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Aventuras na História

Hunos: a fúria que veio a galope

Hordas agitadas e barulhentas, montadas sobre intrépidos cavalos, anunciavam os ataques dos hunos. Aos romanos só restava o pânico e a morte

Natalia Yudenitsch | 01/02/2005 00h00

Em outubro de 440 os habitantes da cidade de Margus (atual Pozarevac, na Sérvia) ouviram um barulho assustador. Logo o vozerio cresceu em volume, transformando-se num selvagem grito de guerra que saía alto e vibrante de mais de 20 mil bocas enfurecidas. O ruído surdo de milhares de cascos de cavalo trotando em velocidade sobre a terra batida não deixava dúvidas. “Os hunos estão chegando!”, gritavam os romanos da cidade. Em pouco tempo eles chegaram. Como de costume, uma chuva de flechas precedeu os cavaleiros de sangue meio turco, meio mongol, galopando com seus compridos casacos de peles, chapéus cônicos ou arredondados de couro e calças bufantes, com vestes de linho azul, vermelho, amarelo e violeta. O arco composto, a principal arma dos hunos, zunia no ar. Os detalhes em ouro nas mãos dos arqueiros e na empunhadura das espadas longas e retas dos guerreiros brilhavam ao sol. Sem dó nem piedade, arremessavam flechas de junco, cujas pontas de osso afiada fincavam no corpo de quem aparecesse. A batalha que se seguiu foi rápida, violenta e impiedosa, como era o estilo dos hunos. Eles avançavam sempre em gritaria, atirando flechas, lanças e eventuais redes e laços para derrubar os oponentes.

Furiosos sim, mas com estratégia. Antes que o combate corpo a corpo começasse, ainda montados sobre os animais, davam meia-volta e disparavam para longe do alcance romano. Na retirada, os cavaleiros, virados para trás na sela, disparavam mais uma saraivada de flechas. Cabeças romanas já haviam rolado pelo chão, muitas delas transformadas em troféus. Era o prenúncio do que vinha depois. Depois da batalha vencida, o próximo passo era pilhar, estuprar e, muitas vezes, reduzir a cidade atacada a pó, aniquilando-a completamente.

Em Margus não foi diferente. Mas, afinal, qual teria sido o motivo desse ataque tão feroz? Uma acusação contra os hunos do rompimento do acordo firmado em 435 com o imperador romano do Oriente Flavius Theodosius II. Os hunos ficaram satisfeitos com o arranjo por cinco anos, tratando de fortalecer-se em silêncio. Mas, depois, ignoraram o pacto e partiram para novas conquistas. Após um ano de vencida a batalha de Margus, as hordas hunas já estavam na estrada e avançavam pelos Bálcãs. Em 443 invadiram a Serdica (atual Sofia, na Bulgária), chegando a entrar em Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. Theodosius, então, não teve outra saída a não ser curvar-se a um novo acordo, ainda mais draconiano: o pagamento de 2 mil kg de ouro, a triplicação do tributo anterior e o aumento de oito para 12 moedas de ouro por prisioneiro romano.

“Os hunos podem ser considerados um divisor de águas. O Império Romano nunca mais se recuperou depois de sua chegada”, sintetiza a especialista em cultura huna Lin Gan, da Universidade da Mongólia Interior, na China. Pode-se dizer que as invasões bárbaras propriamente ditas começaram com eles, quando de sua primeira onda conquistadora, que varreu, ainda em 370, as áreas dominadas pelos ostrogodos ao longo do rio Dnieper, os sármatas e alanos no Oriente e o reino Bósforo na região da Criméia. No início do século 5 os hunos cruzaram as fronteiras do Império Romano, causando tanto terror que geraram as mais variadas lendas: descendiam de demônios e bruxas, desconheciam o uso do fogo, comiam carne crua, dormiam montados, sentindo-se tontos quando pisavam em terra firme. “Bobagem”, diz Peter Heather, professor de História Medieval da Universidade de Oxford, Inglaterra. “A verdade é que eles eram completamente alienígenas para os civilizados romanos. Seus traços mongolóides, o modo de vida nômade e o desprezo que tinham em relação às religiões foram as razões do preconceito que transformou a palavra huno em um palavrão”, explica.

Pressão contra os bárbaros

O relacionamento entre os romanos e os hunos ficou mais abalado em 450, devido a um inusitado pedido de ajuda de Honória, irmã do imperador romano do Ocidente Valentiniano III, que pôs mais lenha na fogueira das ambições dos hunos. A moça, supostamente grávida e forçada a se casar com um senador romano, decidiu apelar a Átila, que encarou a situação como um pedido de casamento, que foi aceito por ele. Com um detalhe: o rei dos hunos exigiu como dote metade do Império Romano. Sua idéia era expandir o já poderoso Império Huno através da Gália (atual França, Bélgica e parte da Suíça, Holanda e Alemanha) até a costa do Atlântico. Átila, então, marchou rumo ao Ocidente, obrigando a criação de uma aliança entre seus mais temíveis inimigos, o rei visigodo Theodorico e os exércitos romanos, liderados pelo general Aécio. O confronto ocorreu em 451 e ficou conhecido como a batalha de Châlons, pois aconteceu próximo à região francesa de Châlons-en-Champagne. O conflito terminou com a mais espetacular derrota de Átila contra os romanos. Um ano depois, o rei dos hunos voltou a exigir a mão de Honória. Escoltado por suas hordas, Átila invadiu e devastou a Itália, chegando às cercanias de Roma. Lá reuniu-se com o papa Leo I e o cônsul Aviennos, que conseguiram convencê-lo a esquecer Honória e estancar seus furiosos ataques.

Várias versões tentam explicar os motivos que levaram Átila a desistir da invasão de Roma. Alguns estudiosos apontam o enfraquecimento das tropas hunas por fome e epidemias, aliados aos avanços das tropas do imperador romano do Oriente Marciano. Já o historiador romano Priscus cita o medo supersticioso de invadir a Cidade Eterna, tida como protegida por Deus. E relatos cristãos atribuem o milagre a São Pedro e São Paulo, que teriam ameaçado o líder huno com uma morte instantânea pela mão de Deus, caso ele não se retirasse. Tudo indica que o objetivo de Átila era voltar à carga e invadir Constantinopla mais tarde. Mas não deu tempo. Ele morreu em 453.

Sua morte levou ao colapso final do Império Huno, em meio a disputas entre os herdeiros do flagelo de Deus. Além disso, alterações no modo de fazer as guerras contribuíram para sua derrocada. “O crescimento do Império Huno levou à perda de sua característica nômade, tornando as campanhas de guerra mais germânicas, com uso do aríete, catapulta e infantaria desmontada em detrimento a sua arma mais temida, os cavalos. Foi a semente de sua extinção”, afirma Steven A. Epstein, da Universidade do Kansas, Estados Unidos. Depois, muitos remanescentes voltaram às estepes russas e ao nomadismo. Outros passaram a viver como mercenários, contratados pelo próprio Império Romano. A lenda dos hunos, contudo, sobreviveu à sua destruição, permanecendo até hoje como sinônimo de ataque selvagem, sangrento e devastador.

 

Aécio, o último grande general

Ao vencer os hunos na batalha de Châlons, o general romano Flávio Aécio foi saudado como o “salvador da civilização ocidental”. Nascido no final do século 4, Aécio foi feito, ainda jovem, refém do godo Alarico, passando em seguida às mãos do líder huno Rhuas. Em 424 conseguiu o apoio de 60 mil cavaleiros hunos e marchou sobre Ravena, então capital do Império do Ocidente, com o intuito de apoiar a ascensão de um nobre, chamado João, em sua tentativa de tornar-se imperador romano. Ao chegar à cidade, no entanto, o golpe já havia fracassado. Placidia, mãe do imperador recém-empossado Valentiniano III, temendo o estrago que os hunos poderiam causar, subornou-os para que deixassem a Itália e deu a Aécio o título de conde e Supremo Comandante do Exército na Gália. Seus sucessos militares consolidaram sua posição como figura-chave do decadente Império Romano do Ocidente. A vitória em Châlons, em 451, foi sua última glória. Três anos depois, Aécio foi assassinado por Valentiniano III, o que, nas palavras de um conselheiro imperial, foi “como se sua mão direita tivesse sido cortada pela esquerda”. Era o fim do último romano digno da grandeza de seu povo.

Châlons: vitória dos romanos sobre Átila

Maurício Gibrin

Em 451, depois de avançar em direção à Gália, o exército huno foi freado por uma coalizão formada por romanos, francos e visigodos, comandada pelo general Aécio. Depois de alguns dias de escaramuças, sem nenhum grande combate, Átila resolveu recuar seus 100 mil guerreiros. Já nas proximidades da região conhecida como Châlons-en-Champagne, na Gália, o rei dos hunos decidiu acampar. Era o que os romanos queriam. Finalmente chegava a chance que eles tanto esperavam para livrar a Europa Ocidental do famigerado “flagelo de Deus”: Aécio, com seus 160 mil homens, resolveu enfrentar os hunos. A batalha começou equilibrada, os hunos conquistando o lado direito. Os romanos, o esquerdo. Aécio, o general romano, usava habilmente seus aliados visigodos para responder às rápidas investidas da cavalaria dos hunos, poupando assim seus preciosos soldados romanos. Ao ver que suas táticas não estavam funcionando, Átila ordenou que seus homens tomassem a colina ao centro do palco da guerra. Não adiantou. Os romanos já estavam lá e ocupavam as melhores posições. As cargas pela disputa da colina foram tão violentas que, segundo os relatos do historiador clássico Jordanes, “correu tanto sangue que o riacho dividindo o campo de batalha transformou-se numa torrente”. Não tardou para que a conflito começasse a se decidir. Perseguidos colina abaixo, os hunos procuravam refúgio em seu acampamento, onde recebiam a proteção de centenas de arqueiros. Em meio ao caos, Aécio se separou de seus homens e teve de passar a noite com seus aliados visigodos. Ao amanhecer, o cenário era desolador: pilhas de corpos se espalhavam pelo palco da batalha – entre eles o de Teodorico, rei dos visigodos e o mais importante aliado dos romanos. Acuados, os hunos ficaram na defensiva. Temendo perder a batalha, Átila mandou construir uma pira no centro de seu acampamento, para evitar que seus restos mortais caíssem em mãos inimigas. Se preciso fosse, o valente rei do hunos se mataria e seu corpo seria jogado sobre a pira flamejante. Esperando o assalto final, ele se preparava para vender caro a sua derrota. Mas não foi preciso. Os romanos não investiram contra o acampamento. Eles tinham outra tática: planejavam um longo sítio que exaurisse os recursos, principalmente alimentação, dos hunos, levando-os à rendição total. Curiosamente, esse sítio nunca aconteceu. Sem a ameaça dos hunos, a Gália ficaria à mercê dos visigodos, já que os romanos não tinham mais como se impor ante os exércitos bárbaros. Temendo que seus aliados se transformassem em futuros inimigos, Aécio habilmente convenceu o filho do rei morto, Torismundo, a retornar à sua capital, Tolosa, para evitar que seus irmãos tentassem lhe usurpar o poder. A retirada dos visigodos foi tão inacreditável que os hunos a tomaram por uma armadilha. Diversos dias se passaram até que eles finalmente decidiram que era seguro abandonar a região. Embora não tenha expulso os hunos da Europa Ocidental (eles atacariam a Itália no ano seguinte), a batalha de Châlons derrubou o mito da invencibilidade do exército de Átila. Além disso, ao afastar o perigo huno da região, ajudou a consolidar o poder de francos e visigodos no que hoje chamamos de França e Espanha. Marcou também a última grande vitória dos romanos do Ocidente. Em 476, tribos germânicas tomaram o controle das últimas possessões daquele que foi, um dia, o maior império ocidental que a humanidade conheceu.

A arma das estepes

Os cavalos, o grande trunfo dos hunos, eram disputados a tapa pelos guerreiros da Ásia Central

Qualidades

As características mais desejáveis em um animal eram costas chatas, mais confortáveis para o cavaleiro, e pescoço longo, sinal de um bom saltador. Trançar o rabo ou a crina eram cuidados que demonstravam o orgulho dos cavaleiros de suas montarias.

Malhado

Os cavalos malhados, bicolores com grandes manchas ou pequenas marcas em tom mais escuro da mesma cor do animal, eram considerados mágicos, portadores de grandes poderes, e portanto disputados entre os líderes.

Branco

Quanto mais claro o pêlo do animal, mais importante o guerreiro que o montava.

Adornos

Os enfeites de sela e arreios eram algo pessoal e altamente personalizado, de acordo com as crenças e a personalidade do cavaleiro.

Ranking

Os esquadrões eram montados por cor: cavalos descorados, com a cor predominante mesclada com fios brancos dando uma aparência de palidez aos animais, voltados para o leste; os de pêlo vermelho guardando o sul; os brancos na direção oeste; e os negros olhando para o norte.

Desenhos

Muitos cavaleiros marcavam seu animal com imagens de formas simples, representando o símbolo de uma tribo específica. A mesma marca podia ser impressa em armas e acessórios, como cinto e aljava.

 

Átila, uma vida dedicada à guerra

Quando os romanos avistavam à frente das hordas hunas um homem moreno, baixo, ombros largos, cabeça volumosa, nariz chato, olhos pequenos e meio puxados, barba rala e grisalha, já sabiam: Átila, o “flagelo de Deus”, havia voltado para mais um round de pilhagem e mortes. Líder único dos hunos após a morte de seu irmão Bleda, em 445, dizia-se que portava a espada do próprio deus da guerra, Marte.

Sobre sua morte, em 453, o historiador romano Priscus conta que ele estava comemorando seu último casamento com uma princesa goda chamada Ildico, em sua corte composta de suas várias esposas, um bobo da corte cita e um anão mouro. Já ao final da festa, com boa parte dos convidados caídos pelos cantos, Átila incluído, o rei huno teve um forte sangramento nasal. O jato era tão abundante que ele se engasgou com o próprio sangue e morreu sufocado durante a bebedeira aos 53 anos. Seus guerreiros rasparam os cabelos e se cortaram com espadas, dizendo que “o maior guerreiro de todos os tempos deve ser lamentado sem lágrimas nem lamúrias femininas, mas com o sangue de homens”. Ele foi enterrado em um caixão triplo, de ferro, prata e ouro, juntamente com os espólios de suas conquistas. Seu túmulo permanece secreto até hoje, mas sua memória foi imortalizada no personagem Etzel, no poema épico germânico O Anel dos Nibelungos, que mais tarde inspirou o compositor alemão Wagner.

 

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