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Aventuras na História

Testamento maçom

Washington esconde marcas da ordem que já reuniu um terço dos presidentes americanos e abriga hoje 3 milhões de pessoas no mundo. O novo livro de Dan Brown pretende desvendar os símbolos perdidos na capital

Raquel Krahenbuhl | 16/04/2010 03h22

O Artigo 1, seção 8 da Constituição Americana (1787), determina os poderes do Congresso e prevê a criação de um território de até 256 quilômetros quadrados para abrigar o governo dos Estados Unidos. O perímetro exato foi determinado pelo presidente George Washington (1732-1799), numa área pantanosa doada pelos estados de Maryland e Virgínia, na bifurcação do rio Potomac. O pai da pátria escolheu os arquitetos, supervisionou o planejamento e emprestou o nome à capital federal, no Distrito de Colúmbia. No dia 18 de setembro de 1793, tambores rufaram para que ele marchasse até o platô onde seria construído o mais importante edifício da nação. Numa cerimônia maçônica típica, ostentando um avental da fraternidade, o presidente instalou a pedra fundamental do Capitólio.

A cidade nasceu em 1790 sob forte influência maçom, assim como o país. "Muitos americanos viam os princípios da ordem como uma representação importante do que a nação deveria ser: cosmopolita, educada, religiosa sem ser sectária e aberta a todas as pessoas talentosas e de boa moral", diz o historiador Steven Bullock, do Instituto Politécnico Worcester. Quase um terço dos signatários da Constituição era maçom, como Benjamin Franklin (1706-1790). Escritor, soldado, diplomata e inventor, foi figura central na revolução americana. Honra, disciplina e respeito faziam parte do código de conduta que ele e os irmãos da ordem pretendiam disseminar, sob os ideais da liberdade, fraternidade e igualdade. Franklin é considerado figura-chave na formação dos valores e do caráter dos americanos. Depois de George Washington, 14 dos 44 presidentes dos Estados Unidos aderiram à maçonaria. Entre eles, Theodore Roosevelt e Harry Truman. Lyndon Johnson foi o ultimo de que se tem notícia.

Todos puderam encarar a arquitetura da capital com particular orgulho, capazes de entender os sinais espalhados pela fraternidade (veja nas págs. 37 e 38). O Símbolo Perdido, de Dan Brown, pretende revelar algumas dessas marcas. Na sequência de O Código Da Vinci, o simbologista Robert Langdon tenta desvendar o testamento maçônico da cidade para resgatar o amigo Peter Solomon, grão-mestre de um segmento da ordem, o Rito Escocês. O sequestrador é o vilão tatuado, Mal’akh, interessado numa espécie de tesouro mágico guardado pelos membros da fraternidade.

Entre ficção e realidade, a capital se transforma no cenário ideal para a busca de Langdon. Além dos líderes fundadores, arquitetos e engenheiros de Washington pertenciam à maçonaria, cuja origem remonta às corporações de ofício da Idade Média - a dos pedreiros (masons em inglês) estava entre as mais poderosas e inaugurou a fidelidade a rituais e simbologia próprios, mantidos sob sigilo juramentado. Benjamin Latrobe, um dos arquitetos do Capitólio e do interior da Casa Branca, era maçom, assim como James Hoban, autor da planta da morada presidencial. Primeiro a planejar a cidade, o engenheiro francês Pierre Charles L'Enfant, ao contrário do que sustenta Brown, não era membro da ordem, mas sim amigo de muitos. Ele foi escolhido e assessorado - de modo insistente, até - por George Washington. Antes da sede do Congresso, a Casa Branca e depois muitos edifícios públicos e monumentos da capital receberam as pedras fundamentais em rituais maçônicos. "Há uma mensagem religiosa implícita em quase todos os prédios, memoriais e artes de Washington que remete aos ideais originais dos Pais Fundadores", afirma James Wasserman em The Secrets of Masonic Washington ("Os segredos da Washington maçônica", inédito no Brasil). "A arquitetura clássica pretendia trazer perfeição e estabilidade aos sonhos modernos do novo país."

A irmandade mantém dois grandes "santuários" na região: a Casa do Templo, onde transcorrem capítulos decisivos de O Símbolo Perdido, e o Monumento Maçônico Nacional a George Washington, na vizinha Alexandria, no estado da Virgínia. O prédio, construído entre as décadas de 1920 e 30, foi inspirado no antigo farol da cidade egípcia e ainda abriga as reuniões da loja que o patriarca dirigiu. Erguida em 1910, a Casa do Templo remete ao mausoléu de Halicarnasso, tumba pré-cristã do rei Mausolo - vem daí o termo mausoléu. Há também várias estátuas de maçons na capital, como a de Albert Pike, na Judiciary Square, e a do presidente James Garfield, nos jardins do Capitólio.

Desenho da cidade
Existe muita controvérsia a respeito, mas historiadores acreditam que quando L’Enfant planejou a capital, em 1791, ele visualizou um triângulo na interligação do Capitólio, da Casa Branca e do monumento a Washington. O triângulo reflete princípios maçônicos básicos: "liberdade, igualdade e fraternidade" e "fé, esperança e caridade". "As estrelas do triângulo da constelação de Virgem correspondem aos pontos de L’Enfant", diz David Ovason em A Cidade Secreta da Maçonaria. Ele argumenta que a data e a hora de fundação dos três marcos foram determinadas de olho na configuração do céu, de modo a trazer a melhor influência astral possível. Virgem é o signo do perfeccionismo. Há quem acredite ainda que algumas das construções do National Mall (o parque delimitado entre o Capitólio e o monumento a Lincoln) representam um compasso e um esquadro. O obelisco, ao centro, estaria no lugar da letra G, referência a God (Deus), e a Geometry (Geometria). O compasso traduz a busca pela perfeição moral e a racionalidade científica. O esquadro refere-se ao poder do homem de transformar a natureza e à retidão que deve conduzi-lo. Bullock é cético a respeito dos símbolos no mapa: "Algumas pessoas veem sinais maçônicos, outras, de satanismo. É irônico. A planta original seguiu princípios de planejamento urbano certos, indo além do desenvolvimento casual das ruas e destacando o centro da cidade, a partir do Capitólio e da Casa Branca".

Na onda do livro de Brown, empresas de turismo já oferecem excursões por lugares com referências maçônicas. O arquivista da Casa do Templo, Arturo de Hoyos (abaixo), prevê o aumento do fluxo de pessoas interessadas em visitar a sede. "Isso vai ser bom, porque poderemos mostrar o que é realmente a maçonaria."


Pedra fundamental
As pistas da herança maçônica em Washington

Antes de Dan Brown, vários autores já se dedicaram a desvendar as marcas ocultas na arquitetura de Washington. Aqui há uma seleção das principais, situadas apenas em edificações públicas. Há muita polêmica sobre as referências, mas a maior controvérsia está nos desenhos delineados a partir da planta da cidade. Além do triângulo, que remete à "liberdade, igualdade e fraternidade" e à "fé, esperança e caridade", há o compasso e o esquadro, símbolos da racionalidade científica e da retidão moral com que os maçons devem encarar a vida. A letra G significa Deus.

1. Academia Nacional de Ciência
Quatro portas de bronze na entrada do prédio de 1924 têm três signos do zodíaco cada uma. A astrologia é uma das ciências caras aos maçons, embora, obviamente, não se restrinja à fraternidade. Do lado de fora, aos pés de uma estátua de Albert Einstein, há um mapa que revela a posição de mais de 2,7 mil estrelas e outros astros.

2. Banco central americano
Ramos de trigo, que evocam a fertilidade, estão gravados em várias partes do edifício (de 1937). Mas os detalhes mais curiosos são dois lustres no hall. Cercadas por um anel onde estão os signos do zodíaco, as peças têm a parte de baixo azul-escura vazada por estrelas. A área acima do anel é clara. Aqui, estariam representados o Sol no centro do universo e a dualidade entre bem e mal, espírito e corpo, luz e trevas; são temas comuns na simbologia e aparecem no piso das lojas maçons.

3. Casa branca
Foi o primeiro prédio da cidade a receber uma pedra fundamental, em 13 de outubro de 1792. A cargo da obra estava o maçom James Hoban. Em 1948, uma reforma determinada pelo presidente Harry Truman localizou pedras gravadas com símbolos da ordem. Há indícios de que algumas foram usadas na lareira da sala Vermeil, no térreo. Acima da porta de acesso entre as salas Leste e Verde está em relevo a mesma pirâmide inacabada da nota de 1 dólar. O "olho que tudo vê" representa Deus. O símbolo, já usado por egípcios e cristãos, foi adotado pelos maçons e ainda está no verso do Grande Selo dos EUA.

4. Monumento a washington
A pedra fundamental foi colocada no dia 4 de julho de 1848. No topo do obelisco de quase 170 metros, uma pirâmide feita de alumínio (diferente das pedras usadas no resto) dá a impressão de algo inacabado (lembrança do trabalho necessário para tornar o mundo melhor) e tem gravada a frase Laus Deo "Ore a Deus" . A pirâmide é um símbolo de ascensão. Dentro do monumento há 21 pedras dedicadas por maçons.

5. Capitólio
A sede do Congresso é repleta de sinais

É um dos edifícios mais ricos da capital em simbologia maçônica. Benjamin Latrobe, um dos mais importantes arquitetos encarregados, era maçom. Dois painéis de bronze instalados no Senado, de 1868 e 1893, referem-se à cerimônia da pedra fundamental. O mais novo, no corredor sudoeste da ala norte, anuncia a localização aproximada da "pedra angular" colocada em 18 de setembro de 1793. O painel de 1868 está na porta do Senado e representa várias cenas da vida de George Washington. Ele também é o protagonista do afresco A Apoteose de Washington (dir.) (1865), de Constantino Brumidi. Localizado na cúpula da Rotunda, a sala abaixo do domo, mostra o patriarca se transformando em deus, no meio de duas figuras que representam a Liberdade e a Vitória. Ao redor deles, formando um triângulo, estão 13 damas simbolizando as colônias originárias do país. Deuses da mitologia greco-romana aparecem oferecendo conhecimento de várias áreas aos Pais da Pátria. No topo do prédio está a Estátua da Liberdade, esculpida em bronze pelo maçom Thomas Crawford. Para a ordem, as estrelas de cinco pontas no capacete simbolizam a perfeição e os aspectos físico, mental, espiritual, intuitivo e emocional do homem.

 

Com a palavra, o maçom

Historiador prevê crescimento da fraternidade

Dos 3 milhões de maçons espalhados pelo mundo, a metade está nos Estados Unidos. Esse contingente voltou a crescer, diz o grão-arquivista e grão-historiador do Rito Escocês da Casa do Templo, Arturo de Hoyos, sem explicar exatamente por quê. Certo é que a publicidade oferecida pelo livro de Dan Brown foi muito bem recebida, embora Hoyos trate com desdém as digitais deixadas pela irmandade em Washington. "Essa é uma ideia popular entre pessoas interessadas em vender livros, mas não é baseada em fatos", diz, apesar de admitir a profusão de referências no Capitólio. As credenciais do historiador maçônico justificam conhecer sua versão da ordem.

Princípios
"A maçonaria oferece a homens bons, de todas as raças e religiões, a oportunidade de colocar de lado suas diferenças pessoais e trabalhar juntos pelo bem da humanidade."

O sigilo
"Os primeiros pedreiros, como ocorre em outros ofícios, tinham certos ‘segredos corporativos’ para resguardar sua subsistência. Eles eram protegidos por símbolos e sinais através dos quais os membros poderiam identificar uns aos outros. À medida que a ordem tornou-se uma fraternidade, os modos confidenciais de reconhecimento passaram a representar os laços de confiança entre os integrantes."

O livro de Dan Brown
"Eu gostei. Há uma mistura de verdade e ficção. A cerimônia de iniciação ao 33.º Grau do Rito Escocês descrito no livro (o pretendente toma vinho tinto de um crânio humano) não existe, é baseada nas celebrações de uma pseudo-organização maçônica dos anos 1800, a "Cerneausim". Há uma série de lendas recitadas nas nossas cerimônias. Uma delas conta a história da morte do arquiteto o templo do rei Salomão (o livro mostra a simulação de um assassinato como rito de entrada à maçonaria), mas a versão do autor não é a mesma usada em todo o país."


Saiba mais

LIVRO
The Secrets of Masonic Washington, James Wasserman, Destiny Books, 2008

Inédito em português, é um guia para a simbologia na arquitetura da capital.

A Cidade Secreta da Maçonaria, David Ovason, Planeta, 2007

O autor reforça a astrologia no planejamento da cidade.

 

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