Leonardo da Vinci fala sobre suas obras e o famoso sorriso da Mona Lisa
Ana Prado | 25/05/2012
Em seu tempo e sua terra – a Itália da segunda metade do século 15 – Leonardo da Vinci foi o verdadeiro homem dos mil instrumentos. Arquiteto, desenhista, pintor, escultor, engenheiro, inventor e anatomista, dedicou-se a tantas áreas que poderia hoje manter sozinho um portal enciclopédico na internet. Nascido no vilarejo de Anchiano, perto da cidade de Vinci, em 1452, Leonardo dominou como ninguém a arte de observar e representar a realidade. Ele analisou o galope dos cavalos, estudou como a luz altera a aparência de um objeto, abriu vísceras de cadáveres. Chegou até mesmo a vislumbrar o futuro: projetou engenhocas que só se tornariam realidade séculos mais tarde, como o helicóptero e o escafandro. Confira a seguir um bate-papo com Da Vince.
Euclides da Cunha – O senhor sempre teve um talento excepcional para reproduzir o que vê, não? O senhor se considera um gênio?
Leonardo Da Vince – Sinceramente, sim. Mas minha época é pródiga em gênios na arte de reproduzir a natureza. Na pintura, tinha o Michelangelo e o Rafael. Na astronomia, tinha o Nicolau Copérnico, que observou tanto o céu que acabou mudando a posição da Terra ao afirmar que era nosso planeta que girava em torno do Sol, e não o contrário. Tutti buona gente. Agora, cá entre nós, depois que restauraram o afresco da Capela Sistina, o Michelangelo, que eu prefiro chamar de Mike, deu de ficar mais convencido ainda, tá se achando todo. Ah, fala sério…
Euclides da Cunha – Ainda assim, com tantos talentos em volta, o senhor foi o mais completo, que dominou mais áreas do conhecimento…
Leonardo Da Vince – É o que eu sempre disse ao Mike: a diferença entre ele e eu é que não passei a vida inteira só pintando ou esculpindo. Na verdade, pintei pouco durante toda minha vida – tanto que hoje só sobraram umas 17 obras completas. Não tinha tempo. Por outro lado, sempre fui curioso e gostei de resolver problemas.
Euclides da Cunha – O senhor costumava trabalhar para militares. Não é irônico que uma guerra tenha impedido a conclusão de uma de suas maiores obras, o monumento a Francesco Sforza, em Milão?
Leonardo Da Vince – Pois é. Passei 12 anos da minha vida construindo aquele molde de argila imenso, de 5 metros de altura. Aí, com o molde pronto, na hora de fundir o bronze, todo metal foi desviado para a fabricação de canhões. No fim, até o molde ficou em ruínas. É o que eu digo: a elite sempre preferiu investir na guerra e não na arte – uma escolha, aliás, de bom senso, já que os saques rendem muito mais dividendos do que um retrato pendurado na parede.
Euclides da Cunha – O senhor deixou muitos projetos inacabados, incluindo anotações em que largou uma frase no meio e jamais voltou a ela. Por quê?
Leonardo Da Vince – Esse sempre foi meu problema. Minha cabeça fervilhava tanto e eu ficava tão ansioso em dar forma às novas ideias que me vinham que acabava largando os projetos no meio, louco para começar outro. Mas confesso ter largado muitos deles por pura preguiça, mesmo.
Euclides da Cunha – Sobre os estudos de anatomia: o senhor não tinha um certo receio de passar noites dissecando cadáveres?
Leonardo Da Vince – Certo receio? Eu tinha era paúra. Era uma aflição terrível. Ficava enjoado de ver o corpo por dentro, todo aquele sangue. Mas eu tinha de trabalhar – e rápido, porque senão o corpo apodrecia. Para você ver o que se faz pela ciência…
Euclides da Cunha – Uma pergunta inevitável: qual o segredo do sorriso de Mona Lisa?
Leonardo Da Vince – Dentes maltratados. Quando fui chamado a fazer o retrato, convenci a dama a dar um leve sorriso – como, aliás, era sinal de boa educação entre as mulheres da aristocracia naquela época. De resto, só porque brinquei com alguns jogos de luz e perspectiva, vocês ficaram falando desse quadro por cinco séculos.
*Texto original de Thereza Venturoli, publicado na revista Aventuras na História de junho de 2006






