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Aventuras na História

Tupi-guarani: Nossa língua brasileira

Além de dedicar a vida a catequizar os índios, o padre jesuíta José de Anchieta pesquisou e redigiu a primeira gramática de tupi-guarani, que até hoje influencia nosso jeito de falar

Bruno Vieira Feijó | 01/03/2008 00h00

Quando os colonizadores portugueses aportaram em solo brasileiro e bateram de frente com cinco milhões de índios, logo perceberam que a comunicação seria praticamente impossível. Os “selvagens”, predominantes sobretudo no litoral, na faixa que vai do Ceará até Cananéia, em São Paulo, falavam o tupinambá, um dialeto do tupi-guarani essencialmente sonoro. Monossilábicos, os índios pronunciavam coisas como “caa” (que significa mato, planta), “soo” (animal, bicho) e “y” (qualquer tipo de líquido) ou palavras que, para o europeu, significavam uma frase inteira, como “paranapiacaba” (lugar de onde se vê o mar).

Em uma carta datada de 22 de outubro de 1560, o padre Antônio Pires desabafa: “A mim me envergonha que 12 anos que cá ando, não sei nada [sobre o tupi]”. O pessimismo de seu superior, o padre Manoel da Nóbrega, também era evidente. Logo após desembarcar por aqui, declarou: “São eles [os índios] tão brutos que nem vocábulos têm”. A preocupação com a língua local girava em torno da dificuldade que seria europeizar o novo mundo conquistado sem se fazer compreender por seus moradores.

O sucesso da empreitada você aprendeu nas aulas de História: em menos de meio século, os jesuítas ganharam a confiança dos nativos e transmitiram os preceitos e comportamentos cristãos – para isso, usaram principalmente a música e a dança. Tornaram-se, assim, “a mais potente organização a serviço da Igreja Católica”, nas palavras do estudioso em Ciências da Comunicação Luiz Beltrão, no livro Folkcomunicação (2001). O êxito se deveu em grande parte ao esforço descomunal do padre José de Anchieta (1534-1597), que por décadas observou as festas e rituais de tupinambás e tamoios com olhos de antropólogo.

O missionário, na época com apenas 19 anos, fez parte da segunda leva de jesuítas a pisar em terras brasileiras, depois que o padre Manuel da Nóbrega pediu reforço de pessoal na atividade de evangelização da colônia. Anchieta chegou em 1553, a bordo do veleiro que também trazia de Portugal o segundo governador-geral do Brasil, Duarte da Costa, recém-nomeado pelo rei dom João III. Alguns meses depois de desembarcar na Bahia, Anchieta já era dos mais requisitados evangelizadores jesuítas. Recebeu, por exemplo, a incumbência de ajudar a fundar um colégio da Companhia de Jesus no planalto de Piratininga, embrião do que é hoje a cidade de São Paulo.

Além de se dedicar à alfabetização dos filhos dos europeus e dos índios, o missionário estudou com afinco a língua tupi e formulou a primeira gramática brasileira, a Artes de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, impressa em 1595 em Coimbra, Portugal. Escrita em apenas seis meses, a cartilha descreveu e sistematizou no papel uma língua “nova”, até então apenas oral, baseando-se no modelo estrutural do latim.

Foi o pontapé inicial dos estudos lingüísticos na América portuguesa e a segunda gramática de uma língua indígena (a primeira tinha sido a Arte de la Lengua Mexicana y Castellana, do frei Alonso de Molina, publicada no México em 1571). “Anchieta, graças a seu magnífico trabalho, realizou um dos princípios básicos da Companhia de Jesus, o de que todos os missionários deviam aprender a língua da terra onde exerciam seu ministério, para empregá-la em vez de sua própria língua”, declarou Carlos Drummond, professor de tupi da Universidade de São Paulo (USP), na apresentação da última edição da Gramática, publicada em 1990 como forma de catapultar o movimento pró-canonização do beato.

É uma versão fac-similada da obra original (incluindo a folha de rosto com o emblema da Companhia de Jesus), acrescida de uma atualização com a grafia atual, para facilitar a compreensão dos não-estudiosos em lingüística. No total, foram lançadas sete edições. Da primeira remessa, sabe-se da existência de ao menos três exemplares: um na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, outro na Biblioteca Vittorio Emanuele, de Roma, e o terceiro no Arquivo da Companhia de Jesus, também na capital italiana. É para esse arquivo que iam as cartas e os relatórios que os jesuítas eram obrigados a fazer, contando a situação das missões em todos os continentes onde atuavam.

Embora liberada oficialmente apenas 40 anos depois de sua produção (na época, havia censura régia em Portugal e qualquer obra tinha que primeiro ser autorizada pela realeza), a Gramática era consultada no Brasil desde 1556 – nesse período, os primeiros rascunhos da obra “serviam de texto para o ensino do tupi no colégio da Bahia”, conforme observa o lingüista Augusto Magne no prefácio da quinta edição, impressa em 1946. “Em 1560, o padre Luís de Grã tornava obrigatório o seu estudo”, Magne complementa.

Aprendizado difícil

Aprender o tupi, coisa que até aquele momento poucos tinham feito, valia para todos os que exerciam os serviços catequético-missionários, desde simples pregadores até reitores. Rui Pereira, educador cristão, registra o fato em uma carta da época: “O padre Grã ordenou em casa que houvesse uma hora de lição de língua brasílica”. Também em carta, o padre João de Melo revela: “Vai a coisa tão veras que há quem, dentro de um ano, se obriga a falar a língua”. Reconhecidamente, somente mais três jesuítas, além de José de Anchieta, eram fluentes em tupi: Pero Correia, António Rodrigues e João de Aspicuelta Navarro. Aspicuelta, aliás, foi o primeiro a aprender as pronúncias e até cogitou criar uma gramática. Mas esperava que lhe sobrasse tempo, já que naquele momento, em 1553, ele acompanhava como capelão as expedições dos invasores em busca de pedras preciosas pelo interior do país. O jesuíta morreria dois anos depois, sem conseguir iniciar o projeto.

Mesmo os mais inábeis com a língua fizeram esforço de aprender o tupi. Não fosse assim, o idioma teria se limitado aos índios e aos poucos catequistas que usavam a fluência como estratégia de aproximação. Graças a essa tentativa de aprendizado em massa, o tupi triunfou como a língua mais importante dos primeiros dois séculos da colônia. Às vezes, até mesmo os mestiços (filhos de mulheres índias dos portugueses) necessitavam de intérpretes durante as peregrinações e confissões, pois não falavam o português, que era restrito aos contatos formais com a Corte Real ou às lições que os meninos aprendiam na escola.

Quando o tupi foi suplantado e a língua portuguesa condecorada? Isso aconteceu graças a uma sucessão de fatores: a expulsão dos jesuítas do Brasil no século 18 pelo marquês de Pombal, a chegada da corte portuguesa no início do século 19 e o acelerado processo de urbanização pelo qual o país passou a partir desse momento. Ainda assim, o português ensinado aqui acabou sendo marcado para sempre pelo tupi. Até hoje, centenas de palavras que nós falamos no Brasil têm origem indígena.

Entre os estudiosos contemporâneos, a Gramática de Anchieta sofre elogios e críticas. A principal reclamação se relaciona ao fato de a cartilha ser organizada de forma considerada confusa, por causa da influência exagerada do latim em detrimento do português. Tal característica teria feito o autor usar categorias que não existem na língua indígena. “Anchieta obteve um resultado tão desorganizado quanto o do primeiro gramático português”, opina a professora de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP) Edith Pimentel Pinto, uma das maiores conhecedoras da produção literária do padre, na introdução da sétima edição da obra. Ela ressalva que Antonio de Nebrija, autor de uma gramática do espanhol em 1492, e o português Fernão de Oliveira, que escreveu a primeira cartilha do português, também seguiram o modelo latino para construir suas bases de sustentação. “Era o procedimento normal da época”, justifica a professora.

Edith acredita que, considerando-se a nova realidade lingüística que se impunha, Anchieta foi inovador por reunir as diversas variantes regionais do tupi, principalmente com relação à pronúncia. Por exemplo: os índios kamayurás, guaranis e os urubus falam seis vogais orais (i, e, y, a, u, o), cada uma com uma contraparte nasal. Por outro lado, a tribo guajajara usa sete vogais orais e não tem nasais.

Se existe algum mistério ainda não solucionado pelos historiadores, ele é saber se Anchieta chegou a ter em mãos sua Artes de Gramática formalmente editada. A primeira impressão saiu além-mar em 1597; o jesuíta morreu dois anos depois na aldeia de Reritiba, que ele próprio fundou e que hoje é a cidade de Anchieta, no interior do Espírito Santo. De uma coisa, porém, o “Apóstolo do Brasil”, como ele ficou conhecido, tinha certeza: além de descrever a língua dos nativos, o padre dedicou a vida tentando riscar do vocabulário indígena a palavra “tapuia”, que tem o sentido de “inimigo” e significa “aquele que não fala a nossa língua”.

 

Por que tupi-guarani?

A língua era falada em regiões importantes

Tupi-guarani é somente um termo genérico criado para englobar as diversas línguas indígenas faladas ao longo do tempo na América do Sul. O idioma ancestral desse grupo de línguas é o proto-tupi, surgido na região onde hoje fica o estado de Rondônia. Nas décadas seguintes, desenvolveram-se dezenas de famílias lingüísticas, divididas pela região onde eram faladas. O tupi-guarani era fundamental por ser um dos mais usados em algumas das regiões mais importantes para os colonizadores.As versões do tupi se concentravam mais no litoral brasileiro, entre o norte do país e o sul do atual estado de São Paulo. Mais ao sul, era falado o guarani, vivo até hoje principalmente no Paraguai, onde, ao lado do espanhol, se tornou a língua oficial em 1967. Do lado brasileiro, uma adaptação do tupinambá, ou tupi moderno, ainda é falada por tribos da região da floresta amazônica. Denominada nheengatu, foi a língua mais usada entre brancos e índios a partir do século 17, depois que os jesuítas e os bandeirantes a difundiram para padronizar a comunicação e eliminar os dialetos.

A obra

Artes de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, José de Anchieta, Edições Loyola, 1990. R$ 37

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