Guia do Estudante

Aventuras na História

Onde foram parar os negros da Argentina?

Cláudia de Castro Lima | 01/06/2005 00h00

Quando, em abril, o jogador de futebol argentino Leandro Desábato, do Quilmes, chamou Grafite, do São Paulo, de "macaco", a questão do racismo voltou à tona. Na Argentina, o tema é particularmente polêmico - sobretudo porque o tráfico de negros lá teve um fim terrível: a maior parte dos africanos simplesmente sumiu.

O comércio negreiro durou entre os séculos 15 e 19 (a abolição foi em 1853). Num censo de 1778, a população negra chegava a 54% em algumas regiões argentinas. Em 1887, caiu para 1,8%. "A dizimação está ligada às guerras dos espanhóis contra ingleses, no fim do século 18. Nelas, morreram uma boa parte dos negros, engajados como soldados", afirma o historiador Álvaro de Souza Gomes Neto, especialista em escravidão. Mais tarde, no processo de independência (que aconteceu em 1816), foram formadas companhias apenas de negros, os "batalhões de libertos". Com a promessa de liberdade, eles ocuparam as posições mais perigosas. "Morreram quase todos."

Outro motivo para o sumiço foi epidemia de febre amarela, em 1871. Os negros libertos, vivendo em condições de extrema miséria em guetos, foram os mais afetados. Soldados argentinos impediam a saída deles dos bairros em que moravam, com medo de a epidemia se alastrar entre os brancos. Assim, eles morriam sem atendimento médico.

 

Descendentes foram "branqueados" legalmente

Cláudia de Castro Lima

Além da dizimação na prática, a Argentina organizou uma na teoria, registrando todos os descendentes de escravos como brancos. O processo ficou conhecido como "política de branqueamento" e foi praticado no início do século 19. Para o governo argentino, o desenvolvimento e o progresso do país estavam atrelados à cor da pele da população.

Muitas mulheres negras, com a ausência de homens da mesma etnia, casaram-se e tiveram filhos com brancos, inclusive com imigrantes europeus, que começaram a desembarcar no país antes da metade do século 19. Seus filhos, embora tivessem traços negros comprovados, eram registrados como brancos. "As estatísticas, assim, acabaram registrando um sumiço repentino de toda a população negra da Argentina", diz o historiador Álvaro de Souza Gomes Neto. "Todo argentino que não seja descendente de indígenas tem um traço de sangue negro, mesmo que em pequena proporção."

 

Trabalho e racismo

• O sistema econômico argentino começou a substituir a mão-de-obra escrava já por volta de 1840. "Em Buenos Aires, a força de trabalho foi basicamente de imigrantes russos, italianos, espanhóis e judeus novos", afirma o professor Álvaro Neto. No nordeste do país, a força de trabalho era, na maior parte, indígena.

• O na Argentina é forte desde o século 19. "Até os anos 1930, a ·moda· entre os negros era vestir-se, agir e falar como branco", diz Álvaro. "Desde o século 18, identificar alguém com traços negros colocava a pessoa numa condição social extremamente baixa. Há processos e buscas de retratações de pessoas registradas assim." Lá, chamar alguém de "macaco", por exemplo, não é crime.

• O século 20 presenciou uma nova leva de imigrantes africanos na Argentina. "Temos aqui no pais uma comunidade organizada de cabo-verdianos que chegaram principalmente entre as duas guerras mundiais em busca de melhores possibilidades de trabalho" afirma a filósofa argentina Dina Picotti. Segundo ela, a imigração africana vem crescendo novamente nos últimos dez anos.

 

Compartilhe

Busque em História

Edições Anteriores

Edição 130
Edição 130

Edição 129
Edição 129

Edição 128
Edição 128

Edição 127
Edição 127

Edição 126
Edição 126

Edição do mês

edição 132

edição 132,
julho 2014
Como o Brasil se tornou o país com o maior número de seguidores da doutrina em todo o planeta

Assine Aventuras na História