Guia do Estudante

Aventuras na História

Quatro canções que inspiraram revoluções

Pedro Ivo Dubra | 24/04/2013 17h19

Ópera que serviu de faísca para a independência de um país? Canção de protesto que enfureceu um governo e acabou matando a mãe do compositor? O filósofo grego Platão já alertava no século 4 a.C.: a música mexe com os sentimentos dos homens. No fim do século 18, na França, quando começa aquilo que o historiador Eric Hobsbawm chamou de "era das revoluções", a multidão estava cada vez mais insatisfeita com os rumos desafinados do Antigo Regime e toda ouvidos para novos acordes políticos. "Uma revolução não se faz só com canções, mas elas podem se tornar catalisadoras de tensões sociais", diz Rafael Rosa Hagemeyer, professor de história da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), que estudou o cancioneiro antifascista da época da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). "Quando se escuta o banho de sangue da letra da Marselhesa, colocamos em perspectiva a imagem iluminista da Revolução Francesa e atentamos para outro lado que também fez parte do processo." Nas próximas páginas, exemplos de instantes em que melodias e fatos históricos andaram de mãos dadas.



A mãe de todas - A Marselhesa

Aux armes, citoyens,/ Formez vos bataillons,/ Marchons, marchons!/ Qu’un sang impur/ Abreuve nos sillons! No hino nacional da França, não há lugar para sutilezas. "Às armas, soldados", conclama a Marselhesa. "Formai vossos batalhões (...) Que um sangue impuro banhe nosso solo." O ano de 1789, o da Queda da Bastilha, é a grande referência cronológica da Revolução Francesa, mas 1792 foi igualmente decisivo. Áustria e Prússia se aliaram para tentar sufocar o levante na França e restaurar o absolutismo por lá - o rei Luís 16 havia sido obrigado pelos revolucionários a se tornar um monarca com poderes limitados pela Constituição. O capitão do Exército francês Claude Joseph Rouget de Lisle levava jeito para a música e, a pedido do prefeito de Estrasburgo, onde estava aquartelado, compôs o Canto de Guerra para o Exército do Reno, a fim de celebrar a declaração de guerra contra a Áustria, em 20 de abril. Pouco depois, o tema caiu na boca dos voluntários do Exército oriundos da cidade de Marselha e começou a ser conhecido como A Marselhesa. Estava criada a canção revolucionária mais famosa da história. Em 1795, o tema se tornou pela primeira vez o hino nacional francês - houve banimento da obra durante os impérios de Napoleão e Napoleão III e na Restauração, dos reis da dinastia Bourbon. Em 1879, a República Francesa o reabilitou.

Em vez de pizza, revolta

Bruxelas, 1830. Em 25 de agosto, a apresentação de uma ópera selou os destinos da Bélgica. Estreada em 1828 em Paris, La Muette de Portici (A Muda de Portici), do francês Daniel Auber, é hoje uma obra pouco encenada, mas que entrou para a história. Em sua trama, retrata-se uma revolta em Nápoles, na Itália, que vivia sob o jugo espanhol no século 17. Em 1830, os belgas se encontravam sob domínio holandês, integrando o Reino Unido dos Países Baixos. A Europa atravessava um clima agitado - a França acabara de destronar o rei Carlos 10 - e eis que a performance de canto lírico virou um estopim para a rebelião. A plateia se identificou com a luta contra a opressão no palco, misturando ficção e realidade. Distúrbios começaram logo na saída do Teatro Real de la Monnaie, e o clima revolucionário estava instaurado no país. Em julho de 1831, Leopoldo 1º se tornou o primeiro rei dos belgas.

A Marselhesa da bota

Em 1842, a península Itálica era uma colcha de retalhos, formada por reinos, ducados e os Estados pontifícios (chefiados pelo papa). A cidade de Milão se encontrava em território sob controle austríaco. Por lá, em 9 de março, estreava a ópera Nabucodonosor, do compositor Giuseppe Verdi. A trama se passava em tempos bíblicos, mas o tema do coro Va, Pensiero tinha potencial para ressoar no presente: trata da opressão dos babilônios ao hebreus. O público presente ao Teatro La Scala gostou e pediu bis, o que era proibido pelo governo. O episódio foi tido como um protesto contra a dominação estrangeira e como um instante decisivo da tomada de consciência nacional. O mito permaneceu, e Verdi se tornou um dos vultos do Risorgimento, a unificação italiana, iniciada em 1861. Os revolucionários adotaram o slogan "Viva Verdi", acrônimo de "Viva Vítor Emanuel, Rei da Itália", uma referência à unificação da península em torno do monarca do reino da Sardenha.

Senha para a liberdade

Em 25 de abril de 1974, a Revolução dos Cravos, em Portugal, ganhou esse nome por causa das flores vermelhas colocadas nos canos das espingardas dos soldados rebeldes, mas poderia ser chamada também de Revolução Musical. Duas canções foram tocadas no rádio como a senha de confirmação às tropas de que estava de pé a ideia de dar um golpe para derrubar o capenga regime autoritário, iniciado em 1933 por António de Oliveira Salazar. Às 22h55 do dia 24, executou-se E Depois do Adeus, de José Niza e José Calvário. Apesar do título meio profético, tratava-se de um tema romântico, apolítico, que não daria muita bandeira caso a operação fosse abortada. À 0h20 do 25 de abril, veio Grândola, Vila Morena e fez-se história. Composta pelo esquerdista Zeca Afonso, a canção havia sido pensada como homenagem a operários de Grândola, uma pequena vila da região do Alentejo. Foi a senha da revolução.

E no Brasil?

"Acho que a música aqui sempre acabou sendo mais um pano de fundo que recorda uma época do que uma protagonista histórica", afirma Irineu Franco Perpetuo, jornalista especializado em música erudita. Nesse sentido, um dos jeitos de lembrar e mesmo estudar a ditadura militar (1964-1985) é escutando o cancioneiro censurado. O regime vetou obras aos montes, com uma paranoia que podia chegar ao ridículo. Em 1973, a música Tiro ao Álvaro, de Adoniran Barbosa e Oswaldo Molles, foi censurada por "falta de gosto". Chico Buarque tinha suas criações barradas constantemente. Só que a mais emblemática canção daquele tempo foi Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, aquela do refrão "Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Para boa parte de quem se opunha à ditadura, era a nossa Marselhesa.

Canção e pancadaria


Não é o caso de uma música que levantou um país, mas a repercussão do hit do compositor nigeriano Fela Kuti, quando lançou a dançante Zombie, em 1977, é uma boa medida para mostrar como a arte pode incomodar os poderosos. Fela era um músico respeitado em todo o mundo como o inventor do afrobeat, a fusão de jazz, funk e ritmos africanos. A letra de Zombie descia a lenha no comportamento "zumbi", descerebrado, do Exército de seu país. O que aconteceu depois é uma aula sobre a feição linha dura de muitos dirigentes africanos pós-descolonização: fúria de autoridades, homens invadindo e incendiando a República Kalakuta, misto de estúdio e casa, onde morava com sua banda, mulheres estupradas e a septuagenária mãe do artista arremessada da janela (ela morreu no ano seguinte em consequência das lesões). A ditadura nigeriana não dançou ao som de Zombie.

Saiba mais

LIVRO


Rouget De Lisle: Sa Vie, Ses Ouvres, La Marseillaise, Alfred Étienne, Nabu Press, França, 2010.

A biografia do autor da Marselhesa. O livro é um fac-simile da obra original, de 1923.

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