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Religião X Ciência: do sol à célula-tronco

Líderes religiosos e cientistas têm um longo histórico de discordância na tentativa de explicar o homem e o mundo

Bárbara Axt | 01/05/2005 00h00

Estão liberadas no Brasil pesquisas com células-tronco retiradas de embriões humanos. A Lei de Biossegurança foi aprovada em março, apesar da movimentação da Igreja e de grupos antiaborto. Os opositores da lei se baseiam na crença de que o ser humano tem alma desde a fecundação, e por isso destruir um embrião é assassinato. Os favoráveis a ela se apóiam no fato de as células-tronco (que podem se transformar em qualquer tecido do corpo) serem uma chance de cura para vários tipo de doença, de mal de Parkinson à paralisia dos membros.

Não é a primeira vez, nem decerto será a última, que dogmas religiosos se opõem a pesquisas científicas. As religiões nasceram como uma maneira de explicar a natureza aos homens e responder a perguntas difíceis – como de onde viemos, por que chove, o que é um relâmpago, por que as pessoas morrem. Porém, as respostas da religião não costumam mudar com o tempo. As da ciência, sim. A conseqüência lógica desse descompasso é que muitas questões passaram a ter (no mínimo) duas respostas: a religiosa e a científica. Muitas vezes conflitantes.

Choques com as idéias científicas não se resumem à Igreja Católica. Em 1553, Calvino condenou à morte o médico Michel Servet, responsável pela descoberta da circulação sanguínea. A justificativa: as idéias de Servet a respeito da Santíssima Trindade eram consideradas heréticas. Hoje em dia, as religiões continuam influenciando o desenvolvimento da ciência. Se não queimando gente em fogueiras em praça pública, ao menos direcionando verbas para pesquisas e fazendo lobby contra ou a favor de determinadas leis.

 

Religião x Ciência

Nessa guerra de idéias, estão em jogo conhecimento, interesses políticos, fundamentalismo religioso e até rituais indígenas

Biblioteca de Alexandria

Segundo uma das versões, a biblioteca de Alexandria foi incendiada em 22 de dezembro de 640 pelos muçulmanos. A justificativa: “Se esses livros contradizem o Alcorão, devem ser destruídos. Se eles repetem as palavras do Alcorão, são desnecessários – e devem ser destruídos”. Mas é provável que essa seja apenas a versão dos cristãos, verdadeiros responsáveis pela destruição do local durante os saques a Alexandria – neles, manuscritos gregos raros, por exemplo, se perderam. Também em Alexandria, cristãos assassinaram Hipátia, a quem foram atribuídas invenções como o astrolábio e o hidrômetro. A mulher não era bem vista pela Igreja, que começava a dominar a região. Em 415, foi atacada por monges cristãos seguidores do bispo Cirilo e esfolada até a morte. Depois desse episódio, filósofos, matemáticos e pensadores de todo tipo resolveram abandonar a cidade, que deixou de ser o centro de ensino do mundo antigo – e a ciência retrocedeu bastante no Ocidente a partir desse período.

Giordano Bruno

No final do século 16, o filósofo e matemático italiano apoiou-se na teoria que Copérnico publicara décadas antes de que a Terra girava em torno do Sol (e não o contrário) e foi além: afirmou que o Universo é infinito e que o Sol é apenas uma de muitas estrelas. Foi perseguido, torturado e preso como herege por sete anos até que a Santa Inquisição o julgou culpado. Em 1600 se recusou a negar suas idéias e foi queimado vivo. Antes disso, sua língua foi cortada para que ele não pudesse falar ao público que assistia à execução. Embora o modelo heliocêntrico fosse de Copérnico, ele não chegou a ser perseguido, porque morreu dois meses depois da publicação de suas idéias. Galileu Galilei foi outro que teve problemas quando tornou pública sua simpatia pelo heliocentrismo. Foi condenado, em 1633, a negar publicamente suas idéias e passou o resto da vida em prisão domiciliar.

Homem de Kennewick

Encontrado em 1996 em Washington, o “Homem de Kennewick” é um dos mais completos e antigos esqueletos humanos das Américas. Logo após sua descoberta, porém, quatro tribos indígenas locais exigiram a posse do fóssil, para que ele pudesse ser enterrado de acordo com seus rituais. No entanto, um exame de seus ossos determinou características físicas caucasianas e descobriu que ele tem cerca de 9 mil anos de idade, impossibilitando qualquer relação de parentesco com os nativos americanos. A descoberta pode indicar que a povoação das Américas conta com um fluxo migratório da Ásia, através do Estreito de Bering. A disputa na Justiça continua até hoje – em 2004, os cientistas ganharam o direito de estudá-lo, mas os índios recorreram. Desde 1998 os ossos estão no Burke Museum, em Washington.

Charles Darwin

Charles Darwin publicou A Origem das Espécies em 1859, livro baseado nas observações e fósseis coletados durante a viagem de cinco anos no navio HMS Beagle. Na obra, ele expunha sua “Teoria da Evolução”, afirmando que as espécies animais evoluem de outras menos desenvolvidas. E incluiu o ser humano nessa história, como descendente dos primatas. Com isso, Darwin provocou reações violentas por parte da Igreja – e dos acadêmicos, que promoveram discussões ferrenhas e o chamavam de “ape” (macaco). A polêmica teoria dividiu opiniões mas, assim como a de Copérnico, foi aceita como a versão correta dos fatos. Nos últimos anos, no entanto, grupos religiosos têm se posicionado contra o ensino da teoria da evolução nas escolas, insistindo em aceitar como verdadeira a versão bíblica da criação do homem – aquela mesmo, de Adão e Eva.

Budas de Bamiyan

As estátuas gigantes dos Budas de Bamiyan, com 53 e 38 metros, são representantes da arte greco-budista, nascida da expansão da cultura grega pelo Oriente. Localizadas no Afeganistão, resistiram a cerca de 1 800 anos expostas ao tempo. Em 2001, a milícia Talibã decidiu explodir completamente os monumentos, como parte de uma campanha destinada a acabar com todas as imagens não-islâmicas na região (e, assim, com a matéria-prima de arqueólogos e historiadores). No esforço internacional de reconstruir as estátuas, pesquisadores estão achando fragmentos das esculturas, assim como novas informações sobre o intercâmbio cultural da época da construção – se as estátuas tivessem sido poupadas, as pesquisas certamente seriam facilitadas.

 

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