Guia do Estudante

Aventuras na História

As mulheres espartanas da Guerra do Paraguai

Fernando Ortolan* | 01/12/2004 00h00

A história das fragorosas batalhas e heróicos feitos militares da Guerra do Paraguai (1864-1870) é, geralmente, um palco exclusivo dos homens. Mas as mulheres, apesar de serem banidas dos estudos sobre o maior conflito da América do Sul, não só se encarregaram da confecção de uniformes e das plantações, mas participaram das frentes de combate e, em determinadas situações e estágios da guerra, foram a alternativa para a defesa da pátria paraguaia.

A presença feminina no conflito foi estimulada e aceita tanto por paraguaios quanto pelos países aliados, Uruguai, Argentina e Brasil. Pode-se até dizer que as mulheres paraguaias que acompanharam as tropas não o fizeram de forma voluntária, mas pressionadas pelo governo e pela imprensa. Jornais como o Cabichuí, El Centinela e o Semanário estavam empenhados em ressaltar a coragem da mulher paraguaia e provocar os brasileiros. Ao destacar os atos heróicos das mulheres, pretendia-se difundir o menosprezo pelo inimigo e transmitir a confiança na vitória.

Francisca Cabrera foi uma dessas heroínas. O jornal Cabichuí de 12 de agosto de 1867 recorda o “gesto magnífico, digno de figurar nas páginas da história” daquela “singular mulher da estirpe dos guarani, mãe de quatro filhos”. Ao notar que os soldados brasileiros cercavam seu vilarejo, Francisca Cabrera escondeu-se no mato com os filhos pequenos. Segundo o jornal, ela queria lutar com um punhal, e falou para seu filho maior que, se acaso morresse, deveriam continuar lutando.

Em 22 de junho de 1868, o mesmo Cabichuí conta a aventura de Barabara Alen e Dolores Caballero. No momento em que estavam “limpando o suor do rosto e cuidando do gado”, foram atacadas por um “monstruoso jaguar”. Mataram-no com apenas uma faca, um cinto e um pedaço de pau, oferecendo a pele do animal ao marechal Solano Lopez, o grande líder paraguaio. A notícia tem diversas menções de afronta a dom Pedro II, chamado de “monarca escravocrata”. E provoca: “Se as mulheres paraguaias, com armas de tão pouco valor se livram dos tigres, pensam vocês, macacos e ‘amacados’, que lhes custaria trabalho livrarem-se de vocês, macacos de baixa e contaminada ralé?”.

A imagem de uma mulher guerreira e competente para a batalha tinha o propósito de impor medo ao exército inimigo, legitimando uma força substituta na guerra. Essa admiração atingiu o auge no relato de um duelo de uma heroína paraguaia com um capitão brasileiro que queria estuprá-la. Segundo o jornal El Centinela de 17 de outubro de 1867, a mulher lutou contra um capitão do Exército Brasileiro e mais 12 militares. Conseguiu matar o capitão, saindo com o braço esquerdo ferido e com um ferimento grave na cabeça. “Este fato de valor feminino é para a nossa história o mais firme exemplo do nosso belo sexo, que ao lado do valoroso marechal López tem ajudado a vencer ou morrer, seguindo os soldados que assombram com sua bravura”, afirma o jornal.

Com o fim da guerra, as exultantes notícias dos jornais não fariam efeito em favor das mulheres. Quase todas as que caíram nas mãos de brasileiros foram violentadas. Muitas foram presas fáceis para os 30 mil soldados que tomaram a capital do Paraguai. Os soldados brasileiros celebraram a queda de Assunção violando as mulheres, saqueando casas e edifícios públicos. “A soldadesca desenfreada abriu as válvulas a sua feroz lascívia e essas infelizes que haviam visto morrer seus maridos, filhos e noivos sofreram os ultrajes da luxúria na noite mais negra de sua vida”, afirmou na época o general Garmendia, do Paraguai.

Nesses episódios, a mulher tem valorizada sua agressividade, um comportamento considerado atípico e até impróprio em tempos de paz. A heroína anônima mereceu destaque da imprensa ao enfrentar o perigo não com temor, mas com coragem. A imprensa enxergava esses fatos como atos sublimes que serviam de motivação não só para as mulheres, como também para todos os soldados paraguaios. Mas as notícias sobre elas também reforçavam o papel feminino em uma sociedade patriarcal, que atribui mais responsabilidades que direitos à mulher.

*Mestre em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, RS

 

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