Guia do Estudante

Aventuras na História

O rei leão Bob Marley

Sérgio Gwercman e Débora Bianchi | 01/01/2004 00h00

Não, não é só sua música. É atitude. É visão de mundo. Para entender como e por que tudo isso influenciou corações e mentes de jovens do mundo todo, nesses últimos 20 anos, é preciso escutar suas músicas. Mas também é necessário ir mais fundo na história do homem debaixo dos dreadlocks. Quem foi Bob Marley?

Protestos pela legalização da maconha. Manifestações em defesa da emancipação do Terceiro Mundo. Campanhas para promover o turismo na Jamaica. Passeatas anti-racismo. Em qualquer dessas situações, é só procurar: em algum lugar você encontrará uma imagem de Bob Marley, com seus longos cabelos e dreadlocks. Vinte e três anos após morrer, o cantor jamaicano virou um fenômeno polivalente. Seu rosto estampa de cartazes de protesto a camisetas vendidas aos montes em qualquer parte do planeta. Sua música urbana, denunciando desigualdades entre ricos e pobres, virou indispensável a jovens que viajam para a praia em busca de paz e tranqüilidade. E até o governo jamaicano, que antes fazia de tudo para esconder dos turistas os rastafáris com cabelos compridos, hoje imprime selos lembrando que o país é a terra natal do cantor. Para entender esse fenômeno é preciso escutar suas músicas, é claro. Mas também é preciso buscar em sua história, em sua biografia, os elementos que o transformaram num ídolo de milhões.

Robert Nesta Marley nasceu em 1945, em Nine Miles, um vilarejo rural onde sua família era dona de algumas terras. Cresceu sem conviver com o pai, Norval Marley, um branco que trabalhava para o governo e engravidou Cedella Nesta quando ela tinha apenas17 anos. Norval casou-se com a menina apenas para abandoná-la um dia após a cerimônia – antes mesmo que o filho do casal nascesse. Quando Bob tinha 7 anos, Cedella pegou o menino e levou-o para viver num favelão de casebres minúsculos na capital, Kingston. Lá, o menino cresceu nas ruas, meio jogando bola, meio fazendo música numa guitarra improvisada com uma enorme lata de sardinha, uma vara de bambu e fios de cobre. Da mesma forma como ainda vivem jovens como ele na Jamaica. O país quase não mudou nesse tempo todo.

Se dependesse da mãe, Bob seria um promissor soldador, operário da promissora indústria de autopeças jamaicana. Mas o adolescente estava mais interessado em tocar ska, o ritmo que fazia ferver a ilha (e as mocinhas) do Caribe. Em 1962 veio a primeira gravação em estúdio e pouco depois ele estava compondo e tocando com Bunny Livingston, um amigo de infância, e Peter Tosh. Juntos, eles formaram o grupo The Wailers, que até conseguiu algum sucesso com músicas como Judge Not – o que de forma alguma pode ser confundido com dinheiro.

E foi a grana, ou a busca por ela, que fez com que Bob deixasse para trás o sonho, a música e a mulher Rita Marley, com quem acabara de se casar, e partisse para os Estados Unidos. Lá Bob apertou porcas e parafusos na linha de montagem da automobilística Chrysler, foi ajudante de laboratório da química DuPont, dirigiu empilhadeiras no turno da noite num armazém e carregou bandejas como garçom de um restaurante. Mudou de empregos com a mesma rapidez com que descobriu a falta de vocação para a indústria – trabalho braçal para ele era tocar violão.

A aventura durou a maior parte do ano de 1966. E, enquanto ele tentava vencer na América, algo incrível acontecia em sua terra. A Jamaica recebia a visita de Hailé Selassié, que levou 100 mil pessoas às ruas da capital. Para os rastafáris, Selassié, rei da Etiópia, era Jah, ou seja, Deus. Sua presença foi o clímax de um movimento surgido no início do século 20 e popularizado por Marcus Garvey, um pregador que costumava dizer: “Voltem-se para a África, lá será coroado o rei negro. Ele será o redentor”. A coroação de Selassié como rei da Etiópia, em 1930, foi interpretada pelos seguidores de Garvey como a confirmação da profecia e assim surgiram os primeiros rastafáris, que não passavam de alguns fiéis isolados em pequenas comunidades de pescadores.

Quando Bob voltou, Rita estava convertida ao rastafarianismo e ele também abraçou a religião. Com os 700 dólares que trouxe dos Estados Unidos, abriu uma loja de discos e voltou a cantar com os amigos do The Wailers.

A banda tocava em Kingston e chegou a se arriscar na Europa (principalmente em Londres, onde havia uma grande comunidade jamaicana). Em 1970, durante uma dessas viagens, a gravadora Island Records lhes ofereceu um contrato. Eles aceitaram na hora.

Fizeram um ótimo negócio. “Chris [Blackwell, dono da Island] deu a Marley dinheiro e liberdade musical como ele nunca havia tido”, afirma o jornalista Ed Ward, autor História Ilustrada do Rock, publicada pela revista Rolling Stone. Os discos lançados pela Island transformaram Bob numa estrela mundial. A maioria dos hits que Bob emplacou vem dessa época. Em 1974, Tosh e Bunny deixaram a banda.

O sucesso deu-lhe fama e fortuna, mas suas opiniões políticas não arrefeceram. Juntando influências, Bob Marley foi construindo uma visão de mundo radical e própria. Escutava a esquerda, os movimentos negros americanos e os rastas mais velhos. Às vezes suas opiniões soam maniqueístas, especialmente ao falar das relações entre a elite de seu país (a minoria branca) e os miseráveis (a maioria negra). “Os ricos são assaltantes, ladrões puros. Os inteligentes e inocentes são pobres e são esmagados e brutalizados”, dizia o cantor. Justo ele, que havia virado um milionário e vivia numa mansão comprada pela gravadora Island na área mais nobre de Kingston. O primeiro-ministro morava na rua de cima.

A Island House, como a casa ficou conhecida, foi a meca do reggae durante quase uma década. Não bastasse servir de moradia para o maior nome do gênero, ainda reunia uma legião de amigos e músicos que gravitavam ao redor de Bob. Bunny “Wailer” vivia lá. Peter Tosh aparecia às vezes. Quando estava na Jamaica, Blackwell acampava na casa da rua Hope. Inicialmente, os rastas mais antigos torceram o nariz para tanto luxo. Logo também eles começaram a passar horas, às vezes dias, no local, dividindo os jardins com algumas das mulheres mais bonitas da cidade. “Era uma comuna hippie não-dogmática, com abundância de comida, erva, crianças, música e sexo informal”, escreve Timothy White em Queimando Tudo, a mais completa biografia do cantor.

Bob era capaz de conciliar a vida rastafári numa mansão tão bem quanto encarava a presença de suas amantes sob o mesmo teto que Rita Marley. O que ele queria mesmo era estar perto de Jah – cantar, fumar maconha e se aproximar da natureza. Bob tornara-se um fervoroso rastafári.

No auge do sucesso surgiu a notícia de que ele tinha câncer. Pior: o tratamento recomendado ia de encontro aos preceitos do rastafarianismo e o cantor entregaria o caso para Jah. Houve pouca comoção, porque quase ninguém ficou sabendo do verdadeiro motivo da frágil saúde do jamaicano. Quando a gravidade da doença chegou aos ouvidos da imprensa, a vida de Bob já tinha data marcada para terminar. Aos 36 anos ele virou mito. Saiu da vida para enfeitar camisetas, cartazes em passeatas e campanhas de turismo. Não é para qualquer um.

 

Infância pobre

Na vizinhança, barracos construídos com latas de combustível e pedaços de madeira devorados por cupins. O esgoto corria a céu aberto e o ar estava sempre tomado pela fumaça da brasa de quem preparava comida no meio das ruas – fogão dentro de casa era um luxo disponível apenas aos brancos da classe alta. Para quem saiu da pequena vila rural de Nine Miles, encontrar a miséria urbana na capital do país foi um choque. Bob chegou em Kingston aos 7 anos, em 1952, trazido pelas mãos da mãe, Cedella.

Foram os dois morar num yard, como eram chamados os quarteirões murados onde se reuniam casebres de um cômodo que davam frente para um quintal comum. Três anos depois a família melhorou de vida e mudou-se para o favelão de Trench Town, onde alugaram uma casa num yard do governo. A grande diferença era que lá os apartamentos tinham banheiro privativo e os moradores não eram obrigados a escolher entre uma fossa pública ou o tradicional matinho para fazer suas necessidades. Foi aqui que Bob começou a recolher motivos que mais tarde o levariam a cantar: “Mesmo sem correntes nos pés, eu não estou livre”.

 

Deus vivo

Imagine se os cristãos descobrissem que Jesus nunca foi crucificado. Foi mais ou menos esse o impacto causado no rastafarianismo pela morte do rei da Etiópia, Hailé Selassié, em 1975. Selassié era considerado Jah, o Deus imortal rastafári. A idolatria dos jamaicanos fez com que Selassié passasse de apenas mais um governante africano para uma das mais intrigantes figuras do século 20. Dono de hábitos extravagantes, como andar de limusine na Etiópia e cercar-se de zebras em Nova York, Selassié nasceu Tafari. Como descendia de uma família real, era tratado por Ras, “príncipe” na língua local.

Tomou o poder de maneira brutal. Mesmo considerando-se descendente direto do rei Salomão, Selassié não gostava de ser tratado como Deus. Quando visitou a Jamaica, assustou-se com a multidão e chegou a se recusar a deixar o avião. Os dias de glória começaram a minguar quando um golpe militar derrubou-o do comando da Etiópia. Morreu de forma misteriosa, possivelmente assassinado com o próprio travesseiro no quarto onde estava preso por ordem de seu sucessor.

 

Vida rastafári

Rita Marley ficou deslumbrada com a passagem de Selassié pela Jamaica. E, quando Bob retornou ao Caribe, logo aderiu ao rastafarianismo. Foi um momento importante não só pela definição da fé que seguiria, mas pelo modo de vida que adotaria dali pra frente. A nova religião definiria sua vida: o tipo de comida que comeria, a aparência que teria, e, em última instância, sua própria morte. Mas a conversão não foi imediata. Em 1968, por exemplo, Bob cortou os dreadlocks a pedido da mãe, que não gostou de vê-lo envolvido com os rastas. Mas depois de 1970 os Marley ficaram cada vez mais envolvidos. Eles raramente quebravam a rígida doutrina. E, quando isso ocorria, normalmente vinha sob a forma de uma taça de champanhe em alguma festa em Londres ou Los Angeles. Dentro de Island House o estilo rasta era levado a sério e praticado pela maioria dos habitantes.

Em 1975, Bob aderiu às Doze Tribos de Israel, uma seita que entre outras coisas pregava a existência de uma elite rastafári – no Dia do Juízo Final, apenas 144 mil pessoas seriam salvas – e tinha rituais que incomodavam os mais antigos. “O fato de Bob ter entrado para as Doze Tribos talvez não seja tão significativo quantos as conseqüências”, escreveu Timothy White, biógrafo de Marley. “Desenvolveu-se intensa luta de poder na rua Hope. Rastas da ‘cidade pobre’ versus rastas das Doze Tribos (a cidade nobre)”. Com o passar do tempo, Bob se cansaria do dogmatismo das Doze Tribos, que também se cansariam da falta de obediência do cantor. De fato, a passagem de Bob pela seita culminaria como um período de afastamento da vida radicalmente rasta. Seus amigos já estavam misturando cocaína ao cigarro de maconha e tomando porres em festas de arromba. E, mesmo que ele não participasse diretamente desse mundo, o jamaicano parecia se distanciar do que um dia fora a vida natureba na mansão da rua Hope.

 

Maconha, mulheres e 11 filhos

Por volta de 1970, Bob levava uma vida dedicada ao rastafarianismo. Suas manhãs começavam com exercícios físicos ao nascer do Sol, seguidos de um copo de chá, um cigarro de maconha e alguma cantoria ao violão. O hábito de consumir ganja (a maconha) tinha como objetivo aproximar o homem de Jah e era seguido à risca. “Mal conseguia vê-lo no meio de tanta fumaça”, disse certa vez o também cantor Eric Clapton após visitar Bob numa apresentação. De tanto fumar, Bob Marley tinha no lábio duas cicatrizes causadas por queimaduras de cigarros de maconha. Ele seguia também uma dieta rigorosa: nada de carnes, alguns tipos de peixes, laticínios, farinha branca, sal, açúcar e álcool.

O rastafarianismo prega a total harmonia entre homem e natureza. Mas, ao contrário dos libertários hippies, os rastafáris obedecem rigidamente às escrituras bíblicas. A proximidade com o Velho Testamento faz lembrar costumes de judeus ortodoxos – com quem dizem se identificar. Seguindo uma ordem do Levítico (um dos livros da Bíblia), os cabelos não devem ser cortados. Mulheres têm papel secundário: cabe a elas parir e cuidar da casa. Não participam das decisões importantes e vestem-se sobriamente. Bob não era muito diferente no relacionamento com sua esposa Rita. “À medida que ele foi adquirindo um rol de amantes, passou a tratá-la como criada”, afirma White. O músico teve 11 filhos reconhecidos com oito mulheres diferentes, entre elas uma Miss Mundo jamaicana.

 

De volta para a África

Ainda hoje existem na África comunidades rastas que foram para lá em busca de suas raízes. Retornar ao continente era o objetivo de qualquer rastafári praticante, especialmente antes da visita de Selassié à Jamaica. Naquele ano, começou a circular a teoria de que o rei dizia secretamente aos negros para se libertar em seus países antes do retorno. Bob compartilhava da idéia de que apenas na África os negros poderiam se emancipar e superar o jugo da elite branca. O cantor viajou para lá três vezes e teve experiências conturbadas. Viu que negros também podiam dominar negros e manter suas elites. Em 1978, foi à Etiópia e ficou irritado ao conhecer a violência da ditadura que derrubara Selassié. Dois anos depois, tocou nos festejos de aniversário do presidente do Gabão e na celebração pela independência do Zimbábue, num show em que a polícia disparou bombas de gás lacrimogênio contra a multidão.

Para Roger Steffens, autor do livro Bob Marley: Spirit Dancer, os episódios não diminuíram no cantor a crença de que os negros pertenciam à África. “Se ele não tivesse morrido, acredito que hoje estaria vivendo na Etiópia, em alguma comunidade rasta sustentada por seus milhões de dólares”, diz.

 

Política e polícia

Em 1976, a Jamaica vivia dias de tensão com mais uma eleição se aproximando. Uma unidade da polícia montava guarda na rua Hope para dar segurança a Bob Marley. Mas não adiantou: por volta das 20h45, Don Taylor, empresário do cantor, desabou no chão de Island House atingido por quatro tiros. Seguiram-se 15 minutos de tiroteio. Quando cessaram os disparos, Rita e Bob Marley e um amigo do casal estavam feridos. Era o dia 29 de novembro, uma segunda-feira. No domingo seguinte, Bob deveria se apresentar num festival promovido pelo partido de esquerda jamaicano. Segundo um relatório da CIA, a participação do cantor no evento estaria por trás da emboscada. Timothy White discorda: ele atribui o ataque ao envolvimento de Bob no pagamento de uma dívida contraída por alguns amigos rastafáris.

No domingo, Bob subiu ao palco ainda se recuperando do tiro que raspou seu peito e se alojou no braço. “Quando decidi fazer esse concerto, disseram que não tinha política. Só queria tocar por amor ao povo”, disse. A verdade era que Bob estava, sim, cada vez mais metido com política. Não fosse por isso, seu nome não apareceria nos registros da CIA. Mesmo mantendo-se longe da disputa entre os dois principais partidos, ele não poderia se distanciar muito da guerra ideológica entre direita e esquerda, que nos tempos de Guerra Fria e naquela região era agravada pelo apoio a Cuba ou Estados Unidos. Somente em fevereiro de 1978 ele retornaria à Jamaica. PNP e JLP, os dois principais partidos opositores, convenceram o músico a fazer um show para apaziguar os ânimos no país, que beirava a guerra civil. Após cantar “Jamming”, Bob convidou ao palco Edward Seaga, candidato do JLP, e Michael Manley, do PNP, e induziu-os a um aperto de mãos. Os ânimos continuariam quentes por anos. Mas o momento foi histórico.

 

Conspiração e companhia

Bob Marley fez uma música dedicada ao serviço de inteligência dos Estados Unidos, a CIA. Batizou-a de “Rat Race” (que pode ser traduzido como “Raça de Ratos” ou “Corrida de Ratos”). A falta de carinho era recíproca: os políticos americanos nunca nutriram admiração pelo jamaicano. O nome Bob Marley aparecia com freqüência em relatórios da CIA. Um deles descreve o atentado em Island House como uma ação política e afirma que o cantor servia aos interesses do partido de esquerda jamaicano. Dessa polêmica nasceu uma torta teoria da conspiração afirmando que Bob foi morto pela CIA. Para tanto, a agência teria colocado um arame envenenado numa bota enviada para o cantor. A ferida teria levado ao câncer. Segundo especialistas, o tipo de câncer que abateu Bob não poderia ter sido causado por um episódio dessa natureza.

Bem Brasil

Bob Marley chegou ao Rio em 18 de março de 1980. De cara, teve de esperar horas para obter um visto. “Ele chegou com cara de poucos amigos”, afirma Mauricio Valladares, fotógrafo que acompanhou a visita do cantor. No dia seguinte, houve uma pelada na casa de Chico Buarque, com a presença de Toquinho, Alceu Valença e do jogador Paulo Cesar Caju. O time de Bob venceu por 3x0 e ele marcou um gol. “Mas era grosso”, diz Maurício. À noite, durante uma festa no Morro da Urca, pediram-lhe uma canja, mas ele negou. No dia 20, ele já estava de volta à Jamaica – e sem cantar uma música.

Herança mais que musical

Em 1991, a família Marley e a empresa Island Logic, de Chris Blackwell, compraram o espólio de Bob Marley por US$ 11,5 milhões. Conseguiram assim o direito sobre toda a obra do cantor, que era alvo de disputas judiciais entre empresários, gravadoras e herdeiros. Um dinheiro e tanto, ainda mais se comparado à força que o astro do reggae teve em vida. Mesmo sendo conhecido em todo o planeta, Bob nunca conseguiu ultrapassar as barreiras do mundo negro ou das casas alternativas e emplacar um hit nos Estados Unidos –”I Shot the Sheriff” chegou às paradas, mas na voz de Eric Clapton. “Por volta de 1977, todas as gravadoras já consideravam o reggae um fracasso comercial”, afirma Ed Ward. E a verdade é que, após sua morte, o reggae praticamente deixou de existir fora da Jamaica. Os discos de Bob, no entanto, vendem bem até hoje. Ele é mais um caso de músico que turbinou as vendas após o encontro com Jah.

Marley era o cara

Meu irmão já dirigia e no Chevetinho branco dele só rolava Bandeirantes FM – era a emissora perfeita, com o melhor de todos os gêneros. Um dia lá entrou “Roots, Rock, Reggae”, a música que mexeu com meus parafusos. O locutor: “Bob Marley e o rock da Jamaica... ” Tive a sorte de aprender batucada quando era moleque – onde eu estudava, em vez de fanfarra havia uma escola de samba. Ora, aquele rock da Jamaica era mesmo diferente de tudo que eu já havia escutado. Dava pra acompanhar com um pandeiro, por exemplo, mas tinha de tocar com uma quebrada diferente, um acento especial. E a linha de baixo? O que era aquilo?! Outra é que logo peguei a letra. Aliás, essa é uma das forças da música de Marley: todo mundo entende. Com palavras simples e meia dúzia de citações bíblicas, ele criou uma mensagem universal. O fato é que eu fui fisgado pelo reggae e isso ocorreu por causa de Bob Marley – deve ter sido assim com você também.

Uma das coisas que eu descobri é que, nos anos 70, havia outros caras brilhantes na Jamaica, a maioria fazendo música com palavras simples e meia dúzia de citações bíblicas. Então, por que Bob tornou-se “o cara”? Primeiro, porque com ele estavam os irmãos Carlton (bateria) e Aston “Familyman” Barrett (baixo). Esses dois chegaram à grande síntese do reggae – uma pegada única, que transcendeu as outras, também muito boas, que se praticavam na ilha no final dos anos 60. Com o álbum Catch a Fire, de 1973, então, o reggae ganhou uma linguagem nova, incorporando solos de guitarra e outras influências do rock. Dá para dividir a história assim: antes e depois desse disco. Outra explicação é que ele era autêntico. A roupa que usava nos shows era a mesma que usava na rua e jamais alguém disse que ele cantava de olhos fechados pra tirar uma chinfra. A carapinha era ainda mais afirmativa que a do black power e suas crenças – algumas até bem esquisitas – não mudaram depois que ele se tornou um superstar.

Enfim, ele era um cara descolado e sem complexos, e essa é uma aspiração de todo mundo. Mas acho que explico Bob Marley melhor com outras coisas. Em 1990 eu estava em Montego Bay, Jamaica, acompanhando o Reggae Sunsplash, que até então era o maior festival do gênero. Os shows começavam no final da tarde e iam até a manhã seguinte. Entre uma e outra sessão de grandes artistas, um DJ trocava alguns discos, escondido atrás de um dos paredões de caixas acústicas. Durante um bom tempo ele tocou dance hall reggae e ragga, que já estavam bem em voga, e então começou a tocar Bob Marley, um atrás do outro. Notei que houve um arrefecimento do público. Jamaicanos, australianos, ingleses, americanos... Havia gente de todo mundo e, naquele instante, com o súbito corte no paradão de sucessos, fez-se o silêncio. Achei que o rapaz tinha quebrado a cara em sua manobra, digamos, popularesca. Dez minutos depois, a situação era outra. Eu e pelo menos 29 999 outras almas estávamos cantarolando cada uma das canções do velho.

Não havia êxtase, delírios, isqueirinhos acendendo, nem gritos esparsos: éramos todos uma só voz, grave e contida, como numa oração. De onde eu estava, dava para ver boa parte dos superstars que ainda subiriam no palco naquela noite, e todos cantavam junto. Nesse dia, mais uma vez, a música de Bob Marley mexeu com meus parafusos.

 

Última faixa

Bob Marley morreu de câncer. E diferentemente do que se diz por aí, o tumor não se alojou no pulmão ou foi causado pelo consumo excessivo de maconha. Marley sofreu um melanoma que se espalhou pelo corpo – a chamada metástase. É um caso simples, mas que ficou obscurecido por uma série de lendas criadas por quem acha impossível um sujeito no auge da fama ter câncer e morrer. A explicação mais lunática diz que foi tudo obra da CIA. “Essa hipótese não faz sentido”, diz Roger Steffens. O câncer foi descoberto meses após um jogo de futebol em Paris, em 1977. Em uma dividida, o cantor perdeu a unha do dedão direito. Como a ferida não cicatrizava, Bob foi ao médico e ouviu a recomendação de que deveria amputar o dedo. Nada feito: o rastafarianismo proíbe a mutilação do corpo e a cirurgia foi recusada. “O melanoma não pode ser transmitido ou causado por uma contusão dessas”, afirma Steffens, negando que o câncer tenha sido provocado pela perda da unha.

Outro especialista foi consultado, e dessa vez o cantor aceitou fazer um enxerto no pé machucado. O médico disse que a intervenção fora um sucesso. Em setembro de 1980, Bob desmaiou durante uma corrida no Central Park, em Nova York. Internado secretamente, ouviu que tinha poucos meses de vida e começou a fazer radioterapia. Ficou praticamente careca com a queda de seus dreadlocks – que mais tarde foram enterrados com o corpo, segundo algumas versões, ou colados à cabeça para o velório, segundo outras. Tentou-se ainda um tratamento alternativo com um médico alemão que tinha uma clínica na Áustria. Tarde demais: Bob Marley morreu no dia 11 de maio de 1981.

 

Saiba mais

Livros

Queimando Tudo, Timothy White, A mais completa biografia de Bob Marley. O jornalista (que escreve para as revistas Rolling Stone e Billboard) destrinchou a vida do cantor num catatau de 500 páginas: da infância às brigas pela herança. White compilou a mais completa lista de discos lançados e músicas gravadas. É a única boa opção em português.

Spirit Dancer, Roger Steffens e Bruce Talamon, Vale pela combinação de textos e fotos.

Lyrical Genius, Kwame Dawes, Interpreta letras escritas por Bob Marley.

Discos

Burnin (1973) e Natty Dread (1974), Dois clássicos da melhor fase do cantor.

Babylon By Bus (1978), Sensacional. Toda a energia de Bob Marley no palco.

 

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