Guia do Estudante

Nelson Rodrigues solta o verbo

Ana Prado | 23/08/2012

O escritor e dramaturgo, nascido no Recife e carioca de alma, solta a língua ferina que fez a sua fama de maldito nos anos 60 e 70. Nelson não fugiu de nenhuma pergunta. E o que eu mais gostei foi de ver como todas as suas respostas soavam igualzinho às frases que eu já tinha lido nos seus contos, romances, peças, memórias e crônicas.

Euclides da Cunha: É verdade mesmo que toda mulher gosta de apanhar?

Nelson – Todas, não – só as normais. O homem é que não gosta de bater.

Euclides da Cunha:  Bater resolve?

Nelson – O pior na bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa nem abjeção, nada.

Euclides da Cunha: Por que você era obcecado pela fidelidade conjugal?

Nelson – Porque em todo casal há sempre um infiel. É preciso trair para não ser traído.

Euclides da Cunha:  Mas isso é batata?

Nelson – Não existe família sem adúltera.

Euclides da Cunha: Existe o amigo fiel?

Nelson – O amigo nunca é fiel. Só o inimigo não trai nunca. O inimigo vai cuspir na cova da gente.

Euclides da Cunha: O que é importante no casamento?

Nelson – O sexo é o de menos. O que vale é a humildade capaz de beijar os pés e o chão.

Euclides da Cunha:  Como você definiria o ato sexual?

Nelson – O ato sexual é uma mijada.

Euclides da Cunha:  Mesmo no casamento?

Nelson – O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe dos seus próprios filhos.

Euclides da Cunha:  Entre o desquite e a traição, o que é preferível?

Nelson – A traição, mil vezes a traição.

Euclides da Cunha:  Mas por que não acabar com um casamento que não tem nada a ver?

Nelson – Porque o casamento já é indissolúvel de véspera.

Euclides da Cunha:  O que é preciso para salvar um casamento?

Nelson – O cinismo. [Risos] É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.

Euclides da Cunha:  Quem pensa mais em sexo, o homem ou a mulher?

Nelson – A mulher é mais pornográfica que o homem.

Euclides da Cunha:  Como assim?

Nelson – Toda mulher que se ruboriza facilmente é sensual.

Euclides da Cunha: Mas isso é uma loucura!

Nelson – A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.

Euclides da Cunha:  Então o negócio é a fidelidade feroz?

Nelson – Não. Deus me livre da virtude ressentida, da fiel sem amor.

Euclides da Cunha: Você acha mesmo?

Nelson – Acho. Certas mulheres precisam trair para não apodrecer.

Euclides da Cunha:  Quer dizer que não há saída?

Nelson – Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.

Euclides da Cunha:  As mulheres reagem de acordo com a classe social a que pertencem?

Nelson – Não. Qualquer mulher é suburbana. A grã-fina mais besta é chorona como uma moradora do Encantado ou de Del Castilho.

Euclides da Cunha:  Existe a mulher fria?

Nelson – Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

Euclides da Cunha:  Há muitas diferenças entre o Brasil de hoje e o de vinte anos atrás?

Nelson – O desenvolvimento trouxe um medonho estímulo erótico. Nunca o brasileiro foi tão obsceno. Vivemos uma fase ginecológica.

Euclides da Cunha:  Por falar nisso, em todas as suas histórias havia um ginecologista. Por que essa fixação?

Nelson – Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, de luva de borracha e um passarinho em cada ombro.

Euclides da Cunha:  Qual é a idade ideal da mulher?

Nelson – Todas as mulheres deviam ter quatorze anos.

Euclides da Cunha:  E a do homem?

Nelson – As paixões mais sérias do homem são dos seis aos dez anos.

Euclides da Cunha: Então essa é a idade ideal???

Nelson – Não, porque, antes dos trinta anos, o homem não sabe nem como se diz bom dia a uma mulher. E, depois dos cinqüenta, o sujeito só tem paixões de ópera, de Vicente Celestino, de primeira página de O Dia e de A Luta Democrática.

Euclides da Cunha:  Por que você era contra o biquíni?

Nelson – Porque o biquíni é uma nudez pior que a nudez.

Euclides da Cunha:  E o decote? Não era uma coisa meio fora de moda preocupar-se com isso?

Nelson – Um vago decote pode comprometer ao infinito. Só o ser amado tem o direito de olhar um simples decote.

Euclides da Cunha:  Mangas cavadas também?

Nelson – A exposição de axilas, fora do local e do momento próprios, é uma degradação.

Euclides da Cunha:  Bem, pelo visto, isso deixou de ser um problema, não? Está todo mundo nu por aí.

Nelson – [Suspirando] – A nudez feminina perdeu todo o suspense e todo o mistério. Vivemos a mais despida das épocas.

Euclides da Cunha:  O sexo impõe alguma objeção física?

Nelson – Aos magros, sim. Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro. Além disso, todo canalha é magro. Já os gordos são de uma mansidão bovina.

Euclides da Cunha:  E para as mulheres?

Nelson – A única nudez realmente comprometedora é a da mulher sem quadris.

Euclides da Cunha:  Existe o amor eterno?

Nelson – Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor.

Euclides da Cunha: E isso tem valor para os dois?

Nelson – Sim. O amor não deixa sobreviventes.

Euclides da Cunha:  Então, o amor é uma impossibilidade?

Nelson – Absolutamente. É o amor que impede o homem de trotar pela avenida Presidente Vargas, montado por um Dragão da Independência. Um Dragão de penacho.

Euclides da Cunha:  O dinheiro compra o amor?

Nelson – O dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.

Euclides da Cunha:  E o pecado?

Nelson – O pecado é anterior à memória. E já existia quarenta mil anos antes do Paraíso.

Euclides da Cunha:  E o ódio, existe?

Nelson – A pior forma de ódio é o ex-amor. Ninguém perdoa aquele ou aquela que deixou de ser amado.

Euclides da Cunha:  Para finalizar: como você explica a sua famosa frase “Toda unanimidade é burra?”

Nelson – Porque quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.

* Texto original de Ruy Castro, publicado na revista Aventuras na História de maio de 2005

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Categoria: Literatura

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Eva Perón: a ex-primeira-dama argentina faz discurso mesmo em uma simples conversa

Ana Prado | 26/07/2012


Sempre discursando

No processo de aprovação da lei para permitir o voto feminino, Eva Perón, já casada com o presidente argentino Juan Perón, virou porta-voz das mulheres. Mas o apoio foi malvisto pelas feministas. Quando a lei foi aprovada, o ato foi entendido como gesto de manipulação peronista. Pioneira entre as celebridades com atuação política, Evita atraiu a reprovação de quem achava um escândalo uma estrela do rádio ser a primeira-dama. Mas sua empatia com o povo era inigualável. Prova disso foi o famoso discurso do Cabildo Aberto, em agosto de 1951, quando 2 milhões de argentinos pediram a candidatura de Evita à vice-presidência. Pouco depois, em 26 de julho de 1952, Eva não resistiu a um câncer de útero. Seu funeral parou o país. E o mito estava apenas começando.

- LEIA TAMBÉM: Museu Evita: Acervo mostra a trajetória de Eva Perón

História – Como foi sua infância? Não é o tipo de profissão com que a gente sonha, ser primeira-dama.

Evita – Compañera! Não, eu não sonhava em ser primeira-dama! Muito menos em virar “Líder Espiritual da Nação Argentina”, como me nomearam, para minha mais profunda honra, poucos meses antes da minha partida desse mundo aí. Eu apenas sonhava com uma nação justa! Uma nação onde prevaleceria a vontade daqueles que trabalham! Uma nação que nada teria a temer…

Desculpe interromper, mas não estamos em um comício. É só uma entrevista.

Desculpe, niña! É a força do hábito… Mas eu não pensava em ser primeira-dama. Quando criança, não saía do cinema da minha pequena cidade, Junín. Me encantava a carreira artística! Por isso, aos 16 anos, apesar do desgosto de minha mãe, fui tentar a sorte em Buenos Aires.

A senhora era chegada num palanque, não? Quando descobriu a vocação?

Eu recitava poesia na escola. Como contei em minha autobiografia, A Razão da Minha Vida, “parecia que eu queria dizer algo aos outros, algo que eu sentia no fundo do meu coração”.


Eva Perón aos 15 anos

Já uma coisa que a senhora nunca quis dizer aos outros é sobre seu pai, que não se casou com sua mãe porque já tinha esposa em outra cidade.

Isso era bem comum naqueles tempos. Mas é claro que essa história me desagradava. Tanto que, ao me casar com Perón, arranjei um jeitinho de alterar minha certidão de nascimento. Como se já não bastasse tudo o que eu tinha que aturar, teria de andar com o rótulo de bastarda? Eu não daria esse gostinho àqueles que jamais me entenderam – e que jamais me entenderão!

A senhora está fazendo de novo…

Opa. Perdón!

Mas se esse era o motivo para alterar a certidão de nascimento, por que diminuiu três anos de sua idade?

E eu sou besta? Que mulher não quer parecer (ou melhor, ser) mais jovem? Aproveitei a ocasião, querida. Daí que pensaram que eu havia morrido com 30 anos. Mas, cá entre nós, eu tinha 33.

Como conheceu Juan Perón?

Em 1944, quando um terremoto atingiu a cidade de San Juan, Perón, que era chefe da Secretaria de Trabalho, convocou os artistas para levantarem fundos e ajudar os sobreviventes. Eu estava entre a escalação. No último dia, tivemos um baile de gala com as autoridades. Foi lá que o encontrei.

Quando viva, a senhora fez uma grande viagem pela Europa. Mas também viajou à beça depois de morrer, certo?

É verdade, chica. Perón saiu da Argentina às pressas com o golpe de 1955. Meu corpo, embalsamado, ficou aos cuidados dos militares que destituíram meu marido. Me esconderam em um túmulo na cidade de Milão, na Itália, sob o nome de María Maggi. Isso só foi descoberto em 1971. De lá, fui para a Espanha, onde Perón estava exilado. E só me levaram de volta à Argentina em 1975. Olha, foi cansativo…

O que achou de ser interpretada no cinema pela cantora Madonna?

Sou fã da Madonna, niña. Ela representa o poder feminino, que eu também representei em outros tempos. Mas meus caros argentinos não gostaram muito, não. E eu os entendo. Para eles, não há mulher à altura de Evita Perón!

 

*Texto original de Clarissa Passos, publicado na revista Aventuras na História de junho de 2008

 

 

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Nicolau Maquiavel, autor de O Príncipe, conta sobre os bastidores da política

euclidesdacunha | 10/07/2012

Originário de uma família decadente, mas antiga, Nicolau Maquiavel teve educação formal e contato com os clássicos ainda na adolescência. Começou sua carreira no governo da República de Florença com a queda de Girolamo Savonarolla. Exerceu cargos governamentais e desenvolveu missões diplomáticas na França, na Santa Sé e na Alemanha. Sua atividade política e diplomática foi, certamente, a base de seu pensamento. Com o fim da república italiana e a volta ao poder da família Médici, Maquiavel é levado a um exílio de oito anos, durante os quais escreveu a maior parte de sua obra, inclusive a principal delas, “O Príncipe”, de 1513. Na volta de seu exílio, consegue entender-se com Lourenço de Médici, dedica sua grande obra para ele e acaba historiador oficial da cidade-Estado.

Nessa entrevista exclusiva, o autor, que em nenhum momento pretendia escrever um manual da tirania perfeita, aponta erros dos governos fracos e dá exemplos de como funcionam os bastidores da política.

Euclides da Cunha: Afinal, o que é melhor: negociar ou pegar em armas?

Maquiavel: Há duas maneiras de combater: uma, segundo as leis; a outra, pela força. A primeira forma é própria dos homens, a segunda, dos animais. Mas, como a primeira frequentemente não basta, é preciso recorrer à segunda. Não há lei nem Constituição que possa pôr um freio à corrupção universal.

Euclides da Cunha: Qual é sua opinião sobre os governos que, em vez de se envolver em guerras, adotam a política da neutralidade?

Maquiavel: De toda a minha experiência nos negócios públicos e de tudo o que li sobre história não consigo me lembrar de um só caso em que a política da neutralidade tenha sido vantajosa. Tais políticas sempre são desastrosas e levam direto à ruína.

Euclides da Cunha: O governante empenhado em conduzir políticas acertadas deve ter isso sempre em mente?

Maquiavel: Não imagine nunca nenhum governo poder tomar decisões absolutamente certas; pense antes em ter de tomá-las sempre incertas, pois isso faz parte da ordem das coisas. A prudência está justamente em conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos prejudicial como sendo o bom.

Euclides da Cunha: Muitas vezes, nessa tentativa de fazer o certo, os governantes passam por cima da Constituição. Por quê?

Maquiavel: Em um Estado bem constituído, não se deve ser obrigado a recorrer a medidas extraordinárias; porque, se as medidas extraordinárias fazem bem no momento, seu exemplo traz um mal real. O hábito de violar a Constituição para fazer o bem autoriza, em seguida, a violá-la para disfarçar o mal.

Euclides da Cunha: Na prática, que o senhor conhece tão bem, é comum alterar a Constituição. Há um modo correto de fazê-lo?

Maquiavel: Quem quiser mudar a Constituição, de maneira que essa modificação seja bem-vinda, deve salvaguardar, ao menos, a sombra das formas antigas, a fim de que o povo pouco se aperceba das mudanças, mesmo que as novas instituições sejam estranhas aos antigos; porque os homens se alimentam tanto de aparência como de realidade; muitas vezes, a aparência os impressiona mais que a realidade.

Euclides da Cunha: A Constituição garante a liberdade?

Maquiavel: Em toda república existem dois partidos, o dos aristocratas e o do povo; e as leis que favorecem a liberdade resultam da luta desses partidos. Todos os legisladores que redigiram constituições sábias julgaram essencial estabelecer uma proteção à liberdade; e, conforme a maior ou menor habilidade com que essa proteção foi criada, a liberdade durou mais ou menos. As graves e naturais inimizades que existem entre as pessoas do povo e os nobres, causadas porque estes querem mandar e aqueles não querem obedecer, são os motivos de todos os males das cidades, porque dessa diversidade de humores se nutrem todas as outras coisas que perturbam as repúblicas.

Euclides da Cunha: Uma vez conquistada a liberdade, a quem se deve confiar sua guarda: às elites ou ao povo?

Maquiavel: Qualquer encargo deve sempre ser confiado a quem tenha menos inclinação a fraudá-lo. Quando o povo recebe o encargo de velar pela liberdade, ele, sendo menos inclinado a invadi-la, dará melhor conta da incumbência; e, também, sendo incapaz de violá-la ele próprio, melhor impedirá que outros o façam.

Euclides da Cunha: Mesmo que se questione as instituições?

Maquiavel: A quem me disser que a grita constante do povo contra o Senado, a indisposição do Senado contra o povo, as correrias nas ruas – a quem me disser que tais fatos são meios estranhos de atingir um fim conveniente responderei que esses mesmos fatos só podem assustar os que apenas os veem e que todo Estado livre deve dar ao povo uma válvula, por assim dizer, para as suas ambições.

Euclides da Cunha: E quando os protestos populares geram violência?

Maquiavel: Quem se der ao trabalho de examinar com cuidado os resultados das agitações, verá que elas jamais foram causa de violências e se convencerá de que, pelo contrário, elas deram de fato origem a leis vantajosas para as liberdades públicas.

Euclides da Cunha: Apesar de crítico da Igreja, o senhor não vê nenhuma atuação positiva em termos de melhorar as coisas desse mundo?

Maquiavel: Se a religião tivesse permanecido fiel aos princípios, os Estados e as repúblicas da cristandade seriam mais unidos. Não há melhor indício de seu declínio do que o fato de que os povos próximos de Roma é que são os menos religiosos. A ponto de que, se confrontarmos os princípios que presidiram a sua criação e o uso que é feito deles hoje, julgaremos próxima a hora de sua ruína ou da calamidade.

Euclides da Cunha: Que conselho fundamental o senhor daria a um governante?

Maquiavel: É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado.

Euclides da Cunha: Para um governante, é preferível ser temido ou amado?

Maquiavel: Eu respondo que é necessário ser um e outro; mas, como é bem difícil reunir as duas condições, é mais seguro se fazer temer que amar. Porque o amor se mantém por um vínculo de obrigações que, já que os homens são pérfidos, é rompido quando se ofereça ocasião de proveito particular; mas o temor se mantém por um receio de castigo, que não se abandona jamais.

*Texto original de Celso Masson, publicado na revista Aventuras na História de setembro de 2005

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Machado de Assis, criador do Realismo brasileiro, fala sobre sua vida e obra

euclidesdacunha | 15/06/2012

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre e doente, tinha epilepsia. Neto de escravos alforriados, foi criado no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Ajudava a família como podia, não tendo frequentado regularmente a escola. Sua instrução veio por conta própria, devido ao interesse que tinha em todos os tipos de leitura. Aos 16 anos empregou-se como aprendiz numa tipografia e publicou os primeiros versos no jornal “A Marmota”.

Na década de 1870, publicou os poemas “Falenas” e “Americanas”; além dos “Contos Fluminenses” e “Histórias da meia-noite”. O público e a crítica consagraram seus méritos de escritor. Em 1873, o escritor foi nomeado primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras públicas. Anos depois foi nomeado diretor geral do Ministério da Viação, o que garantiu a sua estabilidade financeira.

Nos anos de 1980, o escritor inaugurando o Realismo na literatura brasileira. Os romances “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881); “Quincas Borba” (1891); “Dom Casmurro” (1899) e os contos “Papéis avulsos” (1882); “Histórias sem data” (1884), “Várias histórias” (1896) e “Páginas recolhidas” (1899), entre outros, revelam o autor em sua plenitude. O espírito crítico, a grande ironia, o pessimismo e uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira são as suas marcas mais características. Em 1897, fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente.

Após a morte de sua esposa Carolina, Machado de Assis fala, com exclusividade, com o GUIA DO ESTUDANTE. Confira.

Euclides da Cunha – Por que o senhor não teve filhos? Foi por não querer legar a eles nossa miséria, como está escrito nas Memórias Póstumas de Brás Cubas?

Machado de Assis - Eu bem que gostaria de ver esta casa movimentada. Desde que minha Carola se foi, nada mais aqui tem graça, nem mesmo as borboletas. Mas quero crer que o senhor não tenha vindo fazer-me perguntas de cunho íntimo.

Euclides da Cunha – Peço desculpas. É que parece haver tanta desesperança em suas histórias… O senhor não acha que a esperança é importante?

Machado de Assis – A esperança é importante, mas pode tornar-se um demônio, uma planta daninha que come o lugar de outras plantas melhores. A esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto.

Euclides da Cunha – Vejo ali um belo espelho emoldurado em madeira e me lembrei do conto O Espelho, em que a imagem do alferes, de farda, se confunde com a imagem real. Por que há tantos espelhos em sua obra?

Machado de Assis – Porque a vaidade é um tema que me fascina. Ela tem mil formas, inclusive a mais comum, a da modéstia. E os espelhos são obras humanas; imperfeitos, como todas as obras humanas.

Euclides da Cunha – O senhor foi um poeta romântico e escreveu alguns livros românticos, em que o coração é guiado por paixões contraditórias. Por que o senhor abandonou o romantismo?

Machado de Assis – Será que o abandonei algum dia? Continuo achando, como escrevi em Ressurreição, que, para um coração desenganado, não há imediatamente compensações possíveis nem eficazes consolações. E que a descrição da vida não vale a sensação da vida. Desculpe-me pelas autocitações. Mas eu mesmo sou exemplo de como é insubstituível a sensação de amar e ser amado.

Euclides da Cunha – Mas o senhor é tido como o escritor que rompeu com o romantismo ao escrever Brás Cubas.

Machado de Assis – É verdade, meu jovem, mas nenhuma verdade é inteira. O romantismo foi meu leite de infância, meu doce licor de juventude. Nunca apreciei o rosbife naturalista, isto sim. O realismo a que aderi em meus anos de teatro não foi uma simples oposição ao romantismo. Entre um e outro tentei trabalhar, pois no homem há lugar para todas as contradições. Os extremos se tocam.

Euclides da Cunha – Daí vem o seu gosto pela ironia?

Machado de Assis – Precisamente. Contraí esse gosto dos gregos decadentes, de Luciano, de Swift e Voltaire, dos céticos e desabusados. Aqui no Brasil não prezam a ironia. Preferem a chalaça, a gozação, que têm plateia cativa. Em nosso país, a vulgaridade é um título, a mediocridade, um brasão. E assim continua no regime republicano.

Euclides da Cunha – Muitos, porém, o acham extremamente melancólico e pessimista.

Machado de Assis – É que eles prefeririam que eu lhes dissesse que está tudo bem. Os otimistas costumam ser bobos. Eu tenho minhas rabugens de pessimismo, mas também tenho momentos de expansão alegre, ao menos na presença dos amigos próximos. De resto, prefiro ser reservado. O estilo não é o homem.

Euclides da Cunha – O senhor foi crítico literário, defendeu a independência da literatura brasileira, fundou a Academia Brasileira de Letras para proteger os escritores da desagregação política. Vê bom futuro para a literatura nacional?

Machado de Assis – Nossa independência não se fará em uma ou duas gerações. Mas o senhor pode observar os livros que têm sido escritos nos últimos dez ou 15 anos, como Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Minha Formação, de Joaquim Nabuco, para encher-se de ânimo. Lá na Academia temos, além desses, nomes como José Veríssimo e Olavo Bilac. Exemplos não faltarão para o futuro.

Euclides da Cunha – Esses amigos e colegas acadêmicos chamam-no de mestre. É bom saber que se tem a reputação de um sábio?

Machado de Assis – Agora, meu rapaz, sou obrigado a concordar com Brás Cubas. É como ele diz: “Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas”. Eu trocaria minha reputação pela vida de Carolina, que era o meu par de botas, senão minha roupa inteira. E aqui sigo aquecendo os pés como posso, suportando os remédios amargos que atenuam meus pecados do corpo. Os da alma não têm cura. A alma é tão sutil e complicada que traz confusão à vista nas suas operações exteriores.

*Texto original de Daniel Piza, publicado na revista Aventuras na História de dezembrode 2005

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Em entrevista exclusiva, Joana d’Arc conta como foi sua atuação na Guerra dos Cem Anos

Ana Prado | 06/06/2012

Ela era apenas uma camponesa do vilarejo francês de Domrémy. Mas, aos 13 anos, Joana d’Arc começou a escutar vozes. A jovem, nascida em 1412, dizia ouvir santos dando-lhe instruções sobre como vencer a Guerra dos Cem Anos (travada entre a França e a Inglaterra, de 1337 a 1475). Quatro anos depois, Joana lideraria milhares de soldados, motivados por sua fé. Aquelas vozes, entretanto, acabaram servindo de pretexto para que ela fosse queimada na fogueira em 1431, depois de um julgamento religioso comandado pelo reitor da Universidade de Paris. A Igreja Católica, que a condenara por bruxaria, acabou revertendo o veredicto e, no ano de 1920, a canonizou.

Alguns historiadores acreditam que a participação de Joana na guerra tenha sido mais folclórica do que efetiva. De qualquer modo, seu prestígio atual é inquestionável. Confira abaixo a entrevista que Joana concedeu.

Euclides da Cunha – Como você, que não tinha treinamento militar nem qualquer experiência no campo de batalha, conseguiu liderar tantos homens?

Joana d’Arc – Minha fé em Deus e a proteção divina já explicam tudo. Mesmo assim, posso dizer que, entre os integrantes das tropas inglesas e francesas, muitos tinham preparo parecido com o meu, ou seja, praticamente nenhum. Havia muitos civis no combate. Claro que a principal diferença era o fato de eu ser mulher. Mas, durante as batalhas, ninguém se lembrava disso. Eu tinha os cabelos bem curtos e me vestia como os demais soldados.

Euclides da Cunha – Alguns pesquisadores acreditam que sua presença não alterou em nada os rumos da Guerra dos Cem Anos. Afinal, a paz só veio mais de 40 anos depois de sua captura…

Joana d’Arc – Já me habituei a esse tipo de comentário maldoso e infrutífero. Acredito que a importância de uma menina numa guerra dominada por homens sempre será colocada em questão. É obvio que os autores dessas bobagens são homens também. Sei da importância do meu papel na libertação do cerco à cidade de Orléans, em 1429. É verdade que os ingleses estavam desmotivados e praticamente nos deixaram ganhar. Mas era Deus, através de mim, que dava ânimo e fé aos combatentes franceses.


O interrogatório de Joana

Euclides da Cunha – Você vivia rodeada de homens nos campos de batalha, dormia ao lado deles, alguns chegaram a dizer que viram você nua… Nos dias de hoje, muitas pessoas acham estranho que você tenha mantido a castidade.

Joana d’Arc – Eu prometi a Santa Catarina que me manteria virgem e jamais pensei em descumprir meu pacto. É verdade que eu vivia cercada por homens, mas eles sempre me respeitaram. A rainha da Sicília, sogra do meu estimado rei Carlos VII, chegou a me examinar durante o inquérito de Orléans e atestou minha virgindade.

Euclides da Cunha – Você tem como provar que as vozes que dizia ouvir eram mesmo de santos?

Joana d’Arc – Eu já expliquei isso no tribunal diversas vezes. As pessoas parecem querer que eu faça mágicas para provar meu dom, minha sensibilidade. As vozes não surgem quando eu quero. Isso é coisa séria, é preciso ter fé. Mas tudo que eu previ de fato aconteceu. A guerra só não terminou antes porque fui capturada pelos ingleses e não pude mais ajudar meu amado rei.

Euclides da Cunha – E por que Deus defenderia a França na Guerra dos Cem Anos? Deus por acaso é francês? Ha quem acredite que Deus é brasileiro…

Joana d’Arc – Não costumo fazer perguntas para Deus, apenas sigo suas instruções. Duvidar da palavra divina é coisa de quem não tem fé. As vozes me pediram que ajudasse o povo francês a superar aquela infelicidade toda, de guerras, saques, invasões. Foi o que eu fiz.

Euclides da Cunha – Aquela espada encontrada na igreja é a principal prova de que você realmente era predestinada?

Joana d’Arc – Veja lá como você usa as palavras. Nunca disse que sou predestinada. Estou escolada com essas perguntas tendenciosas, já me dei muito mal com a Inquisição por causa delas. Mas a espada de Santa Catarina foi, sim, uma prova de que eu estava certa. Falei que ela estaria enterrada atrás da igreja de Fierbois e que ela teria o desenho de cinco cruzes. Eu estava em Tours quando as vozes me disseram isso, pedi que buscassem a espada por mim e, de fato, ela estava lá.

* Texto original de Lúcia Monteiro, publicado na revista Aventuras na História em janeiro de 2006

 

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Categoria: Guerra, História, Igreja

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