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Aventuras na História

Simón Bolívar: meu sonho de liberdade

No início do século 19, Simón Bolívar livrou a América do Sul do domínio espanhol. Mas, quando resolveu lutar por justiça social, foi derrubado pela elite dos países que ele próprio havia libertado

Mauro Tracco | 01/08/2006 00h00

"Juro pelo amor do Deus de meus pais. Juro por eles. Juro pela minha honra e juro pela minha pátria que não darei descanso a meu braço, nem repouso a minha alma, até que haja rompido as correntes que nos oprimem por vontade do poder espanhol!” Esse compromisso, assumido por Simón Bolívar quando ele tinha pouco mais de 20 anos, foi levado às últimas conseqüências. O Libertador, como ficou conhecido, coordenou as campanhas militares responsáveis pela independência de cinco países sul-americanos: Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Bolívia. Vitorioso, passou a lutar pela união das nações latino-americanas e por justiça social. Em pouco tempo, essas causas acabariam levando-o à ruína.

Bolívar nasceu em Caracas, na então América Espanhola, no dia 24 de julho de 1783. Sua família pertencia à elite da colônia. Perdeu o pai aos 3 anos e a mãe aos 9. Aos 15, foi enviado a Madri para concluir os estudos. Na capital da metrópole, ele conheceu a espanhola Maria Teresa Toro, com quem se casou em 1802. Retornou para Caracas, onde poderia ter vivido em paz cuidando dos negócios familiares. Mas a fatalidade voltaria a castigá-lo: dez meses depois de chegar à América, sua esposa morreu de tuberculose. Bolívar decidiu nunca mais se casar. A causa da independência se tornaria, assim, sua principal paixão. Em 1805, Bolívar fez uma viagem a pé pela Itália junto com seu tutor Simón Rodríguez. Diante dele, no alto do monte Sacro, em Roma, Bolívar fez o juramento que abre este texto. No ano seguinte, voltou à sua terra natal. Estava pronto para a primeira grande luta de sua vida.

Na América do Sul, a administração espanhola tinha três vice-reinados: Nova Granada (que englobava as áreas do Equador e da Colômbia), Peru e Rio da Prata (território onde ficam hoje Argentina, Uruguai, parte da Bolívia e Paraguai). Além disso, havia duas capitanias-gerais: Venezuela e Chile. Três fatos influenciaram o surgimento dos ideais libertários nesses territórios: a independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e as conquistas napoleônicas na Europa. Em 1810, enquanto a decadente monarquia espanhola sucumbia ao poder de Napoleão, um grupo de conspiradores que ficaria conhecido como “patriotas” aproveitou para tomar o poder na Venezuela. O jovem Bolívar participou da ação.

A independência venezuelana foi declarada em 5 de julho de 1811, pelo comandante Francisco de Miranda. Ele havia lutado na independência americana e, depois, foi general no exército revolucionário francês. Mesmo com essas credenciais, Miranda não pôde impedir a retomada de Caracas pelos grupos que apoiavam a monarquia espanhola, os chamados “realistas”. Um armistício que devolvia o poder aos espanhóis foi assinado em 1812 – por causa desse acordo, Miranda acabaria sendo considerado traidor e preso pelo próprio Bolívar.

A Venezuela havia caído, mas Nova Granada continuava livre do domínio espanhol. Foi lá que Bolívar se estabeleceu, depois de se refugiar em Curaçao. Nomeado coronel do exército rebelde, ganhou fama ao libertar diversas províncias. Promovido a general, em 1813 ele partiu em direção a Caracas com apenas 800 homens, contra os 15 mil do exército realista. Cidade por cidade, Bolívar engrossou sua legião – foi nessa época que ganhou o apelido de Libertador. Em agosto do mesmo ano, ele proclamou a Segunda República da Venezuela. Mas a vitória ainda estava distante.

Em 1815, os espanhóis enviaram seu maior militar, Pablo Morillo, e um exército de 11 mil homens à Venezuela. “Nunca, em toda a história de dominação e conflitos na América, a Espanha havia mandado para o continente um exército mais numeroso e bem equipado do que esse”, afirma o historiador Carlos Landazuri Camacho, da Pontifícia Universidade Católica do Equador. Diante de tamanha força ofensiva, que logo recuperou as possessões espanholas, o Libertador foi obrigado a se refugiar no Caribe (nessa época, escreveu a “Carta da Jamaica”, em que apresentava os princípios de sua Revolução Sul-Americana).

Correntes rompidas

Com reforços conseguidos na América Central, o general retornou ao continente. Suas forças eram compostas principalmente por crioulos (descendentes de espanhóis nascidos na América), índios e escravos. Bolívar contou também com o apoio de soldados enviados pela Inglaterra. A ajuda não era gratuita. Os britânicos, que viviam a Revolução Industrial, precisavam de novos mercados para vender seus produtos – e isso esbarrava no monopólio comercial espanhol.

A Colômbia foi o primeiro país que as forças de Bolívar conseguiram libertar de uma vez por todas. Isso aconteceu na Batalha de Boyacá, em 7 de agosto de 1819. Isolado por Bolívar, o exército realista foi encarregado de tomar a ponte de Boyacá e seguir até Bogotá. Ao saber da movimentação, Bolívar deslocou suas tropas para o local. No confronto, 210 realistas foram mortos ou feridos e 1600 feitos prisioneiros. Bolívar ocupou a capital sem resistência no dia 8 e mandou colunas para libertar as demais províncias. Derrotado, o general Morillo retornou à Espanha em 1820.

Em 24 de junho de 1821, a terra de Bolívar presenciou, enfim, o confronto que a tornaria independente: a Batalha de Carabobo, travada numa região de savanas perto de Caracas. Para tomar a capital venezuelana, Bolívar esperava juntar 10 mil homens, mas apenas 6 400 conseguiram suportar a dura marcha até lá. Os espanhóis esperavam os rebeldes com fortificações, artilharia e 5 500 homens. Após examinar o posicionamento do inimigo, o Libertador surpreendeu: enviou uma divisão para atacar por um terreno aparentemente intransponível. A manobra confundiu os realistas, que, abordados por outros flancos, bateram em retirada. Em 28 de junho, Bolívar entrou triunfante em sua cidade natal, recebido com entusiasmo pelo povo, que o chamava de “Pai da Pátria”.

O Equador conseguiu sua liberdade graças à Batalha de Pichincha, em 24 de maio de 1822. Antes de partir para Carabobo, Bolívar havia mandado um exército de mil homens, liderado pelo jovem tenente Antonio José de Sucre, tomar a província de Guayaquil dos espanhóis e incorporá-la à nação livre batizada de Grande Colômbia – que também incluía a Venezuela. Vitorioso, Sucre partiu para fazer o mesmo em Quito. Na noite de 23 de maio de 1822, seu exército escalou o vulcão Pichincha, a 4 600 metros do nível do mar, e se posicionou ao norte da cidade. Na manhã seguinte, os espanhóis atacaram. Foram esmagados. Cerca de 1100 soldados e 290 oficiais realistas foram capturados e Quito foi ocupada pelas forças independentes.

No Peru, o general argentino José de San Martín já havia declarado a independência em 1821. Os espanhóis não desistiram de seu mais rico vice-reinado e ainda ocupavam a serra central e sul do território com um exército de 20 mil homens. Depois que os realistas retomaram a capital, Lima, em 5 de fevereiro de 1824, Bolívar foi chamado para expulsá-los. Com a vitória na Batalha de Junín, em 6 de agosto, a maior parte do Peru foi libertada. O comandante enviou Sucre, promovido a marechal, para eliminar os últimos focos de resistência, o que ele fez em 9 de dezembro, na Batalha de Ayacucho. Foi o último confronto entre patriotas e realistas. Os espanhóis capitularam diante da independência de sua última colônia na América do Sul.

Livres, os povos das regiões altiplanas do Peru se recusaram a fazer parte da nova nação. Sucre, então, sugeriu que as províncias do Alto Peru criassem um novo país. Assim fizeram. Em 6 de agosto de 1825, a região altiplana passou a se chamar “Bolívia”, em homenagem ao Libertador. A capital boliviana, por sua vez, foi batizada de “Sucre”.

Inimigos internos

Ao retornar vitorioso do campo de batalha, indo do Peru até Bogotá, o general sofreu ao testemunhar a miséria da população. “Bolívar se pergunta que sentido faz, logo após uma luta tão dura e heróica, os povos viverem em situações piores do que as que padeciam sob a dominação espanhola”, diz o historiador colombiano Juvenal Herrera Torres no livro Bolívar, el Hombre de América (inédito no Brasil). Ele se propôs, então, a criar uma sociedade mais igualitária nos países independentes. Promoveu a educação gratuita, reduziu os salários dos parlamentares e acabou com os privilégios concedidos à Igreja. Na política, entretanto, o Libertador não era tão democrático. “O igualitarismo de Bolívar era reduzido. Ele não concordava com o voto de negros, pobres e mulheres”, diz Isaac Bigio, analista internacional da London School of Economics, na Inglaterra.

Na economia, Bolívar foi radical. Fez uma extensa reforma agrária, que devolveu aos índios as terras das quais seus antepassados haviam sido expulsos. Nacionalizou as minas particulares e publicou decretos para proteger florestas e rios. Atitudes como essas renderam ao Libertador alguns novos apelidos (como “chefe da negrada e da indiada”) e muitos novos inimigos. “Os donos dos privilégios herdados da velha ordem colonial se uniram contra os projetos de Bolívar”, afirma Torres. Em 1828, diante da oposição, ele assumiu poderes ditatoriais sobre a Grande Colômbia. Empenhada em manchar sua imagem, a elite passou a acusá-lo de ser “inimigo da democracia”. O líder dessa oposição era um ex-aliado do general: o vice-presidente Francisco de Paula Santander, comandante de tropas durante a expulsão dos espanhóis.

Bolívar também foi capaz de criar inimigos fora da Colômbia, pois afrontava as potências estrangeiras. Ele propunha a criação da Confederação dos Países Latino-Americanos, que serviria para defender a região da exploração inglesa, francesa e, quem diria, americana. Os jovens Estados Unidos, que tinham servido como modelo, agora incomodavam Bolívar por causa de sua vocação intervencionista. Numa carta de 5 de agosto de 1829, ele escreveu: “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a empestear a América de misérias em nome da liberdade”. Os americanos fizeram de tudo para sabotar a Confederação, que acabou não saindo do papel.

Em vez de se unir, a antiga América Espanhola começou a se fragmentar. Em novembro de 1829, a Venezuela se separou da Grande Colômbia – o Equador seguiria o mesmo caminho no ano seguinte. O novo governo venezuelano decidiu banir Bolívar do país. Criar uma América do Sul soberana e progressista havia se mostrado bem mais difícil do que libertá-la. Em abril de 1830, vendo que sua presença no poder era uma ameaça à paz, Bolívar renunciou à presidência da Colômbia. Sucre, seu óbvio sucessor, acabou sendo assassinado em julho. O autor do tiro nunca foi pego.

Imerso em sua luta por liberdade e igualdade, Bolívar não se preocupara em acumular riquezas ou manter suas posses. Escrevendo a um amigo, em 20 de setembro de 1830, disse: “Estou velho, doente, cansado, desenganado, caluniado e mal pago. Não peço nenhuma recompensa além do repouso e da conservação da minha honra. Por desgraça, é isso o que eu não consigo”. Bolívar morreu pobre e no abandono, vítima de tuberculose, no dia 17 de dezembro daquele ano, em Santa Marta, Colômbia.

 

Rebeldes com causa

Sucre e San Martín também se destacaram entre os heróis da independência na América do Sul

O venezuelano Antonio José de Sucre foi o maior aliado de Bolívar – e um dos poucos que não o traíram no fim. Nascido em 1795, em Cumaná, na Venezuela, o rico Sucre estudava engenharia quando explodiu a revolta de Francisco de Miranda. Com apenas 15 anos, alistou-se no exército rebelde. Sua inteligência e devoção chamaram logo a atenção de Bolívar, que o transformou em seu homem de confiança – muitos o consideram um estrategista melhor que o próprio Libertador. Sucre foi o primeiro presidente do Peru e, depois, governou a Bolívia por dois anos. Para evitar que ele sucedesse Bolívar na Colômbia, seus inimigos reformaram a Constituição em 1830, limitando para 40 anos a idade mínima do presidente – Sucre tinha 35. No mesmo ano, foi assassinado numa cilada na serra de Berruecos, na Colômbia. Enquanto Bolívar e Sucre combatiam os espanhóis, o general José de San Martín fazia o mesmo, mais ao sul. Em 1812, ele libertou sua terra natal, que viria a se chamar Argentina, e, em 1818, o Chile. Em 26 de julho de 1822, San Martín e Bolívar se encontraram, a sós, em Guayaquil. Ambos tinham pontos de vista distintos. Bolívar incorporara o Equador à Grande Colômbia, mas San Martín o queria como parte do Peru. Depois do encontro, o argentino deixou para o Libertador a tarefa de concluir a expulsão dos espanhóis das terras peruanas. Bolívar, San Martín e Sucre serviram de inspiração para que, em 1960, a Confederação Sul-Americana de Futebol batizasse seu torneio anual entre times de Libertadores da América – o rol de homenageados inclui também Bernardo O’Higgins, que lutou pelo Chile, José Gervasio Artigas, libertador do Uruguai, e o nosso Dom Pedro I.

Como ressuscitar um mártir

Também militar e venezuelano, Hugo Chávez se inspira em Bolívar

Atualmente, a Bolívia não é a única nação que carrega a marca do Libertador em seu próprio nome. Em 1999, o presidente Hugo Chávez conseguiu aprovar uma Constituição que mudou a descrição oficial de seu país para República Bolivariana da Venezuela. Naquele ano, ele discursou dizendo que “Bolívar é o eixo central da ideologia venezuelana e também de muitos povos latino-americanos”. Chávez costuma chamar sua linha política de “bolivarianismo”, o que lhe traz bastante popularidade. “Na Venezuela, Bolívar é uma espécie de semideus”, diz Isaac Bigio, da London School of Economics. “Chávez é a favor de uma integração latino-americana e de um Estado mais intervencionista e protecionista, com o objetivo de amenizar as diferenças sociais.” Para o intelectual venezuelano Néstor Francia, autor do livro Antichavismo y Estupidez Ilustrada (inédito no Brasil), Chávez “ressuscitou” Bolívar – ou seja, acabou transformando uma figura histórica em um ser presente no cotidiano. Outro traço comum a Chávez e ao Libertador é o discurso contrário aos Estados Unidos. Recentemente, o presidente boliviano Evo Morales, muito próximo a Chávez, também fez algo que lembrou Bolívar: nacionalizou a exploração do gás natural (e assumiu o controle sobre instalações da Petrobras na Bolívia). Apesar desse ato, Bigio afirma que Morales não compartilha das convicções de seu colega venezuelano. “Enquanto Chávez tem origem no exército, Morales se formou na luta sindical. Ele se proclama mais socialista e indianista do que bolivariano.”

Saiba mais

Livro

Bolívar, el Hombre de América – Presencia y Camino, Juvenal Herrera Torres, Ediciones Convivencias, 2000 - Escrito por um historiador colombiano que dedicou grande parte de sua vida à pesquisa sobre Bolívar.

Site

www.gutenberg.org/etext/8928 - Tem, na íntegra, a ampla biografia Bolívar, The Liberator, do historiador mexicano Guillermo Sherwell.

 

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