Guia do Estudante

Aventuras na História

A história do Brasil logo após a independência

Após 21 meses de guerra, dom Pedro I garantiu a unidade do território. Até na moda, se valorizava a identidade do país. O brasileiro descobriu o duplo emprego e a primeira Constituição lhe garantiu a liberdade de culto e de imprensa

Tiago Cordeiro | 18/04/2012 10h51

Perto das 16h30 de 7 de setembro de 1822, um rapaz de 23 anos alcançava o alto de uma colina ao lado do riacho Ipiranga, nos arredores da vila de São Paulo, seguido de alguns acompanhantes. Era o príncipe regente dom Pedro, montado numa mula, coberto de poeira e com as botas sujas de lama. A viagem fora mais uma vez interrompida pela diarreia incômoda que o perseguia desde a partida de Santos, antes do amanhecer. O alferes Francisco de Castro Canto e Melo, que vinha de São Paulo com notícias dramáticas, alcançou a comitiva, prestes a retomar o curso. Antes que ele desse seu recado, porém, chegaram a galope dois mensageiros do Rio de Janeiro. Traziam cartas de José Bonifácio de Andrada e Silva, da princesa Leopoldina e do cônsul britânico na capital, Henry de Chamberlain.

O sucessor do trono português não podia esperar novidade pior. Lisboa havia cassado sua regência sobre a colônia e anulava suas decisões anteriores. Um membro da comitiva, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, relataria quatro anos depois o que viu naquela tarde: "Dom Pedro, tremendo de raiva, arrancou das minhas mãos os papéis e, amarrotando-os, pisou-os e os deixou na relva. (...) Caminhou alguns passos, silenciosamente. De repente, estancou já no meio da estrada, dizendo-me: ‘(...) As cortes me perseguem, chamam-me de rapazinho, de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero com o governo português e proclamo o Brasil, para sempre, separado de Portugal’". Minutos depois, diante da guarda de honra que o esperava mais à frente (leia acima), desembainhou a espada para determinar: "Será nossa divisa de ora em diante: Independência ou Morte!", descreveu o chefe da guarda, o coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo.

Moda tupiniquim

Poucos meses depois, nas principais cidades do novo país, muitos homens começaram a mudar alguns de seus hábitos. O deputado baiano Cipriano Barata, por exemplo, passou a se vestir exclusivamente de algodão brasileiro e a usar chapéus feitos de palha de carnaúba - no que foi rapidamente imitado. Os nacionalistas mais empolgados penteavam o cabelo de forma a deixar uma risca definida no meio da cabeça. Era a chamada "estrada da liberdade", uma forma de simbolizar os caminhos abertos pela Independência. O uso do cavanhaque, incomum entre os portugueses, também foi adotado para marcar diferença. De uma hora para outra, pegava mal fumar os adorados charutos cubanos - era obrigatório valorizar o produto nacional. Cachimbo, nem pensar, pois tornou-se símbolo dos exploradores europeus. Exagero? Muitas famílias trocaram seus sobrenomes de batismo por expressões indígenas. Um ramo da família Galvão, de Pernambuco, passaria a se chamar Carapeba. O jornalista, advogado e político negro Francisco Gomes Brandão, um dos fundadores da Ordem dos Advogados do Brasil, adotou o nome Francisco Gê Acaiaba de Montezuma (homenagem também aos astecas).

Os modismos foram só a vitrine mais singela das transformações na vida nacional - iniciadas, é verdade, em 1808, após o desembarque da família real. A terra pela qual dom Pedro se apaixonou a ponto de romper com Portugal (não sem antes implorar ao pai dom João VI, em 1821, para que lhe poupasse do posto de príncipe regente. Leia mais à pág. 32) reagiu com empolgação à sensação de autonomia. Quando deixou o Rio de Janeiro, em 1831, o soberano havia legado uma nação ainda turbulenta politicamente, mas já estabelecida como Império do Brasil. O cenário que encontrou às vésperas do Grito do Ipiranga, escreve Laurentino Gomes em 1822, indicava que o país de 4,5 milhões de habitantes "tinha tudo para dar errado: de cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo. O medo de uma rebelião escrava pairava como um pesadelo sobre a minoria branca. Os analfabetos somavam mais de 90% dos habitantes".

Confronto

Em importantes cidades, a novidade significou a realização literal do lema "Independência ou Morte". Nas ruas, defensores do Brasil e de Portugal se estranhavam e, não raro, discutiam e se agrediam. Em alguns lugares, era preciso ter coragem para aderir à onda do cavanhaque. Em Salvador, em 1824, um padre se recusou a prosseguir com o cortejo fúnebre enquanto o defunto não fosse barbeado. Bahia, Piauí e outras províncias pegaram em armas para garantir a autonomia brasileira e a unidade do território nacional - desfecho diferente do que ocorreu nas colônias vizinhas, que acabaram fragmentadas. A adesão ao comando do imperador, porém, não foi automática em todas as regiões. Rachas provincianos somavam-se à luta com os portugueses. Somente Rio, São Paulo e Minas Gerais aceitaram de pronto as ordens de dom Pedro. Esse processo foi mais lento sobretudo no Norte, no Nordeste e no Sul (veja quadro à pág. 28). A Guerra da Independência, iniciada em fevereiro de 1822, durou 21 meses e matou de 2 a 3 mil pessoas. "Em 1825, o governo brasileiro sequestrou os bens de portugueses que ainda contestavam a independência no Rio, na Bahia, em Pernambuco, no Maranhão e no Grão-Pará. E os intimou a deixar o país", diz Isabel Lustosa, historiadora ligada à Fundação Casa de Rui Barbosa.

O confronto acabou de afundar as finanças quase falidas do novo governo, limitando investimentos urgentes e gerando inflação. Entre 1825 e 28, ela dobrou. Só a dívida externa superava 1 bilhão de reais em valores atualizados.

A infraestrutura das províncias mais afastadas da capital não tinha mudado muito desde a chegada de dom João. Ainda se dormia em redes e esteiras, se comia com a mão e se andava em ruas escuras e estreitas - mesmo no Rio de Janeiro, a iluminação a gás só estrearia em 1860. Mas as diferentes regiões já tinham mais contato com os acontecimentos no centro de poder. Dom Pedro I continuou a abrir estradas, que passaram a ligar a Bahia a Pernambuco, Minas Gerais a Goiás, o Grão-Pará ao Maranhão.

Nas maiores cidades, uma nova classe de trabalhadores se desdobrava com mais de uma ocupação, algo inédito depois de três séculos de controle estrito das atividades profissionais e das fontes de renda dos súditos de Lisboa. Barbeiros eram músicos nas horas vagas, pedreiros cortavam cana, advogados mantinham lojas, médicos davam aulas.

As mulheres também se viravam bem. Cozinhavam e costuravam para a família e ainda vendiam nas ruas quitutes, toalhas e roupas com a ajuda de um ou dois escravos. "A Independência dá um novo dinamismo às províncias. As pessoas têm uma grande mobilidade social, econômica e cultural. Escravos e livres se movimentam muito e exercem atividades econômicas variadas. Surgiu uma primeira geração de ex-escravos livres. E eles, em especial as mulheres, ganharam um grande poder com a possibilidade de se casar com brancos e com a liberdade para exercer diversas atividades econômicas simultâneas", diz Eduardo Franco Paiva, historiador e professor da UFMG. "Por outro lado, a chegada de escravos, que continuavam sendo vendidos em grandes quantidades no Brasil, manteve um grande intercâmbio cultural com a África. Também havia contato com estrangeiros de outros lugares."

Apesar da grande desigualdade social, a miséria e a fome não eram tão comuns - diferentemente do que acontecia sobretudo no interior em tempos de seca, como a que assolou o sertão nordestino em 1825 e levou à primeira grande onda migratória interna. No Sudeste, as indústrias incipientes ganharam fôlego - especialmente fábricas de barcos, pólvora e tecidos. A produção de algodão, café e gado ocupava cada vez mais espaço, em detrimento do açúcar e da mineração. Mas as transformações mais radicais aconteceram mesmo na sede do Império: o Rio de Janeiro.

A capital

Sob o impacto dos 13 anos de estadia da corte, tudo mudou na cidade. A população saltou de 43 mil habitantes, em 1799, para 79 mil, em 1821 (ou 110 mil com a área rural). A capital já tinha uma primeira geração de médicos formados no Brasil, nas faculdades de medicina do Rio e de Salvador. Em uma época de condições sanitárias precárias, cujo sistema de esgoto consistia em grandes latões de dejetos carregados por escravos, esses doutores começavam a substituir os barbeiros com suas sanguessugas. Era uma forma de reduzir a mortalidade em geral, o impacto das mortes no parto e, principalmente, das "febres de março", que faziam diversas vítimas todos os anos. "Sistematicamente, as mortes eram bem superiores aos nascimentos. A cidade crescia graças apenas às migrações de pessoas que para lá eram atraídas. Mas, no geral, a população foi sendo beneficiada por todas as mudanças", diz Maria Luiza Marcilio, professora da USP.

Havia um afluxo grande de estrangeiros. Em 1818, os suíços formaram a primeira colônia de imigrantes não portugueses em Nova Friburgo. Apesar da falência em 1821, o Banco do Brasil já havia ajudado a alterar a economia da cidade, que, até a década de 1810, vivia basicamente do escambo. O porto do Rio concentrava a metade do comércio exterior nacional, sobretudo embarcando café (que, em 1840 somava quase 50% de toda a pauta de exportações) e importando produtos ingleses inéditos por aqui, de tecidos a lampiões. As pessoas rapidamente se acostumaram a se vestir mais de acordo com a moda europeia (mesmo escravos adotaram ternos, mas não podiam calçar sapatos. Os pés descalços denunciavam sua condição). A língua francesa se tornava mais comum. No começo dos anos 1830, a rua do Ouvidor já estava tomada por lojas francófonas (leia à pág. 30).

Faltaram soldados nativos para as lutas de independência nas províncias, mas as escolas da Guerra e da Marinha constituíam uma crescente classe de militares. A população se acostumou com facilidade a resolver suas pendengas na Casa de Suplicação do Rio, criada por dom João VI, origem do Supremo Tribunal Federal. O Teatro São João, a Biblioteca Real e os jornais locais faziam a vida cultural ficar muito mais diversificada e acessível, a ponto de até mesmo alfaiates manterem seu próprio veículo de comunicação. Em 1826, o surgimento da Academia Imperial de Belas-Artes tirava os desenhistas dos quartéis, onde eles se limitavam a rabiscar plantas de terrenos.

Os pianos eram uma peça obrigatória nas casas mais ricas e o imperador dedicava tempo às composições musicais. Em carta ao pai, o rei Francisco I da Áustria, a imperatriz Leopoldina escreveu: "Envio-vos nesta ocasião uma Missa de Neukomm (...) que merecerá sem dúvida o vosso bom acolhimento. O meu Marido também é compositor e faz-vos presente da Sinfonia e Te Deum de sua autoria; falando a verdade é um tanto teatral, que é defeito de meu Marido". Aluno de Joseph Haydn e colega de estudos de Ludwig van Beethoven, o maestro Sigimund von Neukomm vivia no Rio desde 1816. A influência dessa vida pujante era tal que ganhava importância o sotaque carioca, mais aportuguesado e menos marcado por expressões indígenas do que no resto do país. "Muito antes ainda (do advento) da televisão, os habitantes do Rio já influenciavam a fala dos habitantes das outras províncias", escreve o historiador Luiz Felipe de Alencastro em História da Vida Privada no Brasil.

A Constituição

O Primeiro Reinado, claro, foi um período de intensa atividade política. A elite se dividia em várias correntes, a começar por monarquistas e republicanos (que em 1822 se aglutinaram em torno de dom Pedro para confrontar as cortes portuguesas - grandes responsáveis pelo processo que levou à Independência). A Assembleia Constituinte, instalada em maio de 1823, seria dissolvida em novembro, mas, em 1824, o imperador promulgou a primeira Constituição do país (considerada até liberal para a época). O Poder Moderador dava a ele autoridade sobre os demais poderes, mas a Carta garantiu liberdade de culto, de imprensa (em termos, pois havia determinadas perseguições) e deu outro status à figura do eleitor. Homens maiores de 25 anos, livres, alfabetizados e com renda de 100 mil-réis escolhiam os cidadãos que podiam votar e ser votados desde que atendessem a certos requisitos. Os religiosos seriam valorizados - até porque eles representavam parte considerável da ínfima parcela alfabetizada da população. Na década de 1820, eles eram 23% de todos os deputados. Os padres raramente usavam batinas, mantinham negócios e, com muita frequência, mulher e filhos.

As discussões a respeito dos rumos do novo país não ficavam restritas às elites (embora pelo menos parte dela tenha feito valer sua vontade, evitando o fim da escravidão, por exemplo). "A população estava longe de estar a reboque das camadas dirigentes", escrevem os historiadores Gladys Sabina Ribeiro e Vantuil Pereira em O Brasil Imperial: "O povo foi ator político fundamental na trama do Primeiro Reinado, tanto por meio de revoltas ou burburinhos quanto usando mecanismos formais, como petições, queixas e representações". Os debates da constituinte foram acompanhados por populares, que gritavam palavras de ordem pedindo direitos civis e apresentavam por escrito centenas de sugestões aos deputados. Com o desmonte da assembleia, o intendente de polícia Estevão Ribeiro de Resende mandou seus homens às ruas para apreender os panfletos com chamados à revolução. Negros e mulatos eram a maior preocupação das autoridades - se reuniam em tabernas nos arredores da cidade, área cheia de quilombos. Um grupo chegou a fundar um "Club dos Malvados" com motivações políticas e raciais. Já liberais radicais organizaram um atentado contra o imperador. Na noite em que assinou a Constituição, ele e a família foram ao teatro. Um grupo tocou fogo em poltronas, mas ele saiu ileso.

O rei voltou a enfrentar resistência política intensa dos deputados. Seus vínculos com Portugal, que vivia um período turbulento, incomodavam os brasileiros. A derrota na Guerra da Cisplatina, em 1828, havia afetado seu prestígio, já abalado pelos escândalos de alcova. Em 1831, dom Pedro voltou a dissolver seu ministério. Foi o estopim para uma série de manifestações populares, que culminaram com a família real abandonando o Rio na surdina. Em seus últimos três anos de vida, porém, ele mudaria também os rumos de Portugal.

O sucessor

Dom Pedro I indicou imperador o filho de 5 anos e deixou como tutor um dos patronos da nação, José Bonifácio. O Brasil mergulharia numa década de revoluções e turbulências, até que dom Pedro II assumisse o cargo e garantisse a estabilidade política (ao menos temporariamente) não alcançada pelo pai.
A História reconheceria, porém: Pedro de Alcântara Francisco foi um dos nomes mais importantes da trajetória do país. Não se limitou a garantir a independência do Brasil e a unidade do território. Com ele, despontava uma nação com identidade própria. Dali em diante, a verdadeira transformação ocorreria com o fim da escravidão, em 1888. No ano seguinte, seria proclamada a República.

Clique na imagem para ampliar (Design: Débora Bianchi/ Ilustração: Nelson Provazi)

Longe do centro

A vida tumultuada nas províncias


O Grito do Ipiranga ecoou de modo diverso nos 8,5 milhões de km2 que formavam o Brasil. Na Bahia, no Piauí, no Maranhão, no Grão-Pará e na Cisplatina, os defensores da independência pegaram em armas contra portugueses e aliados. Apesar da falta de recursos, os "brasileiros" (partidários da causa nacional, inclusive mercenários estrangeiros) venceram. Mesmo após a Guerra da Independência, dom Pedro teve de enfrentar levantes de províncias que queriam autonomia, a exemplo da sufocada Confederação do Equador, a partir de Pernambuco, em 1824. Já a Cisplatina conseguiu desmembrar-se e virou o Uruguai em 1828. Os conflitos aumentavam a inflação e castigavam os moradores.

MINAS GERAIS

A província e o centro-oeste do país ganhavam pujança econômica com a produção de carne, leite, tecidos e outros itens vendidos para o Rio de Janeiro. Moradores migraram para o campo.

RIO GRANDE DO SUL

Os gaúchos, que falavam quase um "portunhol", aceitaram a Independência, mas perderam com a separação da Cisplatina. Entre 1835 e 1845, romperiam com o Brasil.

GRÃO-PARÁ

Entre 1822 e 1823, a província se dividiu ao meio. A vitória dos imperiais não cessou os conflitos. Em 1835, Belém ficaria sitiada durante a Cabanagem.

PERNANBUCO

Foi convulsionado por movimentos separatistas e de caráter republicano. Mas, no Natal, a política dava lugar a festas ao som de lundu, o som mais popular na região.

BAHIA

Após a Guerra da Independência, aos poucos o custo de vida caiu em Salvador. Mas a Bahia ainda enfrentaria tensão com uma revolta em 1832.


Rio imperial

Capital foi o retrato das transformações pós-1822


"Morte ao traidor!"

Protestos e enfrentamentos entre aliados e adversários de dom Pedro ganharam as ruas do centro, em 1831. O imperador abdicaria do trono no dia 7 de abril e iria para Lisboa.

Próspero e variado

A rua Direita reunia o comércio de luxo, assim como a do Ouvidor, repleta de produtos franceses. A proximidade com o porto, por onde passava 80% da economia do país, facilitava as transações.

A "nova" economia

O café e o algodão ganhavam espaço na economia do país, que tinha indústrias incipientes no Rio. Mas a escravidão ainda era a regra. Alguns escravos seguiam a moda europeia.


Saiba mais


LIVROS

1822, Laurentino Gomes, Nova Fronteira, 2010.

Serviu de base para esta reportagem. O jornalista e autor de 1808 explica a Independência e o reinado de dom Pedro I.

História da Vida Privada no Brasil - Volume 2, Luiz Felipe de Alencastro, Companhia das Letras, 1997.

Em oito artigos, apresenta o cotidiano do país ao longo do século 19.

O Brasil Imperial - Volume 1, Keila Grinberg e Ricardo Salles, Civilização Brasileira, 2009.

Retrata a situação das maiores províncias desde a chegada de dom João VI até a volta de dom Pedro I a Portugal.


Post-Scriptum

O dia do vou

O que aconteceria se Dom Pedro tivesse voltado para Portugal em 1822?


Na manhã de 9 de janeiro de 1822, um trêmulo príncipe regente dom Pedro apareceu na janela do Paço Imperial, no centro do Rio de Janeiro. Na praça em frente, reunidos em silêncio desde o amanhecer, os brasileiros esperavam ansiosamente que ele lhes desse uma boa notícia. Nos dias anteriores, um gigantesco abaixo-assinado havia mobilizado os cariocas. Pedia que o herdeiro da coroa portuguesa ficasse no Brasil e liderasse os esforços pela independência do novo país, a essa altura já praticamente rompido com Portugal. As palavras de dom Pedro, porém, caíram sobre a multidão como um toque fúnebre: "Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação portuguesa, diga ao povo que vou!" Era o fim do sonho. O príncipe abandonava o Brasil à própria sorte e voltava para Portugal, como exigiam as cortes constituintes reunidas em Lisboa.

A cena é, obviamente, fictícia. No célebre Dia do Fico, o príncipe regente, de apenas 22 anos, afrontou publicamente as cortes, que o pressionavam a voltar para Lisboa, e, ao permanecer no Brasil, deflagrou o turbilhão de acontecimentos que o levaria ao Grito do Ipiranga, oito meses depois. Ainda assim, é tentador fazer a conjectura: qual teria sido o destino do país caso dom Pedro tivesse retornado a Portugal?

Em janeiro de 1822, os brasileiros viviam um momento de grande tensão e expectativa. Em Portugal, conspirava-se para que o Brasil voltasse à condição de colônia, situação que perdurara durante mais de três séculos até a chegada da família real portuguesa ao Rio, em 1808, fugindo de Napoleão Bonaparte. O rei dom João VI voltaria a Lisboa em abril de 1821, depois de nomear o filho regente do Brasil. Para trás, ficava um país transformado, que, desde 1815, era um Reino Unido com Portugal e Algarve. Por isso, em 1822, todo esforço brasileiro estava concentrado em assegurar a permanência do príncipe e garantir a autonomia e os benefícios já conquistados.

Dúvidas

Se dom Pedro partisse, o futuro do novo país seria incerto. Sem a liderança do herdeiro real, o Brasil teria grandes chances de fracassar como nação independente, soberana, de território integrado e dimensões continentais. À época, a ampla maioria da população era de escravos, índios, mestiços e forros - pobres e sem formação. Menos de 10% dos habitantes eram alfabetizados. A pequena elite intelectual, formada na Universidade de Coimbra, tinha profundas divergências políticas: eram monarquistas absolutos e constitucionais, republicanos e federalistas, entre outras correntes. O isolamento e as rivalidades entre as províncias prenunciavam uma guerra civil, que poderia resultar na fragmentação territorial. Praticamente falido, o novo país não tinha exércitos, navios, oficiais, armas e munições para sustentar a inevitável guerra com a Metrópole pela independência.

Os portugueses tinham pleno conhecimento dessas dificuldades e se empenharam em tirar proveito delas. Convocadas em setembro de 1820, um mês após a eclosão da Revolução Liberal do Porto, as cortes constituintes começaram a se reunir em Lisboa no dia 26 de janeiro do ano seguinte. O total de deputados deveria ser proporcional à população de cada região, mas os escravos estavam excluídos. Por isso, embora tivesse uma população superior, o Brasil teve direito a ocupar somente 72 das 181 cadeiras, cabendo a Portugal 100. As outras províncias ultramarinas (como Angola e Moçambique) ficaram com as nove cadeiras restantes. Mesmo assim, só 46 brasileiros tomaram posse em Lisboa, já no fim de 1821. Os demais não foram por dificuldades de locomoção ou divergências dentro da própria delegação, caso de Minas Gerais. Isso deixou os brasileiros em minoria na proporção de dois por um perante os portugueses.

As cortes se revelariam liberais em relação aos seus próprios interesses em Portugal, mas reacionárias naquilo que dizia respeito à sua mais rica ex-colônia. Ao desembarcar em Lisboa, os deputados brasileiros foram surpreendidos por diversas decisões tomadas na sua ausência. Todas visavam recolonizar o Brasil, cassando os benefícios concedidos por dom João VI, e quebravam a promessa de não tocar em assuntos relativos ao país antes da chegada de seus deputados.

Em um esforço deliberado de fragmentar o território brasileiro como forma de mais facilmente controlá-lo, no dia 24 de abril de 1821 as cortes decidiram criar províncias autônomas. Cada uma delas elegeria sua própria junta provisória de governo, que responderia diretamente a Lisboa, sem dar satisfações ao príncipe regente. Ao saber que o Pará aderira à revolução constitucionalista, o deputado Fernandes Tomás propôs que aquela parte do território passasse a ser chamada de província de Portugal, sem nenhum vínculo com o restante do Brasil. O projeto foi aprovado no dia 5 de abril de 1821, antes que os deputados brasileiros chegassem a Lisboa em condições de contestá-lo. No Rio de Janeiro, dom Pedro sentia-se cada vez mais isolado: "Fiquei regente, e hoje sou capitão-general, porque governo só a província (do Rio de Janeiro)", se queixaria em carta ao pai.

As medidas mais drásticas saíram no dia 29 de setembro. Anulavam os tribunais de justiça e outras instituições criadas por dom João no Rio, restabeleciam o sistema de monopólio comercial português sobre os produtos comprados ou vendidos pelos brasileiros e determinavam que dom Pedro retornasse imediatamente a Lisboa para, em seguida, viajar pela Europa "a fim de instruir-se". Para assegurar que suas resoluções fossem cumpridas, em outubro as cortes nomearam novos governadores de armas para cada província, na prática interventores militares encarregados de preservar a ordem e sufocar qualquer tentativa de autonomia. A soma de todas essas decisões devolvia o Brasil à condição de colônia, que vigorou até a chegada da corte, em 1808.

Nessa época, as comunicações entre Brasil e Portugal eram muito lentas. Só no dia 9 de dezembro de 1821 chegaram ao Rio de Janeiro as notícias de que as repartições governamentais seriam fechadas e dom Pedro deveria embarcar para a terra natal. A reação dos brasileiros foi de revolta. Manifestos e abaixo-assinados contra as cortes e pedindo a permanência do regente começaram a ser organizados em São Paulo, Minas Gerais e na própria capital.

No Rio, o centro da conspiração era uma modesta cela no Convento de Santo Antônio, situado no largo da Carioca. Seu ocupante, frei Francisco Sampaio, era ligado à maçonaria e foi o autor da representação que, em nome dos habitantes da cidade, seria entregue ao príncipe pedindo que ficasse no Brasil. Ao todo, tinha 8 mil assinaturas - número espantoso para uma cidade com menos de 120 mil habitantes. Ao receber o documento das mãos do presidente do Senado da Câmara, José Clemente Pereira, dom Pedro anunciou a decisão de permanecer no Brasil.

A famosa declaração do Fico envolve, porém, um mistério. Segundo o historiador Tobias Monteiro, ao receber o abaixo-assinado, dom Pedro teria dito: "Convencido de que a presença de minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a nação portuguesa, e conhecido que a vontade de algumas províncias assim o requer, demorarei a minha saída até que as cortes e o meu Augusto Pai e Senhor deliberem a este respeito, com perfeito conhecimento das circunstâncias que têm ocorrido". Essa é a versão constante dos autos da vereação e do edital publicados no mesmo dia - uma resposta prudente, sem rompimentos, na qual invocava "o bem de toda a nação portuguesa". Misteriosamente, no dia seguinte um novo edital foi publicado com palavras mais enérgicas. "Como é para bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico!", teria sido a resposta. Não se sabe quem mudou, mas a nova versão estava mais de acordo com as expectativas dos maçons do Rio de Janeiro, mentores da representação.

O mistério contido nessas duas versões do Fico é a prova de que no dia 9 de janeiro de 1822 dom Pedro, ainda que por algumas horas, considerou a hipótese de embarcar para Portugal. É o que se depreende da enigmática expressão "demorarei minha saída", contida na primeira versão. Nesse caso, sem uma liderança capaz de manter as províncias unidas e aglutinar os esforços pela independência, o Brasil teria se fragmentado em duas, três ou quatro nações de língua portuguesa em cujas escolas hoje se estudaria o episódio que passaria para a História como "o Dia do Vou".

* Laurentino Gomes é jornalista e escritor, autor de 1808 e 1822. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

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