Guia do Estudante

Aventuras na História

Gauleses: heróis da resistência

Estamos no ano 50 A.C. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor

Textos Cíntia Cristina da Silva | 01/02/2007 00h00

Estes romanos são uns neuróticos! Fãs de história e de quadrinhos conhecem bem essa frase. Ela aparece na introdução de todos os 34 volumes de uma das séries de HQs mais conhecidas e queridas do século 20: “As Aventuras de Asterix, o Gaulês”, criada pelos franceses René Goscinny e Albert Uderzo. A época, os personagens e os acontecimentos retratados coincidem com o auge do Império Romano do Ocidente e com as façanhas de seu principal general, Caio Júlio César.

O sucesso de César começou na Gália – região que corresponde hoje mais ou menos ao território da França – e pela guerra contra um punhado de bárbaros cabeludos, os gauleses. Nos quadrinhos, eles são toscos, briguentos e comilões. Na vida real, os gauleses são descendentes diretos dos celtas, um dos povos mais antigos da Europa, e chegaram a ocupar uma região muito maior do que a França, onde se passam as aventuras de Asterix e onde César chegou com suas tropas no ano 58 a.C. “Existiam mais de 500 tribos na região, formando estados bárbaros que costumavam viver em guerra constante. A rivalidade era enorme”, diz Jean-Marie Guillon, historiador da Universidade de Provença, em Marselha, França. Segundo Guillon, no século 1 a.C., o conquistador mais temido na Gália era Ariovisto, o rei dos germânicos. “No norte, seu poder chegou ao ponto de ser uma ameaça à influência de Roma na região”, afirma. Ao sul, os romanos controlavam a Gália Narbonense, cuja cidade principal era Massília (Marselha), com seu porto às margens do mar Mediterrâneo. Por toda a região, surgiam as primeiras “metrópoles” dedicadas ao comércio como Burdigala (Bordeaux), Corbilo (Nantes), Gergóvia (Clermont-Ferrand) e, é claro, Lutécia, que, nos quadrinhos de Asterix, é uma cidade com trânsito infernal e com um povo metido. Um lugar que hoje chamamos de Paris.

Os gauleses, ao contrário dos germânicos, não se importavam em plantar, como notou o próprio César em seu diário, publicado pela primeira vez em 51 a.C. com o nome de Commentarii de Bello Gallico – ou “Comentários Sobre as Guerras Gálicas”. Para ele, os gauleses eram guerreiros bagunçados e caçadores apaixonados. “Não se esmeram na agricultura e a maior parte de seu sustento consiste em leite, queijo e carne”, César descreveu. Os criadores de Asterix usaram muitas dessas informações. Na composição do modo de vida de uma vila gaulesa, por exemplo, os quadrinhos são precisos. “Há pequenos comércios de peixe e carne de caça, alguns serviços como os de ferreiros e carpinteiros, mas os caçadores e guerreiros é que ocupam o topo da pirâmide social”, diz Harry Rodrigues Bellomo, professor de História Antiga da Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Não seria impossível andar por uma aldeia gaulesa do século 1 a.C. e cruzar com alguém como Asterix, um guerreiro respeitado. Ou com Obelix, dedicado à caça. Outro personagem dos quadrinhos, Chatotorix, o pior cantor de todos os tempos, também representa um tipo comum na Gália: os bardos. “Como os gauleses não dominavam a escrita, era função de menestréis como Chatotorix preservar a memória da vila. Os bardos cantavam vitória após vitória os feitos dos guerreiros para que eles não fossem esquecidos”, diz Guillon.

Irredutíveis

Fora dos quadrinhos, os gauleses quase sempre levavam a pior. Na vida real, a Gália se rendeu facilmente ao Império Romano. Em 52 a.C., César já estava de volta à Itália. Mas, pouco depois da partida do romano, algumas tribos gaulesas se organizaram sob o comando de Vercingetórix para expulsar os invasores. Quando ficou sabendo da revolta, César voltou imediatamente. O gaulês não tinha chance no combate direto com o exército mais poderoso do mundo e adotou a estratégia da terra arrasada. Empenhado em deixar as legiões romanas famintas, ele ordenou que plantações e vilarejos fossem incendiados.

A Gália toda queimou. Toda? Não! Uma tribo destruiu mais de 20 vilarejos em um dia, mas se recusou a ceder a capital, Avaricum. Foi a luta dessa turma de guerreiros irredutíveis que inspirou a criação de Asterix. “Nunca existiu uma aldeia capaz de opor-se por muito tempo à dominação romana. Mas a resistência de Avaricum, mesmo durando apenas 27 dias, tornou-se famosa já naqueles dias”, diz Anne Bellangier, professora da Universidade Laval, em Quebec, no Canadá. A cidade era fortificada, tinha alimento suficiente para meses e seus cidadãos eram orgulhosos. Resolveram ficar e enfrentar os invasores. Mas, num dia de tempestade, os defensores foram surpreendidos pelas legiões que saltaram a muralha e invadiram a cidade. “Nem velhos, nem mulheres, nem meninos os soldados pouparam”, escreveu César. Dos 40 mil moradores, apenas 800 sobreviveram.

Mas a resistência em Avaricum deu a Vercingetórix tempo para se organizar e impingir aos romanos uma derrota parcial, mas humilhante, na Gergóvia. Dali, confiante que poderia se livrar dos romanos, o líder arverno convenceu 80 mil homens a segui-lo rumo a Alésia. Vercingetórix só não contava com a astúcia de César. Os soldados romanos cercaram os gauleses. Em algumas semanas, 55 mil legionários abriram quilômetros de trincheiras e montaram armadilhas. Vercingetórix ficou isolado.

A última cartada do gaulês foi enviar sua cavalaria para buscar reforços. César, então, mandou construir novas trincheiras no lado oposto, para deter os gauleses que viriam socorrer seu líder. Quando a fome se tornou insuportável, o bravo rebelde entregou suas armas aos pés de César. Os rebelados foram escravizados. O chefe foi levado a Roma, exposto como prêmio de guerra e, cinco anos depois, morreu decapitado.

A vitória contra os bárbaros gauleses levou quase dez anos, mas Júlio César cumpriu sua missão. Pouco depois ele estava pronto para conquistar Roma e o mundo. Os irredutíveis gauleses sobrevivem pelo menos no espírito e na imagem que os franceses têm de si mesmos.

 

A velha França

A Gália do século 1 a.C. tinha centenas de aldeias, algumas sob influência germânica, outras sob o controle de Roma

O perigo mora ao lado

No norte da Gália, habitado pelos belgas, cidades como Alésia eram influenciadas pelos vizinhos germânicos. Mais desenvolvidos, com uma agricultura sofisticada e certa unidade política, eles desafiavam o poder de Roma.

Paris é aqui

Fundada no século 3 a.C. pelos parísios, uma tribo de pescadores celtas, a cidade sempre teve vocação para atrair visitantes. Em 52 a.C., durante a resistência a César, os gauleses incendiaram a cidade e, 50 anos depois, os romanos a rebatizaram como Lutécia.

Gália caipira

Naquela época, a faixa central da Gália, que ficava entre o oceano Atlântico e os Alpes, era habitada pelas aldeias mais atrasadas, que viviam da caça. Numa ponta ficava Arverno, terra de Vercingetórix, e na outra a aldeia de Asterix, Obelix e companhia.

Braços de Roma

O império dominava o sul da Gália desde 120 a.C. A região foi dividida em Gália Cisalpina (região do norte da Itália onde hoje fica a cidade de Turim) e a Gália Transalpina, a atual Provença, localizada no sul da França.

Gália

A Gália está divida em três partes, escreveu Júlio César. “Uma é habitada pelos belgas, a outra, pelos aquitânios, a terceira pelos que em sua língua se chamam celtas, na nossa gauleses.” Eram cem aldeias que ocupavam partes de França, Bélgica, Suíça e Itália.

 

Ora pois!

Asterix existiu e era português
Pedro Bandeira

Respiram ainda alguns indivíduos que, como eu, foram alfabetizados na década de 40 do século passado: a era do gibi. Crescemos saltando de gibi para gibi, de gibi para livros, e, já adultos, recebemos nossa paga, a criação de Goscinny e Uderzo: “As Aventuras de Asterix, o Gaulês”. Foi só nos anos 80 que descobri que Asterix existiu de verdade. No século 2 a.C. houve uma tribo que era liderada por um guerreiro invencível como Asterix – um estrategista genial chamado Viriato. Em 139 a.C., o procônsul romano Quintus Servilius Scipião, encarregado de tomar a região defendida por Viriato, sabendo que não conseguiria vencê-lo, enviou um emissário propondo o fim das hostilidades. E pediu que Viriato mandasse embaixadores para discutir os termos da paz. Aceitando a proposta, Viriato mandou três homens, Audas, Ditalco e Minouro, ao acampamento romano. Scipião corrompeu os três, assassinaram Viriato. Viriato era português. Ou melhor: lusitano. A Lusitânia, de 200a.C. até 139 a.C., foi a única região da Europa que resistiu contra Roma, e só caiu quando seu líder morreu. Os franceses que me desculpem, mas o verdadeiro Asterix era português.

Pedro Bandeira é autor de livros infantis e juvenis

 

Para saber mais

Quadrinhos

As Aventuras de Asterix, o Gaulês, A. Uderzo e R. Goscinny, Record

 

Figurinhas carimbadas

Em suas viagens pelo mundo, Asterix e Obelix conheceram pessoas famosas

• Na aventura Asterix e Cleópatra, nossos amigos gauleses ficam fascinados pela beleza e pelo nariz da rainha egípcia. Cleópatra voltaria a aparecer na história O Filho de Asterix.

• A banda de rock mais importante da história deu uma palhinha na edição Asterix entre os Bretões, quando os heróis vão dar uma mãozinha aos ingleses e conhecem os quatro bardos mais famosos da Bretanha.

• O general romano aparece em muitas histórias. Em Os Louros de César, o chefe Abracurcix promete fazer um ensopado temperado com os louros da coroa de César. Caberá a Asterix e Obelix tornar possível a fanfarronice.

• O bravíssimo corso Buonapartix retratado em Asterix na Córsega é uma caricatura meio óbvia do general Napoleão Bonaparte. Lá pelas tantas, Asterix chega a chamá-lo, sem querer, de Napoleaonix.

 

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