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Aventuras na História

A verdadeira história do Imperador Calígula

Esqueça a imagem do tirano pervertido e insano. O imperador era, sim, um hábil populista. Acontece que a sua história foi escrita pelos inimigos

Vinícius Cherobino | 25/07/2012 18h21

Psicopata, narcisista, assassino, depravado. Segundo Suetônio escreveu no século 2 em A Vida dos Doze Césares, era simplesmente um monstro. As comemorações pela indicação de Calígula como autoridade suprema teriam levado à degola 60 mil prisioneiros em cerca de três meses. Mas aquilo era só o começo - Roma nunca havia presenciado tamanha perdição. O imperador tratava abertamente a irmã Drusilla como esposa. Servia-se também das outras irmãs, Livilla e Agripina, e as prostituía. Costumava promover banquetes e orgias que culminavam com a tortura e execução de prisioneiros. Obrigava, inclusive, as esposas dos auxiliares mais próximos a participar das festas. "Quase não houve mulher, por menos ilustre que fosse, que ele não tivesse desrespeitado", diz Suetônio. Para o historiador romano Cássio Dio, "não havia homem mais libidinoso".

Perdulário, suas extravagâncias incluíam pérolas banhadas em vinagre como aperitivo. Gastava tanto dinheiro que a dada hora se viu obrigado a confiscar propriedades e a criar impostos sobre tudo, até a prostituição.

Atribuía a si mesmo qualidades divinas. Encomendou da Grécia uma estátua de Júpiter Olímpico, mandou cortar a cabeça e a substituiu por uma inspirada na sua própria. Num templo dedicado a ele, ostentava uma estátua de ouro em tamanho natural, vestida todos os dias com uma cópia de seus trajes.

Líder incompetente, humilhava com frequência seus pares, na indiscrição dos banquetes ou na política. Nomeou o cavalo Incitatus magistrado superior de Roma. O animal era mantido num luxuoso estábulo dentro do palácio imperial. E Calígula exigia que os senadores despachassem com o colega equino.

Para baratear os custos de manutenção das prisões abarrotadas, ordenou que detentos fossem trucidados para servir de ração aos demais. A todos esses "espetáculos", o imperador assistia com deleite e queria companhia - obrigava os familiares de condenados a testemunhar a tortura e a execução. Uma das modalidades preferidas era jogá-los às feras nas arenas de plateia lotada. A cada dez dias, elaborava uma lista de quem deveria ser morto.

Um crápula completo, certo? Errado. Calígula não é tão diferente dos demais imperadores romanos. E, até pelo pouco tempo que permaneceu no poder, quatro anos, conseguiu feitos importantes (leia à pág. 49). Mas a fama de maníaco atravessou os séculos intacta - que o diga o filme Calígula, de 1979 (leia à pág. 50). Mas por que sua imagem foi tão deturpada?



Biografia de tabloide

Um olhar atento sobre os autores das histórias originais a respeito do imperador ajuda a esclarecer as distorções. Como autoridade política, Calígula trabalhou sobretudo para concentrar poder, confrontando o Senado e a aristocracia romana. Os historiadores da época dependiam ou eram representantes do Senado. "É como tentar entender a história do século 21 e tudo o que sobrou foi o tabloide National Enquirer (uma espécie de Notícias Populares americano)", diz Anthony Barrett, professor de história romana na Universidade da Columbia Britânica. "É uma fonte importante, mas não pode ser tomada como totalmente verdadeira. Os fatos demandam análise crítica e é preciso tentar corroborá-los com evidências arqueológicas."

O filósofo Sêneca, o Jovem, fez um dos poucos relatos contemporâneos ao governo. Ele era rival da dinastia Júlio-Claudiana, à qual pertencia o imperador. Acabou exilado em 41. Suetônio, conhecido por abordar seus personagens sob o viés mais pitoresco possível, escreveu sete décadas após a morte do governante. Já Cássio Dio o fez quase 200 anos depois. Dos Anais de Tácito sobre Caligula, uma das narrativas mais confiáveis da Roma antiga, apenas algumas referências são encontradas hoje. "São textos literários, com pretensões retóricas, e não científicas", diz Paulo Sergio de Vasconcellos, professor de letras clássicas da Unicamp.

A revisão desses textos, confrontados com investigações arqueológicas e o estudo de moedas do período, está longe de reproduzir um maluco desvairado. Para entender quem era o jovem de 24 anos que assumiu o posto mais importante da Terra, é preciso conhecer sua trajetória.

Aos 7 anos, Roma comovida recebeu Calígula, que acompanhava o cortejo fúnebre do pai, o idolatrado herói militar Germânico. No ar, pairava a suspeita de que ele fora envenenado por ordem do imperador Tibério. A família de Germânico, que era sobrinho e filho adotivo do soberano, representava uma sombra perigosa ao seu poder. A mãe de Calígula, Agripina Maior, que trabalhava nos bastidores para garantir a ascensão do primogênito Nero Germânico (o Nero acusado de tocar fogo em Roma era sobrinho deste - e de Calígula) foi condenada por traição e exilada com o filho. Ambos morreram no exílio. O filho do meio, Drusus Germânico, preso, não sobreviveu aos maus-tratos na cadeia. As mortes na elite romana eram comuns à época. Não havia uma definição clara para a sucessão no poder, o que alimentava golpes, assassinatos e o terror de Estado.

Em 37, a capital aguarda, ansiosa, a confirmação do soberano escolhido para substituir Tibério. O imperador a quem Jesus Cristo chamava de César morrera aos 78 anos, recluso, na sua fortaleza na ilha de Capri. O autoexílio a 300 km de Roma só agravou o fim melancólico de um governo focado nas conquistas militares, severo nos gastos e contrário aos jogos nas arenas. A guarda pretoriana (um misto de segurança particular do imperador, agência de inteligência e polícia secreta) era a face mais temida do Estado, que executou por suspeita de traição inúmeros cidadãos nos anos anteriores. Era com esperança e certo alívio que a população receberia o novo regente.



Tibério tinha sido adotado por César Augusto, seu antecessor. Já Calígula vinha da linhagem direta dos Césares - sua mãe era neta do já legendário Otaviano (ou César Augusto, quando tornou-se o primeiro imperador, sobrinho-neto do ainda mais legendário Júlio César). Ao lado do pai general, cresceu entre as tropas, vestido como um soldado, o que lhe rendeu o apelido carinhoso de pequena bota - "calígula".

Caio Júlio César Germânico, o... Botinha, "experimentou em primeira mão a briga pelo poder. Tinha consciência da sua popularidade, mas foi a público para defender a sua família. Como resultado, conseguiu salvar a própria vida", afirma Sam Wilkinson em Calígula (sem edição em português). Por volta dos 18 anos, foi convocado com as irmãs para morar na fortaleza de Capri com Tibério. Lá, teve, de acordo com as fontes históricas, uma vida de prisioneiro. Foram seis anos na presença do algoz de sua família. O que aconteceu na fortaleza só pode ser inferido - são citados casos de devassidão e crueldade tão graves quanto os que seriam atribuídos ao futuro imperador. O que se sabe ao certo é que Calígula não teve treinamento formal em administração e economia, militar ou sobre como lidar com os senadores. Mas soube agradar o soberano. Antes de morrer, em 37, Tibério indicou Gemelo, seu jovem neto, e Calígula à sucessão. Ele tinha 25 anos e mostrou-se um político sagaz. Em conluio com a guarda pretoriana chefiada por Macro, conseguiu assumir o poder sozinho: anulou o testamento de Tibério sob o argumento de que ele estava senil.

Seguindo o que no século 20 seria conhecido como um ditado mafioso - "mantenha os seus amigos perto e os inimigos mais ainda" -, nomeou Gemelo como seu herdeiro e lhe deu o título de princeps iuventutis (o primeiro entre os jovens). Em uma só tacada, calou as vozes dissonantes e resolveu o problema com um cargo politicamente nulo. Diferentemente de seus antecessores, logo obteve o poder absoluto. Seu governo começou de forma muito promissora, mas, após sete meses no poder, o terceiro imperador de Roma (e o mais infame) sofreu uma doença séria, que culminou com as narrativas de loucura e perdição. Os sintomas incluem convulsões, fadiga e alterações de humor. Fala-se em epilepsia, sífilis, intoxicação por chumbo (oriundo do tratamento das peles onde era guardado o vinho para obter o paladar preferido do imperador). Para historiadores modernos, há varias confusões de datas e informações contraditórias sobre Calígula. As evidências arqueológicas oferecem outras perspectivas.

Mentiras sinceras

Está claro que o imperador se relacionava com a sua família de maneira diferente que os outros fizeram. As irmãs eram presença constante ao seu lado nos eventos públicos e foram imortalizadas em moedas. Drusilla (a irmã amada, ponto central da peça Calígula, de Albert Camus), foi endeusada depois de morta. Todas essas ações eram inéditas para a época. Mas nada disso significa que havia uma orgia em família. "O incesto foi uma criação posterior da historiografia", diz Fábio Faversani, historiador da Universidade Federal de Ouro Preto. Há ainda uma explicação política. Como não tinha grandes conquistas militares, Calígula precisava se provar merecedor do posto pela linhagem que remontava a Augusto. Ao homenagear os familiares, justificava a própria posição. As sutilezas da política também estariam por trás da nomeação de Incitatus. "Houve uma ameaça. Quando Calígula foi perguntado sobre quem seria o cônsul no próximo ano, ele respondeu que preferia o seu cavalo aos candidatos disponíveis. É uma resposta de alguém sarcástico (não louco), tirada do contexto", afirma Barrett.

Ele foi acusado de levar Roma à falência. Mas realizou grandes construções. Concluiu projetos iniciados por Tibério e iniciou outros (leia à pág. 49). O seu feito mais extravagante, que parecia um exagero das fontes clássicas, acabou comprovado na década de 1930, quando foram achados no lago de Nemi os restos de dois barcos gigantescos. O maior, com quilha de 70 m, era um palácio flutuante. Aí sim um sinal de megalomania.

Na área militar, ele não teve nada de brilhante, mas sua atuação foi positiva. Iniciou a conquista da Britânia, atual Inglaterra. Antes, indicam as evidências arqueológicas, criou uma estrutura de fortes e armazéns, preparando-se para a conquista do território, efetivada por seu sucessor, Cláudio.

Mas a característica mais marcante de Calígula está na sua adoração pelo entretenimento. Em contraste com a severidade de Tibério, abraçou as aparições públicas e a realização de festivais, que incluíam combates de gladiadores e com feras selvagens, corridas de cavalos e peças teatrais. Mandou reduzir as armaduras dos lutadores, o que o fez ser ainda mais adorado pela plebe, especialmente nas ocasiões em que distribuía comida e dinheiro (leia à pág. 47).

Essa gastança poderia ter destruído as finanças públicas e iniciado uma espiral inflacionária. E Cláudio teria pago o pato. Mas não, não há registro de problemas financeiros no governo dele. Isso não quer dizer que a economia foi perfeita sob Calígula. Serve, porém, como indício de que ele talvez não fosse o perdulário inconsequente que os historiadores clássicos pintaram.

Cansados dos arroubos e das tendências absolutistas do imperador, senadores e membros da guarda pretoriana conspiraram para matá-lo. Aos 29 anos, Calígula tombou a golpes de adaga - segundo uma versão foram 30, mais do que levou Júlio César. A sua mulher Cêsonia (a quarta que ele desposou) e a filha Júlia Drusilla, de 2 anos, também foram assassinadas. Ao saber que o imperador estava morto, a população de Roma demandou justiça. O seu tio Cláudio, laureado imperador, atuou para acalmar os ânimos da massa e iniciou uma campanha contra a reputação do morto. "Cláudio precisava condenar o assassinato de um imperador, senão estaria em risco, mas precisava justificar a morte de Calígula. Ao difamá-lo, ele afirma que o bom sistema imperial foi pervertido por um tirano", diz Barrett. E a campanha se seguiu.
Um louco varrido seria capaz de demonstrar sagacidade política (para chegar ao poder... Mantê-lo foram outros quinhentos) e ter o apreço da população? Cabe refletir se ele não foi basicamente um populista, um jovem esperto e intolerante, arrogante e inseguro, marcado pelos jogos de poder que exterminaram sua família. Não é difícil supor que ele tenha reproduzido essa violência contra quem discordava de si. E modos extravagantes, como ele provavelmente tinha, cada imperador romano teve os seus. Definir sua figura por estereótipos, como os fatos demonstram, está longe de apresentar uma noção satisfatória de quem foi Calígula.

Mais sangue na arena


Ruim para o gladiador, bom para o "torcedor"

Calígula mandou remover o escudo e a armadura de braço dos gladiadores. Mas não de todos os gladiadores. A norma valia para um só lutador a cada confronto. A plateia aprovou a carnificina, e a popularidade do imperador bombou. Mas nem tudo era sangue no pão ecirco de Calígula. Ele também financiou artistas e peças de teatro.

Calígula, o filme

Ele inspirou uma pornochanchada cabeça com atores de primeira linha


Calígula virou filme em 1979 com Malcolm McDowell (o mesmo de Laranja Mecânica, de 1977) como o personagem principal, Peter O’Toole como Tibério e Helen Mirren como Cesônia. O longa-metragem foi produzido por Bob Guccione (criador da revista Penthouse) que investiu 17,5 milhões de dólares.

A obra tem roteiro original de Gore Vidal, mas se revelou um filme de apelo pornográfico com atores em ascenção (ou já consolidados, como O’Toole) usando um pano de fundo histórico. Vidal discordou das mudanças radicais na versão final e repudiou o resultado. A polêmica não foi só interna. Em vários países, o longa foi censurado, Brasil incluído.
Pouco antes do lançamento, Guccione temeu prejuízo e acrescentou cenas de sexo explícito e de violência para apimentar a obra. Se não fez jus aos fatos históricos, o produtor não se importou muito. O filme faturou, apenas nos Estados Unidos, 23,4 milhões de dólares (70 milhões em valores atuais) no ano de estreia.


Saiba mais

LIVROS


• Calígula, Sam Wilkinson, Routledge, 2005.

Traz excelente revisão das fontes históricas.

• Caligula: The Corruption of Power, Anthony Barrett, Yale University Press, 1990.

Analisa os relatos sobre ele à luz da arqueologia. Em inglês.

• A Vida dos Doze Césares, Suetônio, Prestígio Editorial, 2002.
Escrito no século 2, é um dos responsáveis pela má fama do imperador.

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