Guia do Estudante

Aventuras na História

A história de luta do povo basco

Entre os movimentos pela criação de um país independente e a radicalização do terrorismo, bascos sobrevivem como uma das etnias mais antigas da Europa

Carlos Minuano | 01/12/2010 11h39

Cansado da balada na noite anterior, o equatoriano Diego Armando Estacio preferiu esperar no carro pela namorada enquanto ela recepcionava os parentes do casal que desembarcariam a qualquer momento no Aeroporto de Madrid-Barajas, na capital espanhola. Estavam ansiosos para comemorar o Ano-Novo. Era 30 de dezembro de 2006. Por uma dessas estranhas (e mórbidas) coincidências, outro imigrante, Carlos Alonso Palate, também dormia num automóvel estacionado bem próximo ao de Estacio, na zona D do terminal T4. Às 9h01, 200 kg de explosivos colocados num furgão destruíram o local. Nenhum dos dois acordou e mais de 20 pessoas ficaram feridas. O estrago foi tamanho que os bombeiros demoraram quatro dias para conseguir resgatar o corpo dos equatorianos.

O ataque, promovido pelo ETA, grupo separatista que luta pela independência do País Basco, pôs fim a uma trégua anunciada meses antes e às negociações de paz em curso com o governo espanhol. Dias depois, quase 200 mil pessoas saíram às ruas de Madri e Bilbao (capital da província basca de Viscaia) para protestar contra a violência e, mais uma vez, clamar pela paz. O trágico episódio, por não ter sido o primeiro, deixa também a suspeita de que não será o último. Assim, não surpreende a desconfiança de espanhóis e bascos diante do mais recente cessar-fogo anunciado pelo ETA, em setembro, o 11º proposto desde 1981. O grupo já matou mais de 800 pessoas desde a sua criação, em 1959.

O terrorismo, entretanto, está longe de resumir a história dos bascos, uma das etnias mais antigas da Europa. Eles ocupam áreas na Espanha e na França pelo menos há 4 mil anos, resistindo a invasões e perseguições e lutando até hoje pela preservação de sua identidade e suas tradições.

Clique na imagem para ampliar (Design: Glenda Capdeville/ Ilustrações: Murilo Maciel)

As raízes

Não faltam mistérios acerca das origens da civilização basca. Acredita-se que ela ocupou parte das montanhas dos Pirineus antes de qualquer outra etnia. Em um território a leste da atual Comunidade Autônoma do País Basco, onde está hoje a província de Navarra, habitavam os vascones. Os bascos possivelmente descendem deles, mas historiadores alegam que não se pode afirmar isso com certeza.

Diferentes teorias arriscam uma resposta a esse enigma. Há quem defenda que os ancestrais bascos chegaram à região com as migrações indo-europeias, por volta de 2000 a.C. Outra versão aponta laços ainda anteriores - remete à migração cro-magnon, que desbancou os neandertais que viviam por lá.

A hipótese mais aceita considera que os bascos derivam de um povo que alcançou a península Ibérica no segundo milênio a.C., antes dos celtas. Mas o fato é que nunca houve uma nação basca no sentido moderno da palavra, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. "Na Antiguidade, eles viviam em aldeias separadas, sem unidade, até serem conquistados pelos romanos." Com o fim do domínio de Roma, ganharam mais autonomia. Desvinculados de outras etnias e culturas, desde então eles buscam um país, de fato, para chamar de seu - sem ter de responder aos governos da Espanha e da França.

Povo da montanha

Os bascos assistiram a suas terras serem invadidas por romanos, visigodos, francos, normandos e mouros. Gradativamente, foram expulsos das terras baixas aos pés dos Pirineus, até que, no século 15, a França e a Espanha dominaram a região. Cerca de 200 anos mais tarde, as fronteiras foram definidas segundo o desenho mais próximo do atual, o que consagrou a divisão do grupo étnico. Do lado espanhol, a Euskadi, ou Comunidade Autônoma do País Basco (nome oficial), é formada pelas províncias de Biscaia, Guipúzcoa e Álava (veja o mapa acima). A Comunidade Foral de Navarra também é autônoma, mas faz parte da área tradicional reivindicada pelos movimentos separatistas. Na França, está o resto da Euskal Herria - na língua basca, "o povo que fala o euskara", com três regiões, Lapurdi, Benafarroa (ou Baixa Navarra) e Zuberoa, reunidas no Departamento dos Pirineus Atlânticos. No total, eles ocupam 20,6 mil km2 (menos que o menor dos estados brasileiros, o Sergipe) e somam cerca de 3 milhões de pessoas.

Uma língua em risco de extinção

O idioma basco não tem relação com nenhum outro ramo linguístico hoje no mundo. O euskera, ou euskara, é a única língua de origem pré-indo-europeia falada na Europa ocidental e é, seguramente, a mais antiga do continente. Dominada por cerca de 1 milhão de pessoas, cerca de um terço da população, trata-se de um idioma que peleja para sobreviver. Não se sabe ao certo sua origem. "Com segurança, pode-se apenas afirmar que é uma língua isolada", afirma Fabio Aristimunho. Segundo o especialista em estudos bascos pela Universidade do País Basco, ela é anterior às primeiras invasões celtas à península Ibérica, no primeiro milênio a.C., e sobreviveu à implantação do latim durante o Império Romano, às línguas germânicas, à dominação árabe na península e, mais recentemente, à inescapável sobreposição do castelhano e do francês. "O seu léxico peculiar e sua estrutura gramatical, de difícil aprendizado para os não-nativos, com cerca de 24 casos de declinação, sempre fizeram do basco uma língua suscetível a mitos e precnceitos de diversas ordens", diz o pesquisador, que também é descendente basco.

Poesia, pelota e bacalhau

Agricultores, pastores e pescadores. A história basca está profundamente relacionada à terra e aos meios de subsistência. A economia e a família se organizavam em torno das fazendas, também chamadas de caserios. O núcleo familiar sempre foi reforçado pelas leis de herança, que concentravam as propriedades em torno do filho mais velho. Os vínculos com a tradição rural e montanhesa se refletem da poesia ao esporte.

Os bascos são fãs de campeonatos de levantamento de pedras, corte de troncos e corrida de touros. Entre as modalidades que inventaram está o jai alai, um tipo de pelota basca (lembra o squash, mas é jogado com a mão ou usando raquetes. A do jai alai parece um gancho).

A cozinha basca é uma das mais bem avaliadas do mundo. Com destaque para peixes e frutos do mar. Aliás, os bascos estão entre os grandes mestres baleeiros (foram eles que introduziram as técnicas de caça no Brasil Colônia), participaram das expedições ao Novo Mundo e reivindicam a autoria da milenar técnica de salgar bacalhau. Alegam que, bem antes da industrialização desse mercado, já vendiam o peixe usando o sal, que evitava que a carne estragasse logo.

Guerra e exílio


Por diferentes razões e em momentos distintos, levas de bascos abandonaram sua terra natal. O auge dessa diáspora, porém, ocorreu após a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O conflito, um dos mais sangrentos do século 20, foi desencadeado por uma rebelião liderada pelo general fascista Francisco Franco contra o governo republicano de centro-esquerda. Os bascos ficaram do lado republicano (exceto a província de Navarra) e, após a derrota imposta pelos nacionalistas, passaram a ser perseguidos. Intelectuais e líderes políticos foram presos e torturados. Era proibido falar euskera e a cultura local foi censurada. Cerca de 100 mil pessoas rumaram para o exílio. "A ditadura franquista produziu um retrocesso no movimento nacionalista basco", diz José Luís de la Granja Sainz, professor de história contemporânea da Universidade do País Basco. França, Argentina, Chile e Estados Unidos receberam grande parte desse contingente. O Brasil não ficou de fora. Já teve até um presidente descendente de bascos, o general Emíl o Garrastazu Médici, durante o regime militar.

Independência ou bombas

A campanha armada do ETA tem recebido seguidos golpes nos últimos anos, com a prisão de vários de seus líderes. Analistas atribuem a mais nova declaração de cessar-fogo a essa crescente debilidade militar. Serviços de informação apontam a tentativa de criar células em Portugal devido ao cerco espanhol e francês. O ETA, cuja sigla significa Euskadi Ta Azkatasuna, ou Pátria Basca e Liberdade, foi criado em 1959, na esteira de outros movimentos estudantis que despontaram no mundo. Eles se organizaram como uma dissidência do Partido Nacionalista Basco (PNV, na sigla em espanhol). Inspirados na Revolução Cubana, os etarras (como são chamados os integrantes do grupo) lutaram inicialmente contra a ditadura do general Franco. A redemocratização, porém, não encerrou a violência. Agora, o Herri Batasuna, braço político do ETA, quer negociar os termos da trégua para poder disputar eleições. Criado em 1978, o partido foi decretado ilegal em 2003.

Liberdade ainda que tardia

O grau de autonomia dos bascos variou muito ao longo dos séculos. O movimento separatista moderno foi consolidado com a fundação do Partido Nacionalista Basco, em 1895. Os fueros (a instância jurídica local) haviam sido abolidos pelo governo espanhol como uma punição pelo apoio às tentativas do carlismo (movimento que pretendia alçar ao trono outro ramo da família real dos Bourbons) de tomar o poder. A região só readquiriu autonomia após a ditadura franquista. A constituição de 1978 reconheceu direitos específicos aos bascos, entre outras etnias. Hoje, a sociedade basca está dividida em três principais grupos: os aliados do ETA, que exigem a independência a qualquer custo, os moderados, que governaram a região por décadas, mas não conseguiram avançar a outro status legal, e aqueles que preferem a autonomia atual, mantendo laços com a Espanha. Esse grupo governa a Comunidade Autônoma do País Basco no momento.

A independência total é apoiada por entre 5 e 15% dos eleitores. Já o nacionalismo moderado do PNV atrai mais de um terço deles. Na Espanha, é garantida à comunidade considerável autonomia cultural, política e econômica. A polícia também é de responsabilidade local. Na França, porém, o sistema é centralizado e não prevê diferenças entre os estados. "O anseio por independência é legítimo", afirma Eric Ech, fundador da Comunidade Basca do Brasil. "Apesar de muitos estarem conformados com a situação atual, os bascos têm o direito de recuperar sua independência roubada."

O CARVALHO DE GUERNICA

A etimologia da palavra basco é outro mistério. Para certos linguistas, o termo latino vasco deriva de boscus, ou buscus (bosque, floresta). Vários elementos simbólicos da cultura local relacionados à natureza reforçam essa ideia. Canções e poesias medievais, por exemplo, prestam reverência à Guernikako arbola, uma árvore do século 14 na cidade de Guernica, Espanha. Sob o carvalho, líderes bascos se reuniam para tomar grandes decisões e a coroa espanhola jurava respeitar os fueros, conjunto de leis da etnia. A mesma árvore atravessou os anos, até o século 19, quando definhou e foi substituída.

Em 1937, Guernica foi alvo de um bombardeio patrocinado pela Alemanha nazista, aliada do general Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola. O ataque, eternizado na tela de Pablo Picasso, destruiu a vila, mas o carvalho ficou intacto. Em 2003, secou e outro foi plantado em seu lugar. Ainda é o maior símbolo da cultura e da resistência bascas.

MITO

Há um mito segundo o qual o euskera teria sido preservado puro e livre de influências estrangeiras, isolado nos Pirineus ao longo dos séculos. Essa teoria é desmentida pela própria presença, no léxico do basco moderno, de palavras como: dantza (dança), katu (gato), marinel (marinheiro), txapel (chapéu, boina), deskantsu (descansar) e tipula (cebola), entre outras, com raízes latinas, germânicas ou celtas, menos evidentes.


Saiba mais


LIVROS

El Nacionalismo Vasco (1876-1975), José Luis de la Granja Sainz, Arco/Libros, 2000.

Um panorama completo do nacionalismo basco no período.

Los Vascos, Julio Caro Baroja, Ediciones Istmo, 2000.

Estudo antropológico e histórico sobre o povo basco, de suas origens aos dias atuais.

A Batalha pela Espanha - A Guerra Civil Espanhola (1936-1939), Antony Beevor, Record, 2007.

Obra de referência sobre o assunto, baseada em pesquisa nos arquivos da Espanha, Rússia e Alemanha.

Poesia Basca, Fábio Aristimunho, Editora Hedra, 2009

Antologia de poemas de diferentes períodos da literatura basca.

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