Guia do Estudante

Posts da categoria ‘História’

Eva Perón: a ex-primeira-dama argentina faz discurso mesmo em uma simples conversa

Ana Prado | 26/07/2012

1

Comentário


Sempre discursando

No processo de aprovação da lei para permitir o voto feminino, Eva Perón, já casada com o presidente argentino Juan Perón, virou porta-voz das mulheres. Mas o apoio foi malvisto pelas feministas. Quando a lei foi aprovada, o ato foi entendido como gesto de manipulação peronista. Pioneira entre as celebridades com atuação política, Evita atraiu a reprovação de quem achava um escândalo uma estrela do rádio ser a primeira-dama. Mas sua empatia com o povo era inigualável. Prova disso foi o famoso discurso do Cabildo Aberto, em agosto de 1951, quando 2 milhões de argentinos pediram a candidatura de Evita à vice-presidência. Pouco depois, em 26 de julho de 1952, Eva não resistiu a um câncer de útero. Seu funeral parou o país. E o mito estava apenas começando.

- LEIA TAMBÉM: Museu Evita: Acervo mostra a trajetória de Eva Perón

História – Como foi sua infância? Não é o tipo de profissão com que a gente sonha, ser primeira-dama.

Evita – Compañera! Não, eu não sonhava em ser primeira-dama! Muito menos em virar “Líder Espiritual da Nação Argentina”, como me nomearam, para minha mais profunda honra, poucos meses antes da minha partida desse mundo aí. Eu apenas sonhava com uma nação justa! Uma nação onde prevaleceria a vontade daqueles que trabalham! Uma nação que nada teria a temer…

Desculpe interromper, mas não estamos em um comício. É só uma entrevista.

Desculpe, niña! É a força do hábito… Mas eu não pensava em ser primeira-dama. Quando criança, não saía do cinema da minha pequena cidade, Junín. Me encantava a carreira artística! Por isso, aos 16 anos, apesar do desgosto de minha mãe, fui tentar a sorte em Buenos Aires.

A senhora era chegada num palanque, não? Quando descobriu a vocação?

Eu recitava poesia na escola. Como contei em minha autobiografia, A Razão da Minha Vida, “parecia que eu queria dizer algo aos outros, algo que eu sentia no fundo do meu coração”.


Eva Perón aos 15 anos

Já uma coisa que a senhora nunca quis dizer aos outros é sobre seu pai, que não se casou com sua mãe porque já tinha esposa em outra cidade.

Isso era bem comum naqueles tempos. Mas é claro que essa história me desagradava. Tanto que, ao me casar com Perón, arranjei um jeitinho de alterar minha certidão de nascimento. Como se já não bastasse tudo o que eu tinha que aturar, teria de andar com o rótulo de bastarda? Eu não daria esse gostinho àqueles que jamais me entenderam – e que jamais me entenderão!

A senhora está fazendo de novo…

Opa. Perdón!

Mas se esse era o motivo para alterar a certidão de nascimento, por que diminuiu três anos de sua idade?

E eu sou besta? Que mulher não quer parecer (ou melhor, ser) mais jovem? Aproveitei a ocasião, querida. Daí que pensaram que eu havia morrido com 30 anos. Mas, cá entre nós, eu tinha 33.

Como conheceu Juan Perón?

Em 1944, quando um terremoto atingiu a cidade de San Juan, Perón, que era chefe da Secretaria de Trabalho, convocou os artistas para levantarem fundos e ajudar os sobreviventes. Eu estava entre a escalação. No último dia, tivemos um baile de gala com as autoridades. Foi lá que o encontrei.

Quando viva, a senhora fez uma grande viagem pela Europa. Mas também viajou à beça depois de morrer, certo?

É verdade, chica. Perón saiu da Argentina às pressas com o golpe de 1955. Meu corpo, embalsamado, ficou aos cuidados dos militares que destituíram meu marido. Me esconderam em um túmulo na cidade de Milão, na Itália, sob o nome de María Maggi. Isso só foi descoberto em 1971. De lá, fui para a Espanha, onde Perón estava exilado. E só me levaram de volta à Argentina em 1975. Olha, foi cansativo…

O que achou de ser interpretada no cinema pela cantora Madonna?

Sou fã da Madonna, niña. Ela representa o poder feminino, que eu também representei em outros tempos. Mas meus caros argentinos não gostaram muito, não. E eu os entendo. Para eles, não há mulher à altura de Evita Perón!

 

*Texto original de Clarissa Passos, publicado na revista Aventuras na História de junho de 2008

 

 

Compartilhe

Nicolau Maquiavel, autor de O Príncipe, conta sobre os bastidores da política

euclidesdacunha | 10/07/2012

4

Comentários

Originário de uma família decadente, mas antiga, Nicolau Maquiavel teve educação formal e contato com os clássicos ainda na adolescência. Começou sua carreira no governo da República de Florença com a queda de Girolamo Savonarolla. Exerceu cargos governamentais e desenvolveu missões diplomáticas na França, na Santa Sé e na Alemanha. Sua atividade política e diplomática foi, certamente, a base de seu pensamento. Com o fim da república italiana e a volta ao poder da família Médici, Maquiavel é levado a um exílio de oito anos, durante os quais escreveu a maior parte de sua obra, inclusive a principal delas, “O Príncipe”, de 1513. Na volta de seu exílio, consegue entender-se com Lourenço de Médici, dedica sua grande obra para ele e acaba historiador oficial da cidade-Estado.

Nessa entrevista exclusiva, o autor, que em nenhum momento pretendia escrever um manual da tirania perfeita, aponta erros dos governos fracos e dá exemplos de como funcionam os bastidores da política.

Euclides da Cunha: Afinal, o que é melhor: negociar ou pegar em armas?

Maquiavel: Há duas maneiras de combater: uma, segundo as leis; a outra, pela força. A primeira forma é própria dos homens, a segunda, dos animais. Mas, como a primeira frequentemente não basta, é preciso recorrer à segunda. Não há lei nem Constituição que possa pôr um freio à corrupção universal.

Euclides da Cunha: Qual é sua opinião sobre os governos que, em vez de se envolver em guerras, adotam a política da neutralidade?

Maquiavel: De toda a minha experiência nos negócios públicos e de tudo o que li sobre história não consigo me lembrar de um só caso em que a política da neutralidade tenha sido vantajosa. Tais políticas sempre são desastrosas e levam direto à ruína.

Euclides da Cunha: O governante empenhado em conduzir políticas acertadas deve ter isso sempre em mente?

Maquiavel: Não imagine nunca nenhum governo poder tomar decisões absolutamente certas; pense antes em ter de tomá-las sempre incertas, pois isso faz parte da ordem das coisas. A prudência está justamente em conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos prejudicial como sendo o bom.

Euclides da Cunha: Muitas vezes, nessa tentativa de fazer o certo, os governantes passam por cima da Constituição. Por quê?

Maquiavel: Em um Estado bem constituído, não se deve ser obrigado a recorrer a medidas extraordinárias; porque, se as medidas extraordinárias fazem bem no momento, seu exemplo traz um mal real. O hábito de violar a Constituição para fazer o bem autoriza, em seguida, a violá-la para disfarçar o mal.

Euclides da Cunha: Na prática, que o senhor conhece tão bem, é comum alterar a Constituição. Há um modo correto de fazê-lo?

Maquiavel: Quem quiser mudar a Constituição, de maneira que essa modificação seja bem-vinda, deve salvaguardar, ao menos, a sombra das formas antigas, a fim de que o povo pouco se aperceba das mudanças, mesmo que as novas instituições sejam estranhas aos antigos; porque os homens se alimentam tanto de aparência como de realidade; muitas vezes, a aparência os impressiona mais que a realidade.

Euclides da Cunha: A Constituição garante a liberdade?

Maquiavel: Em toda república existem dois partidos, o dos aristocratas e o do povo; e as leis que favorecem a liberdade resultam da luta desses partidos. Todos os legisladores que redigiram constituições sábias julgaram essencial estabelecer uma proteção à liberdade; e, conforme a maior ou menor habilidade com que essa proteção foi criada, a liberdade durou mais ou menos. As graves e naturais inimizades que existem entre as pessoas do povo e os nobres, causadas porque estes querem mandar e aqueles não querem obedecer, são os motivos de todos os males das cidades, porque dessa diversidade de humores se nutrem todas as outras coisas que perturbam as repúblicas.

Euclides da Cunha: Uma vez conquistada a liberdade, a quem se deve confiar sua guarda: às elites ou ao povo?

Maquiavel: Qualquer encargo deve sempre ser confiado a quem tenha menos inclinação a fraudá-lo. Quando o povo recebe o encargo de velar pela liberdade, ele, sendo menos inclinado a invadi-la, dará melhor conta da incumbência; e, também, sendo incapaz de violá-la ele próprio, melhor impedirá que outros o façam.

Euclides da Cunha: Mesmo que se questione as instituições?

Maquiavel: A quem me disser que a grita constante do povo contra o Senado, a indisposição do Senado contra o povo, as correrias nas ruas – a quem me disser que tais fatos são meios estranhos de atingir um fim conveniente responderei que esses mesmos fatos só podem assustar os que apenas os veem e que todo Estado livre deve dar ao povo uma válvula, por assim dizer, para as suas ambições.

Euclides da Cunha: E quando os protestos populares geram violência?

Maquiavel: Quem se der ao trabalho de examinar com cuidado os resultados das agitações, verá que elas jamais foram causa de violências e se convencerá de que, pelo contrário, elas deram de fato origem a leis vantajosas para as liberdades públicas.

Euclides da Cunha: Apesar de crítico da Igreja, o senhor não vê nenhuma atuação positiva em termos de melhorar as coisas desse mundo?

Maquiavel: Se a religião tivesse permanecido fiel aos princípios, os Estados e as repúblicas da cristandade seriam mais unidos. Não há melhor indício de seu declínio do que o fato de que os povos próximos de Roma é que são os menos religiosos. A ponto de que, se confrontarmos os princípios que presidiram a sua criação e o uso que é feito deles hoje, julgaremos próxima a hora de sua ruína ou da calamidade.

Euclides da Cunha: Que conselho fundamental o senhor daria a um governante?

Maquiavel: É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado.

Euclides da Cunha: Para um governante, é preferível ser temido ou amado?

Maquiavel: Eu respondo que é necessário ser um e outro; mas, como é bem difícil reunir as duas condições, é mais seguro se fazer temer que amar. Porque o amor se mantém por um vínculo de obrigações que, já que os homens são pérfidos, é rompido quando se ofereça ocasião de proveito particular; mas o temor se mantém por um receio de castigo, que não se abandona jamais.

*Texto original de Celso Masson, publicado na revista Aventuras na História de setembro de 2005

Compartilhe

Em entrevista exclusiva, Joana d’Arc conta como foi sua atuação na Guerra dos Cem Anos

Ana Prado | 06/06/2012

3

Comentários

Ela era apenas uma camponesa do vilarejo francês de Domrémy. Mas, aos 13 anos, Joana d’Arc começou a escutar vozes. A jovem, nascida em 1412, dizia ouvir santos dando-lhe instruções sobre como vencer a Guerra dos Cem Anos (travada entre a França e a Inglaterra, de 1337 a 1475). Quatro anos depois, Joana lideraria milhares de soldados, motivados por sua fé. Aquelas vozes, entretanto, acabaram servindo de pretexto para que ela fosse queimada na fogueira em 1431, depois de um julgamento religioso comandado pelo reitor da Universidade de Paris. A Igreja Católica, que a condenara por bruxaria, acabou revertendo o veredicto e, no ano de 1920, a canonizou.

Alguns historiadores acreditam que a participação de Joana na guerra tenha sido mais folclórica do que efetiva. De qualquer modo, seu prestígio atual é inquestionável. Confira abaixo a entrevista que Joana concedeu.

Euclides da Cunha – Como você, que não tinha treinamento militar nem qualquer experiência no campo de batalha, conseguiu liderar tantos homens?

Joana d’Arc – Minha fé em Deus e a proteção divina já explicam tudo. Mesmo assim, posso dizer que, entre os integrantes das tropas inglesas e francesas, muitos tinham preparo parecido com o meu, ou seja, praticamente nenhum. Havia muitos civis no combate. Claro que a principal diferença era o fato de eu ser mulher. Mas, durante as batalhas, ninguém se lembrava disso. Eu tinha os cabelos bem curtos e me vestia como os demais soldados.

Euclides da Cunha – Alguns pesquisadores acreditam que sua presença não alterou em nada os rumos da Guerra dos Cem Anos. Afinal, a paz só veio mais de 40 anos depois de sua captura…

Joana d’Arc – Já me habituei a esse tipo de comentário maldoso e infrutífero. Acredito que a importância de uma menina numa guerra dominada por homens sempre será colocada em questão. É obvio que os autores dessas bobagens são homens também. Sei da importância do meu papel na libertação do cerco à cidade de Orléans, em 1429. É verdade que os ingleses estavam desmotivados e praticamente nos deixaram ganhar. Mas era Deus, através de mim, que dava ânimo e fé aos combatentes franceses.


O interrogatório de Joana

Euclides da Cunha – Você vivia rodeada de homens nos campos de batalha, dormia ao lado deles, alguns chegaram a dizer que viram você nua… Nos dias de hoje, muitas pessoas acham estranho que você tenha mantido a castidade.

Joana d’Arc – Eu prometi a Santa Catarina que me manteria virgem e jamais pensei em descumprir meu pacto. É verdade que eu vivia cercada por homens, mas eles sempre me respeitaram. A rainha da Sicília, sogra do meu estimado rei Carlos VII, chegou a me examinar durante o inquérito de Orléans e atestou minha virgindade.

Euclides da Cunha – Você tem como provar que as vozes que dizia ouvir eram mesmo de santos?

Joana d’Arc – Eu já expliquei isso no tribunal diversas vezes. As pessoas parecem querer que eu faça mágicas para provar meu dom, minha sensibilidade. As vozes não surgem quando eu quero. Isso é coisa séria, é preciso ter fé. Mas tudo que eu previ de fato aconteceu. A guerra só não terminou antes porque fui capturada pelos ingleses e não pude mais ajudar meu amado rei.

Euclides da Cunha – E por que Deus defenderia a França na Guerra dos Cem Anos? Deus por acaso é francês? Ha quem acredite que Deus é brasileiro…

Joana d’Arc – Não costumo fazer perguntas para Deus, apenas sigo suas instruções. Duvidar da palavra divina é coisa de quem não tem fé. As vozes me pediram que ajudasse o povo francês a superar aquela infelicidade toda, de guerras, saques, invasões. Foi o que eu fiz.

Euclides da Cunha – Aquela espada encontrada na igreja é a principal prova de que você realmente era predestinada?

Joana d’Arc – Veja lá como você usa as palavras. Nunca disse que sou predestinada. Estou escolada com essas perguntas tendenciosas, já me dei muito mal com a Inquisição por causa delas. Mas a espada de Santa Catarina foi, sim, uma prova de que eu estava certa. Falei que ela estaria enterrada atrás da igreja de Fierbois e que ela teria o desenho de cinco cruzes. Eu estava em Tours quando as vozes me disseram isso, pedi que buscassem a espada por mim e, de fato, ela estava lá.

* Texto original de Lúcia Monteiro, publicado na revista Aventuras na História em janeiro de 2006

 

Comentários: 3 pessoas comentaram

Categoria: Guerra, História, Igreja

Tags: , ,

Compartilhe

Ramsés II, o grande faraó, fala sobre seus feitos políticos

Ana Prado | 01/06/2012

4

Comentários


Não havia fotografia na época

Chamado de Ramsés, o Grande, Ramsés II viveu 90 anos, dos quais 67 à frente do governo. No começo de seu reinado, partiu para Qadesh, cidade que demarcava o limite entre os impérios egípcio e hitita, enfrentou sozinho 2,5 mil bigas inimigas (um carro de duas rodas, movido por dois cavalos) e saiu vivo. Além disso, Ramsés fundou uma nova capital no norte do Egito, Pi-Ramsés, cobriu o seu país e a Núbia (atual Sudão) de monumentos aos deuses e estabeleceu uma paz no reino de cerca de 50 anos. Mesmo com tanta agitação na política, o mais bem-sucedido faraó teve tempo de ter oito rainhas – das quais Nefertari era a preferida –, mais de uma centena de esposas secundárias e concubinas e quase 200 filhos. Se não bastasse, a biografia de Ramsés II tem espaço também para controvérsias: é considerado por alguns pesquisadores como o faraó do Êxodo, a libertação dos hebreus relatada na Bíblia. Nesta entrevista, o faraó fala sobre seus feitos e polêmicas.

Euclides da Cunha – Existe algo que intriga os pesquisadores até hoje: o que aconteceu realmente na batalha de Qadesh, logo no início do seu reinado?

Ramsés – Ainda é difícil falar dessas coisas, mesmo mais de 3 mil anos depois… Tudo aconteceu na primavera de 1274 a.C. Eu acreditava numa vitória fácil sobre os hititas. Assim, logo de início, consolidaria os feitos de meu pai, Sethi I. Mas não foi desse jeito. Estava perto do acampamento egípcio liderando a coluna de Amon, uma das quatro que levei, quando, de repente, uma nuvem de hititas furou a coluna e atacou o campo… Foi o terror! Invoquei Amon-Rá, meu deus. Com ele, enfrentamos sozinhos as milhares de bigas hititas.

Euclides da Cunha – Desculpe, Ramsés, mas realmente Amon-Rá interveio nesta batalha?

Ramsés – Tenho que confessar que uma tropa de elite surgiu, vinda de Amurru (atual Líbano), e manteve nossa posição até que outra coluna, a Seth, chegasse e nos salvasse. Não perdi e nem ganhei, e ainda consegui um tratado de paz duradouro com os hititas. E mais: uma nova esposa para o meu harém. Imagine para onde iria minha reputação se eu chegasse ao Egito dizendo que tomei uma coça dos hititas… Por isso sou um fiel devoto de Amon-Rá.

Euclides da Cunha – Mudando de assunto, você foi um dos faraós que conseguiu se tornar deus com culto ainda em vida. Como foi isso?

Ramsés – Antes de mim, Amenhetep III e Akhenaton tentaram, mas não conseguiram. Se fosse nos dias de hoje, é como se o chefe do seu país tivesse templos, santuários com suas estátuas, e todos os dias vocês fizessem preces e oferendas para ele, pedindo trabalho, saúde, casamento, aumento, divórcio, essas coisas. Era assim que era feito comigo. Visite o templo de Abu Simbel no sul do Egito e você verá como fico bem entre os principais deuses no santuário. Ser deus é bom, ser rei também, mas ser ambos não tem preço.

Euclides da Cunha – Ouvimos sempre falar de suas centenas de mulheres e filhos. É tudo verdade?

Ramsés – Claro! Tanto é verdade que construí uma tumba para os meus filhos, que aqueles seres horrendos, os tais egiptólogos, acabaram descobrindo e chamaram de KV5. Até agora eles descobriram 130 câmaras e acham que pode ter 200. Só que eu não vou dizer quantas eram. Agora que abriram a tumba, que trabalhem até encontrar.


Pintura parietal representado Nefertari, em seu túmulo

Euclides da Cunha – Nefertari era mesmo sua rainha favorita?

Ramsés – Nefertari, Nefertari… Eu a amava profundamente. Construí um templo para ela próximo ao meu, em Abu Simbel. Só para ela fiz isso. Era meu braço direito. Você sabia que ela foi atuante nas relações diplomáticas entre o Egito e Hatti (o país dos hititas na Turquia)? Grande mulher.

Euclides da Cunha – E essa história do Êxodo dos hebreus? Foi mesmo no seu reinado?

Ramsés  - Os pesquisadores não acreditam nisso. Alguns acham que, se o Êxodo aconteceu mesmo, os hebreus atravessaram o mar de Juncos, que é bem rasinho, e não o mar Vermelho. No meu tempo não tínhamos nem um nome para os hebreus. Diversos grupos do Retennu (atual Palestina) eram chamados de apiru. Só por volta de 1100 a.C. meu filho Mer-en-Ptah escreveu pela primeira vez o nome Isr numa estela, quando conquistou a região. O nome foi traduzido como Israel depois.

*Texto original de Júlio Gralha, publicado em novembro de 2005 na revista Aventuras na História

 

Compartilhe

Charles Darwin fala sobre a teoria da evolução

euclidesdacunha | 11/05/2012

7

Comentários

Charles Robert Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1809, na Inglaterra. Seu pai queria que ele seguisse a profissão dos homens da família, a Medicina. Mas o curioso estudante, que colecionava insetos e pedras quando criança, não suportou a primeira cirurgia a que assistiu. O pai sugeriu, então, que se tornasse clérigo. No entanto, logo viu o rapaz embarcar como naturalista do barco inglês Beagle, cuja missão era mapear a costa sul-americana.

- Confira a entrevista com Alexandre, O Grande

- Leia a entrevista de Carlota Joaquina

- Veja a entrevista com Getúlio Vargas sobre seus anos de governo

- Confira a entrevista com Karl Marx

Resignado, o pai acabou fazendo investimentos que permitiram ao jovem não ter que trabalhar. Assim, Darwin pôde dedicar-se a pesquisar e desenvolver teorias. E que teorias! Com a publicação de A Origem das Espécies, ele concluiu que os seres evoluem por meio da chamada “seleção natural” – em que os indivíduos que nascem mais aptos às condições do ambiente prevalecem sobre os outros e passam suas características adiante. A idéia sacudiu o pensamento da época, acostumado a ver homens e animais como fruto da criação divina.

EUCLIDES DA CUNHA – O senhor embarcou no Beagle aos 22 anos, em 1831, e viajou até 1836. A jornada forneceu a base das observações usadas para formular as teorias da evolução e da seleção natural. Mas A Origem das Espécies só foi publicado em 1859. Por quê?

CHARLES DARWIN - Você pensa que uma teoria dessas surge assim, do nada? Não bastou embarcar no Beagle, dar uma volta pelos mares e continentes afora, olhar aí uma meia dúzia de passarinhos e tartarugas, voltar e tirar o homem da confortável posição de centro do Universo e rei da criação – que a Igreja se esmerou em lustrar por tanto tempo. Precisei desenvolver minhas ideias: cataloguei o que havia coletado, continuei observando os seres em seu meio e queimei muitos, muitos neurônios.

EUCLIDES DA CUNHA – Sei… Mas sigamos: o senhor esperava que sua teoria causasse tanta balbúrdia?

CHARLES DARWIN – Lógico! Desconfiava seriamente de que o pessoal mais chegado à Igreja ia mesmo querer me pegar. E, naquela época, a teoria da criação representava muito mais que a simples ideia de que Deus criou o mundo e seus habitantes em seis dias e desde então a vida seguiu. Essa crença estava na base de quase tudo. Acreditar na evolução era coisa de ateu, revolucionário ou maluco.

EUCLIDES DA CUNHA – O que achou da reação da sociedade?

CHARLES DARWIN – Claro que a gente nunca espera se ver retratado com o corpo de um macaco, mas… Quer saber? Eu nem liguei para as caricaturas. Isso porque, antes de tornar públicas minhas ideias, pensei um bocado. Tive, inclusive, que superar minhas próprias crenças num Deus bondoso e benevolente, cuja expressão máxima seria a perfeição da criação. Conforme os anos foram se passando, uma coisa eu aprendi: o ser humano gosta de pensar que está acima dos animais, mas não é bem assim, não. Eu disse, em um dos meus livros, que “o homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével de sua origem primitiva”. Estou certo ou estou errado?

EUCLIDES DA CUNHA – Como foi a viagem a bordo do Beagle?

CHARLES DARWIN – Teve seus altos e baixos. Recolhi material suficiente para, depois, desenvolver uma teoria revolucionária. Por outro lado, eu enjoava que só vendo. E, hoje em dia, desconfiam que fui picado pelo barbeiro e contraí a doença de Chagas na América do Sul. Ninguém soube me curar, mas foi a viagem da minha vida.

EUCLIDES DA CUNHA – O que o senhor acha dos debates atuais entre evolucionismo e criacionismo? E da teoria do design inteligente, que afirma que há uma inteligência superior por trás da evolução?

CHARLES DARWIN  - Cada um acha o que quiser. Mas é preciso que todos tenham acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade para escolherem como preferem responder à velha pergunta: “De onde viemos?”

*Texto original de Clarissa Passos, publicado na revista Aventuras na História em julho de 2007

Compartilhe