica de fósforos, que ele não conseguia integrar ao resto de suas fábricas. Aliás, dizem que ele ganhou um bom dinheiro com o negócio.

Dá-lhe, porco!

O império fabril começou em 1883, neste tacho para ferver banha suína.

Caixa-forte

As IRFM também serviam como banco. Recebiam investimentos que eram registrados em cadernetas como esta, de 1917.

Brasão imperial

O logotipo das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, criadas em 1911, trazia o lema “Fé-Honra-Trabalho” escrito em latim.

Parque de chaminés

Em 1920, Matarazzo juntou várias fábricas num enorme terreno em São Paulo.

Entre os pares

O conde (ao centro) no dia da inauguração da associação empresarial Ciesp, em 1928.

A despedida

O funeral do empresário, morto em 1937, levou 100 mil pessoas às ruas.

 

Os reis das prateleiras

Colecionadorpreserva a memória dosprodutos Matarazzo

Líderes de mercado ou famosos pela qualidade, os produtos das IRFM foram, durante décadas, presença marcante nos supermercados. Graças ao bancário paulistano José Penteado Vignoli, algumas das antigas embalagens estão preservadas. Ele as coleciona desde 1982, quando acompanhou a primeira concordata das IRFM. “Naquela época, a imagem do grupo era pejorativa. Hoje seu valor histórico já é reconhecido”, diz.

Biscoitos

Em épocas como o Natal, as embalagens dos biscoitos Petybon ganhavam desenhos especiais.

Louças

A produção incluía desde azulejos a peças mais finas, como xícaras e pratos.

Óleo

Feito de semente de algodão, era produzido em fábricas de São Paulo e na capital paraibana, João Pessoa.

Sabonete

A marca Luxo vinha em latas como esta. Nos anos 70, as IRFM criaram o Francis, vendido até hoje.

Açúcar

Esta lata, da década de 30, traz um jogo de tabuleiro na tampa e uma curiosa inscrição na lateral: “Os produtos Matarazzo não precisam de reclame”.

 

Tudo feito em casa

Os produtos feitos a partirdo algodão mostram a impressionante integração das empresas do conde

• Para evitar desperdício, Matarazzo comprava o algodão com caroço.

• O fio de algodão era transformado em tecidos diversos nas tecelagens das IRFM.

• O caroço de algodão era usado como matéria-prima de óleos e tintas.

• Os sabonetes de Matarazzo eram feitos com óleos produzidos pelas IRFM.

• Uma gráfica própria fazia cartazes e rótulos dos produtos.

• A cana plantada nas fazendas de Matarazzo virava álcool combustível para os barcos.

• Caixas de madeira para os produtos eram feitas na marcenaria do conde.

• O transporte de produtos contava com docas e navios das IRFM.

• O conde possuía uma frota de caminhões.

• As Indústrias Matarazzo produziam até mesmo seus próprios pregos.

• Ao chegar às lojas, muitos produtos Matarazzo tinham sido feitos e transportados apenas com recursos das suas indústrias.

 

O papito do papito do papito...

Os Matarazzoforam muito além do mundoempresarial

Nunca foi novidade ver um Matarazzo caminhando pelas ruas medievais da pequena Castellabate, cidadezinha de menos de 8 mil habitantes encravada num morro ao sul da Itália. Mas, em janeiro de 1999, um rapaz de cabelos coloridos e arrepiados deve ter chamado bastante atenção. Acompanhado de seus pais e irmãos, Eduardo Matarazzo Suplicy Júnior, mais conhecido como Supla, estava visitando o lugar onde nasceu seu trisavô Francesco. O roqueiro é um exemplo de como a família trazida da Europa pelo velho conde assumiu lugares de destaque na sociedade brasileira. Há, por exemplo, uma consultora de moda e etiqueta, Claudia Matarazzo. No mundo artístico, além de Supla, atua o diretor de novelas Jayme Monjardim, bisneto do patriarca. Mas o Matarazzo mais importante para as artes nacionais foi Ciccillo, sobrinho de Francesco (no ano passado, ele foi representado por Edson Celulari na minissérie Um Só Coração). Empresário, como o tio, ele participou em São Paulo da fundação da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, do Museu de Arte Moderna, da Bienal de Artes Plásticas, do Teatro Brasileiro de Comédia e do Museu de Arte Contemporânea. Ao morrer, em 1977, doou dinheiro e um grande acervo de obras de arte para os museus paulistanos. Outro ambiente em que os Matarazzo se dão bem é a política. Marta, mãe de Supla e ex-mulher do senador Eduardo Suplicy, foi prefeita de São Paulo e responsável pela transferência de seu gabinete para um prédio que o próprio conde começou a construir, no centro da cidade. O empresário Angelo Andrea Matarazzo, que hoje é secretário municipal em São Paulo, é bisneto de Andrea, irmão de Francesco. Por também ocupar o cargo de subprefeito da Sé, ele é responsável pela região da cidade onde antigamente ficavam várias fábricas das IRFM.

Saiba mais

Livro

Matarazzo: A Travessia (volume 1) e Colosso Brasileiro (volume 2), Ronaldo Costa Couto, Planeta, 2004 - É a mais completa biografia sobre o empresário, fruto de cinco anos de pesquisas. A trajetória de Matarazzo é relacionada a momentos históricos decisivos dos séculos 19 e 20.

 

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