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Balzac e “A mulher de 30 anos”

Por Angélica Moura

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Que balzaquiana é sinônimo de mulher de 30 anos, ninguém discute e nunca discutiu, nem nos tempos do francês Honoré de Balzac (1799-1850). O que é discutível de lá para cá são os adjetivos que compõem o estigma – ou o elogio – que o termo representa. De todo o legado do escritor, nenhum foi tão perene quanto a expressão “balzaquiana”, que nunca envelheceu, ao contrário das mulheres de 30, que inevitavelmente tiveram ou terão que se despedir do apelido literário para serem chamadas de quarentonas, cinquentonas ou coroas.

Balzac duplicou a idade do amor. Até então, na ficção ou na vida real, o amor era privilégio das jovens. “Balzac valorizou a mulher mais velha, expressando sua vitalidade e mostrando-a como sedutora”, explica Maria Cecília Queiroz de Moraes Pinto, professora de Literatura Francesa da USP.

A Mulher de 30 Anos é um romance escrito entre 1828 e 1844, época em que a sociedade francesa assistia ao período de Restauração, após a queda de Napoleão Bonaparte, em 1815, e início das mudanças sociais provocadas pela Revolução Francesa. Os valores burgueses aparecem na literatura. Os personagens Carlos de Vandenesse e Julia D’Aiglemont apaixonam-se perdidamente. Ambos têm 30 anos, mas Carlos é um “homem jovem” e Julia uma mulher “mais velha”. Ela é tão submissa que seu recato e resignação encantam o rapaz. Ele tece uma vasta lista de comparações entre jovens e maduras e, em todos os quesitos, a balzaquiana é superior.

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Vida longa à Rainha do lar

Hoje parece estranho dizer que uma mulher de 30 anos está velha. Mas, no século 19, não haveria nada de anormal em um comentário assim.A expectativa de vida da francesa era de 40 anos. No Brasil, a balzaquiana estaria literalmente com o pé na cova, pois vivia somente até os 27 anos. Fatores como a descoberta da penicilina, a cura da tuberculose e avanços da ciência dobraram a longevidade feminina. Hoje mulheres de todo o mundo vivem, em média, até os 75 anos de idade.

Amor e castidade

Na aristocracia, fidelidade e recato não eram qualidades indispensáveis a uma moça de família. Os casamentos eram por conveniência e ter amantes era normal. A sociedade burguesa instaurou a união por amor. Castidade e submissão passam a ser o maior tesouro das mulheres. Elas protagonizam romances, como explica Sandra Vasconcelos, professora de Literatura Inglesa da USP, mas “confinadas à esfera privada. Na literatura e na ficção, elas eram modestas, humildes e delicadas”.

Do espartilho à plástica

No século 19, o espartilho ainda era soberano. A moda era usar vestidos colados na cintura que exaltassem os quadris, o busto avantajado, no chamado perfil em “S”. O embelezamento se prestava mais a dignificar e elevar o status da mulher que a fazer com que ela se sentisse efetivamente mais bonita. Hoje, a busca da beleza independe do status e está intimamente ligada a brigar contra o tempo. Silicone e botox são as atuais fontes da juventude.

 

Matéria originalmente publicada no site de Aventuras na História em agosto de 2009.

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