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Pés descalços: Saiba mais sobre a série de quadrinhos de Keiji Nakazawa sobre Hiroshima

Aos 6 anos, o japonês Keiji Nakazawa viu o pai e dois irmãos morrerem queimados no primeiro ataque com uso da bomba atômica da história. Aos 33, ele enfrentou o trauma e desenhou tudo o que viveu

Bianca Nunes | 01/09/2009 19h00

O apocalipse se abateu sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945. Um observador que caminhasse pelas ruas da cidade japonesa veria pessoas queimadas, implorando por água e socorro. Cadáveres lotavam as calçadas, um cheiro podre empesteava o ar e o fogo consumia as casas. No meio do caos provocado pelo primeiro ataque com uma bomba atômica da história, o menino Keiji Nakazawa, de 6 anos, lutava para sobreviver ao lado da mãe e da irmã, nascida minutos após a explosão.

A bomba destruiu sua casa e um incêndio matou seu pai e dois de seus irmãos. Keiji não teve tempo de ficar triste. Ele precisava ser forte para procurar comida enquanto seus cabelos começavam a cair. Com muita garra e alguma sorte, sobreviveu o suficiente para, em 1972, encarar os fantasmas atômicos e começar a desenhar tudo o que viu e viveu. Sua história em quadrinhos foi publicada pela primeira vez na Shukan Shonen Jampu, a maior revista de mangás do Japão. Mais tarde, a sequência foi reunida em quatro livros com o título Gen - Pés Descalços. O nome se refere ao personagem principal, o alter ego de Nakazawa: Gen Nakaoka (pronuncia-se "Guem"), um garoto valente e honesto.

Imagem: Divulgação

A história em quadrinhos começa em abril de 1945, quando a família Nakaoka trabalhava em sua humilde casa em Hiroshima, plantando trigo e fabricando chinelos de madeira para vender. Gen vivia com o pai, Daikichi, a mãe grávida, Kimie, e dois dos quatro irmãos - os mais velhos estavam em campos de trabalho no interior. Eram tempos duros, de racionamento de comida.

Em um momento de grande mobilização nacional, o pai de Gen não escondia de ninguém o quanto odiava a guerra. Logo passou a ser visto como traidor e seus filhos sofreram represálias nas ruas e na escola. Daikichi foi preso e torturado. Na volta para casa, descobriu que não tinha mais clientes nem amigos. Numa das noites, o jantar foi espetinho de gafanhotos. Na outra, já não havia o que comer. Os filhos chegavam a sonhar com bolinhos de arroz.

Tudo mudou cinco meses depois, quando o avião Enola Gay sobrevoou o céu de Hiroshima. Às 8h15, pouco tempo depois de o aviso de ataque aéreo ter parado de soar e as pessoas deixarem os abrigos, Gen chegava à escola. Em casa, a mãe pendurava roupas e o pai e os irmãos circulavam pelos cômodos. De repente, um clarão e um estrondo sacudiram a cidade. A bomba atômica selou o destino dos Nakaoka, de Hiroshima e do Japão.

Passado o tremor, Gen olhou em volta e só viu destruição. Ele mesmo estava vivo por acaso, graças à proteção do muro da escola. Apesar de uns poucos machucados, conseguiu caminhar para casa. Lá encontrou a mãe chorando diante dos destroços. Já o pai, a irmã Eiko e o irmão Shinji ficaram soterrados, mas ainda vivos. O garoto tentou afastar o entulho, mas não conseguiu. Um grande incêndio se aproximava. O drama de ter de abandonar o restante da família perturbaria Gen e a mãe pelo resto da vida.

Nascimento em meio ao caos

"A explosão derreteu a pele de todos que não estavam abrigados", afirma o narrador. Pessoas perambulavam como zumbis. Nesse cenário, a mãe de Gen começou a sentir contrações no meio da rua. Seu filho, sozinho, fez o parto. A bebê nasceu bem e ganhou o nome de Tomoko. Os três eram agora hibakushas - como ficaram conhecidas as vítimas das bombas. E precisavam sobreviver.

Descalço, em busca de comida, Gen viu de tudo: um soldado que o carregou nas costas e depois morreu na sua frente; uma mãe cercada de moscas, tratando os insetos como reencarnação de seu filho morto; e uma menina que vasculhava a boca de todos os cadáveres à procura da mãe, que tinha três obturações de ouro. Três dias depois do ataque, enquanto outra bomba era jogada sobre Nagasaki, o garoto percebeu que seus cabelos começavam a cair.

Depois de alguns dias, a família se deslocou para a cidade vizinha de Eba, onde a mãe do garoto tinha uma amiga - que lhes ofereceu um espaço em troca de aluguel. Só faltava o dinheiro. Gen então arranjou um emprego: cuidar de um hibakusha rico. O estado do homem era deplorável, mas Gen encarou o desafio. Mais tarde, seu paciente lhe ensinaria a desenhar.

Os dias demoravam a passar, mas ver a mãe e a irmã vivas trazia alguma esperança. Outras pessoas sem a mesma sorte confundiam parentes e amigos mortos com qualquer um. O próprio Gen levou um menino para morar com a família só porque o achou parecido com o irmão Shinji. Adotado, Ryuta se tornou um dos melhores amigos de Gen, até matar duas pessoas e fugir com uma gangue.

O Japão declarou a rendição em 15 de agosto. Poucas semanas depois, os americanos chegaram a Hiroshima para pesquisar os efeitos da bomba. Eram vistos pelos japoneses com uma mistura de medo e raiva. Nesse meio-tempo, Gen perdera o emprego. Os Nakaoka foram expulsos por não pagar o aluguel e a família voltou a vagar pelas ruas.

Irmã sequestrada

Num dia em que o garoto saiu para procurar alimento, a irmãzinha, então com 4 meses, sumiu. A busca desesperada o levou a um homem que amparava a esposa no leito de morte. Ao raptar Tomoko, ele queria atender ao último pedido da mulher, que chamava por sua própria filha bebê, morta pela bomba. Tomoko foi resgatada e ficou conhecida na região. Em pouco tempo, a criança se tornou símbolo de esperança. Até que, de repente, começou a vomitar sangue e rapidamente morreu. Mas é preciso ser forte, lembrava Gen, como lhe dizia seu pai. A vida sem a criança seria mais difícil. Na volta para Hiroshima, ele percebeu que o trigo voltara a crescer. Era sinal de novos tempos. A prova de que havia vida após a bomba.

Na introdução da série, o autor escreve que, quando se tornou cartunista, tudo o que não queria era escrever sobre a bomba. Isso mudou em 1966, quando sua mãe morreu e ele descobriu que ela estava quase sem ossos por causa da radiação. Chegara a hora de encarar o trauma. "O ódio ferveu dentro de mim e pela primeira vez eu me confrontei com a bomba. Então fui tomado pelo desejo de escrever sobre ela", afirma Keiji, que hoje tem 70 anos. "Sentia como se minha mãe estivesse me dizendo para revelar a verdade aos povos do mundo."
Sua mensagem é clara: "Não devemos permitir que Hiroshima e Nagasaki aconteçam de novo". E ele conseguiu transmiti-la. Em 1976, voluntários japoneses e estrangeiros criaram o Projeto Gen para organizar as primeiras traduções da obra para o inglês. Os livros ganharam versões para cinema, desenho animado e até mesmo ópera. "Muitas pessoas descobriram sobre o horror da bomba por meio do livro", diz Steve Leeper, presidente da Fundação para a Cultura e Paz de Hiroshima. "O fato de ser HQ o torna ainda mais poderoso, pois pode ser mais explícito. É difícil imaginar alguém que leu Gen e não deseje o fim das armas nucleares."


Saiba mais



A obra

Gen - Pés Descalços , Keiji Nakazawa, Conrad, 1999 a 2001, R$ 24 cada, em média.
Os quatro volumes da série de HQs descrevem a saga real do autor.

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