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Entenda as eleições na Argentina e na Venezuela

*Texto: Fabio Sasaki

Dois dos principais países da América do Sul foram às urnas nas últimas semanas em pleitos que sinalizam importantes mudanças nos cenários nacionais e regional.

Em 22 de novembro, a Argentina elegeu o empresário Mauricio Macri como novo presidente, encerrando um período de 12 anos sob o comando dos Kirchner (primeiro Néstor e depois sua esposa Cristina).

Já a Venezuela realizou eleições legislativas neste último domingo (6/12) que tiveram expressiva vitória da oposição. O resultado representa o primeiro revés eleitoral dos chavistas – grupo político-ideológico ligado ao ex-presidente Hugo Chávez, morto em 2013.

Mas qual é o cenário político nesses países?

Mauricio Macri comemora o resultado das eleições na Argentina (foto: Mario Tama/Getty Images)

Mauricio Macri comemora o resultado das eleições na Argentina (foto: Mario Tama/Getty Images)

Argentina: Néstor Kirchner foi eleito em 2003 em meio à mais grave crise econômica da história do país. Em seus quatro anos de mandato, Néstor adotou políticas sociais e conseguiu reorganizar as contas públicas, recolocando o país no caminho de crescimento. Com a popularidade em alta, Néstor não teve dificuldades para emplacar a candidatura de sua mulher, Cristina, eleita presidente em 2007.

Em seu governo, Cristina entrou em choque com o Clarín, principal conglomerado de imprensa argentino, o que contribuiu para o desgaste de sua imagem. A partir do segundo mandato, iniciado após obter a reeleição em 2011, a economia voltou a se deteriorar, com o aumento da inflação e do endividamento. O país também enfrentou uma onda de greves que foi minando a popularidade de Cristina.

O descontentamento da população argentina com os rumos atuais da economia ficou claro com o resultado das urnas, que deu a vitória ao oposicionista Mauricio Macri. Empresário bem-sucedido, Macri indica que adotará uma política econômica mais liberal, com maior abertura ao mercado e menos intervenções do Estado.

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O presidente da Venezuela, Nocilas Maduro, fala em evento da ONU (Foto: Spencer Platt/Getty Images)

Venezuela: Após décadas de golpes e governos corruptos, que privilegiaram as elites e acentuaram as desigualdades sociais, o país elegeu Hugo Chávez em 1998. Em seu projeto de governo, batizado como “socialismo do século XXI”, Chávez ampliou o controle estatal sobre o petróleo, lançou programas de reforma agrária e habitacional e conduziu uma diplomacia hostil aos Estados Unidos. Em seu governo, a Venezuela reduziu a pobreza e a desigualdade. No entanto, Chávez foi acusado de centralizar o poder e sufocar a oposição.

Após a morte de Chávez, em 2013, Nicolas Maduro foi eleito presidente com um projeto de dar continuidade ao chavismo. Mas em seu governo a situação econômica piorou. A inflação disparou, e o país vive uma grave crise de desabastecimento. Para piorar, com a queda no preço do petróleo, principal item de exportação da Venezuela, o governo viu suas receitas minguarem. A polarização política se radicalizou, com a direita apoiada por setores da classe média exercendo forte pressão sobre o governo.

O agravamento desse cenário em 2015 desgastou o governo, que perdeu a maioria na Assembleia para a Mesa da Unidade Democrática (MUD) nas eleições de 6 de dezembro. Com isso, a oposição agora tem poder para mudar leis, aprovar reformas constitucionais e até convocar uma Assembleia Constituinte.

E quais os impactos dessas eleições no âmbito regional?

Até os anos 1980, muitos países sul-americanos foram governados por ditaduras militares, como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai. A transição para a democracia nos anos seguintes foi marcada pela adoção de políticas liberalizantes, sob influência dos Estados Unidos e de organizações como o Fundo Monetário Internacional. Medidas como privatizações e abertura dos mercados nacionais a empresas multinacionais atraíram investidores, mas essas ações não se traduziram em aumento do bem-estar e da riqueza. Nesse período, a desigualdade social na região, que já é uma das maiores do mundo, se acentuou.

A eleição de Hugo Chávez, na Venezuela, em 1998, acabou influenciando uma onda de esquerda na região, sinalizando o esgotamento deste receituário neoliberal. Nos anos seguintes, as eleições na América do Sul alteraram o panorama regional até a formação do seguinte quadro:

– Bloco bolivariano: sob influência da Venezuela, países como Bolívia e Equador elegeram governantes que conduziram políticas econômicas alinhadas com o chavismo.

– Esquerda moderada: outros países também elegeram governos de esquerda, ainda que alinhados com as estruturas do mercado mundial. Este bloco inclui Brasil, Uruguai, Peru e Chile.

– Bloco conservador: composto por Colômbia e Paraguai – com a posse de Macri, a Argentina deve fazer a transição para este grupo.

Agora a discussão é, se com a vitória da direita nas eleições da Argentina e da Venezuela, a América do Sul será influenciada por uma nova onda conservadora. Mas, apesar de o resultado das urnas refletir um desgaste dos governos de esquerda nesses dois países, ainda é cedo para generalizar.

Se por um lado a Venezuela está em uma crise profunda, Bolívia e Equador mostram bons resultados econômicos, o que credenciam os atuais governos a se sustentarem no poder. O Uruguai elegeu no ano passado seu terceiro governo consecutivo de esquerda e mantém certa estabilidade econômica. Já o Brasil, há 13 anos sob o governo do PT, está em recessão e vive uma grave crise política, com a presidente Dilma Rousseff sob forte pressão de impeachment.

Por isso, é prematuro apontar que se trata de uma tendência regional, principalmente porque os países que integram esses blocos de esquerda não apresentam um desempenho econômico homogêneo. Mas fica evidente a que forma como cada país irá conduzir suas questões econômicas domésticas pode gerar um novo movimento de peças no tabuleiro político sul-americano.

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