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Aventuras na História

Veja detalhes da vida de Michelangelo e de sua obra renascentista

Michelangelo é o símbolo da mudança no Renascimento, pela qual o antigo artesão da Idade Média se torna artista, com controle total sobre a obra

Texto Martha San Juan França | 05/12/2012 16h56

Você certamente já viu algumas imagens que fazem parte do teto da Capela Sistina. O dedo de Deus apontado para o dedo de Adão é uma das figuras mais reproduzidas, homenageadas e parodiadas da humanidade (lembra do poster do filme E.T.?). As cenas do Pecado Original e a Expulsão do Paraíso, o Dilúvio Universal e tantas outras, saíram da parede para os livros, como ilustração do Velho Testamento. Ver esses afrescos é um privilégio que, infelizmente, acontece sempre em meio a uma turba de turistas, com o pescoço esticado - e a ameaça de um torcicolo. Para quem não pode ir até a Itália, a mostra Esplendores do Vaticano, que vai até dezembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, apresenta uma reprodução da Capela Sistina.

Este ano, o mundo comemora os 500 anos da inauguração dos afrescos, em 1º de novembro de 1512, Dia de Todos os Santos, pelo papa Júlio 2º, após 4 anos de trabalho. "Nenhuma outra obra se compara a essa em excelência, nem hoje nem nunca", comentou o biógrafo Giorgio Vasari, contemporâneo de Michelangelo (1475-1564). "O teto é um farol para a nossa arte, de benefício inestimável para todos os pintores. Ele restabelece a luz num mundo que durante séculos esteve mergulhado em trevas."

Estudo: Anatomia como base para a arte

Vasari foi o primeiro a chamar sua época de Renascença. E o que renascia eram a arte e o pensamento da Antiguidade. Quando Michelangelo terminou a pintura do teto da capela, já fazia pelo menos um século que esse resgate havia se iniciado na Itália, ou melhor, nas cidades-estado do norte e centro da península.

Os precursores da Renascença foram poetas e prosadores como Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375), pintores como Giotto (1266-1336) e Masaccio (1401-1428). Entre os contemporâneos, Leonardo da Vinci (1452-1519) e Rafael (1483-1520). A chave para entender esse movimento está nas profundas transformações econômicas conduzidas naqueles séculos por uma nova classe social urbana em ascensão - a burguesia mercantil. A Itália tinha a imensa vantagem de estar situada no coração da maior área de comércio do mundo, a bacia mediterrânea. Cidades costeiras como Gênova e Veneza tiveram a oportunidade de enriquecer de maneira fantástica devido ao comércio com o Oriente.

Graças a esse contato e à valorização de suas atividades, seus mercadores e banqueiros adquiriram uma nova visão do mundo, baseada na valorização da realidade material, em contraste com a religiosidade profunda da Idade Média. As artes reproduziam essa mudança de pensamento. Nas pinturas típicas do século 13, por exemplo, as figuras humanas eram planas e irreais. O tamanho de uma figura não refletia a perspectiva, mas sua importância no quadro. Dois séculos depois, os artistas faziam desenhos ultrarrealistas, criando a ilusão de profundidade num quadro plano. Tão realistas que, para aprender a configuração correta de músculos e veias, era comum que artistas dissecassem cadáveres, aprendendo anatomia. A riqueza permitiu que a burguesia em ascensão investisse pesadamente nas artes. Como resultado, já no século 14, surgia uma nova e numerosa classe de assalariados, que trabalhavam juntos nas primeiras oficinas, ou separados, cada qual em sua casa, recebendo dos patrões matérias-primas e ferramentas e entregando-lhes o produto acabado mediante pagamento. Era uma mudança e tanto na vida europeia, com a lenta decadência das fechadas e hierarquizadas corporações de artesãos, as guildas, que monopolizavam a produção na Idade Média.

Mas, no começo, a mudança era limitada. O artista ainda não tinha completa autonomia e a melhor arte produzida no Renascimento era realizada sob encomenda dos mecenas, pertencentes às famílias ricas que exigiam sua execução conforme especificações e determinavam como deveria ser usada. Muitos eram mal pagos e, como qualquer outro provedor de serviços, deviam obedecer às instruções e entregar a mercadoria encomendada. Essa situação só veio a mudar no século 16, quando profissionais, como o próprio Michelangelo e Rafael, passaram a fazer parte de um grupo de elite, com liberdade para recusar encomendas e estipular as condições de trabalho.

Capela Sistina: A obra-prima de Michelangelo foi uma encomenda, mas o artista tomou as rédeas do projeto

Durante boa parte de sua vida, porém, Michelangelo enfrentou as mesmas vissicitudes dos outros artistas. Disso surgiram as famosas desavenças com o papa Júlio 2º, retratadas no filme Agonia e Êxtase (1965), que trata do projeto de pintura da Capela Sistina e leva o espectador ao mundo das cidades italianas do Renascimento. O enredo, baseado no livro do mesmo nome de Irving Stone, recorre a uma vasta pesquisa, usando as cartas de Michelangelo e a biografia do artista, escrita por Vasari em 1550 e ampliada em 1568, para ilustrar o embate entre dois temperamentos difíceis. De um lado, um artista atormentado, que se acreditava dotado de inspiração divina, e de outro um papa guerreiro e irascível. A biografia e as cartas mostram também o relacionamento difícil de Michelangelo com o pai, Ludovico, um magistrado apagado e de pouco tino para negócios, que tentou dissuadir o filho da ideia de tornar-se escultor, aos 13 anos.

Nascido em Caprese, na zona rural, em 6 de março de 1475, Michelangelo teve a sorte de ter se mudado com a família para Florença, a mais rica das cidades-estado italianas, dominada desde 1469 por Lorenzo de Medici, o Magnífico. Em 1489, Lorenzo descobriu o jovem aprendiz, cujo talento como escultor já começava a aparecer, e o convenceu a morar no palácio, onde havia fundado uma oficina para artistas. Pouco mais que um garoto, Michelangelo teve então a oportunidade de conviver com os filhos do poderoso Medici, estudando com os melhores professores particulares da Itália.

Foi no período de aprendizado no palácio que o artista realizou as duas primeiras obras que sobreviveram até os nossos dias. São os baixos-relevos Madona da Escada e Batalha dos Centauros. Nelas já se pode encontrar pistas do que Michelangelo posteriormente faria na Capela Sistina. Primeiro a preocupação com cada detalhe do corpo: veias, músculos, ossos, que sobressaem na variedade de posições.

As formas traduzem sensações como medo, preocupação, desespero e sofrimento, refletidas também nas imagens de santos e pecadores. "Michelangelo sai da imitação seletiva dos modelos antigos e cria uma nova interpretação da vida", diz Luciano Migliaccio, professor de História da Arte na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Essa ideia é muito repisada por Vasari e, segundo Migliaccio, instruída pelo próprio biografado. "Michelangelo queria construir a imagem de um gênio, sabia que disso dependia o seu status como artista", explica. "Ele quer deixar registrado que, mais do que seguir as regras antigas, possui uma marca própria, individual, uma espécie de liberdade que estaria na raiz da superação dos artistas anteriores."

Apesar disso, nesses primeiros tempos, o escultor não conseguia sobreviver de sua arte. Após a morte de Lorenzo, passou necessidade sem o protetor e com o caos que se seguiu em Florença. E para se manter ocupado e ganhar algum dinheiro, participou de um embuste. Fez uma estátua simulando uma antiguidade romana envelhecida artificialmente e enviou para Roma, onde, de mão em mão, acabou na posse de um cardeal. Grande colecionador, o religioso não engoliu a alegada antiguidade da obra, mas pagou o preço pedido em troca do nome do autor. Assim, Michelangelo foi convocado a Roma pela primeira vez.

Ali começou a trabalhar em um tema 100% cristão - a Pietà, que está na Basílica de São Pedro, no Vaticano, atrás de sólidos vidros que a protegem de atentados como o que quase a destruiu em 1972. A obra ainda hoje é considerada pelos especialistas a escultura em mármore mais refinada desde a queda de Roma, mil anos antes. Mostra uma Maria jovem demais para ser a mãe de um filho morto, aos 33 anos, como um sinal da beleza eterna da Virgem. Foi a consagração do autor.

Michelangelo voltou então para Florença, convocado para realizar a obra que simbolizaria a cidade. O tema escolhido foi o personagem bíblico Davi, retratado no exato momento em que decide combater Golias, em uma estátua com mais de 4 m de altura. Exposta ao ar livre para que todos pudessem admirá-la, hoje encontra-se na Galleria dell¿Accademia, enquanto a praça em frente exibe uma réplica do mesmo tamanho.

A fama recém-conquistada chegou aos ouvidos do novo papa, Júlio 2º, apelidado de Terrível. Michelangelo foi convocado em 1508 para se estabelecer em Roma. O pontífice tinha a intenção de recuperar para a cidade a glória da antiga capital do Império Romano e isso incluía ser enterrado em um mausoléu que ofuscasse o de todos os papas anteriores. Para isso, queria a participação do maior escultor do mundo, e Michelangelo começou a trabalhar dali a alguns meses. Duas esculturas do túmulo, Moisés e Os Escravos, só foram concluídas em 1513, após a morte do papa. Conta Vasari que, depois de terminar Moisés, Michelangelo teria batido no joelho da escultura e exclamado: Parla! ("Fala!").

No meio do trabalho do mausoléu, veio a contraordem: o papa decidiu que ele deveria pintar o teto da sua capela privada e sede do conclave, onde até hoje o Colégio de Cardeais reúne-se para eleger o papa. Durante toda a sua vida, Michelangelo definiu-se como um escultor, considerando a pintura uma arte menor. Mas não havia como dizer não ao papa. Assim, de 1508 a 1512, entregou-se à pintura. Durante toda a obra, Michelangelo dispensou a ajuda de assistentes, trabalhando de pé, com a cabeça virada para cima. Comia enquanto pintava. À noite desenhava os cartões com as figuras que seriam transferidas para o teto na manhã seguinte. Colocou tapumes que escondiam todo o trabalho, que nem mesmo o papa poderia acompanhar.

Em sua biografia, Vasari relata que, quando Júlio 2º, impaciente, o interrogava para saber quando a obra ficaria pronta, respondia: "Quando eu acabar!" Numa das vezes, o papa furioso bateu-lhe com o cajado nas costas e ameaçou jogá-lo dos andaimes. Em várias ocasiões, atrasou o pagamento. Mas valeu a pena. Na abóbada de cerca de 1 000 m2, a 20 m de altura, há aproximadamente 300 figuras, representando 7 episódios do Gênesis, além de profetas, sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e cenas da história do povo de Israel.

No total, Julio 2º pagou 3 mil ducados pelo trabalho. Feitas as contas, segundo o livro A Arte Secreta de Michelangelo, dos pesquisadores Gilson Barreto e Marcelo de Oliveira, em valores atuais corresponderia a cerca de 620 mil dólares. Significava que Michelangelo, a partir dali, era um homem rico. Mesmo assim, continuou a trabalhar até morrer, aos 89 anos, deixando obras fantásticas que marcaram para sempre a história da arte, entre elas O Juízo Final, encomenda do papa Clemente 7º, na parede frontal da Capela Sistina. Para ele, o mais importante era ser reconhecido pelo seu gênio artístico autônomo, ideia que viria a se firmar nos séculos posteriores.

Saiba mais

Livro


Michelangelo e o Teto do Papa, Ross King, Record, 2005

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