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Ramsés II, o grande faraó, fala sobre seus feitos políticos

Ana Prado | 01/06/2012

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Chamado de Ramsés, o Grande, Ramsés II viveu 90 anos, dos quais 67 à frente do governo. No começo de seu reinado, partiu para Qadesh, cidade que demarcava o limite entre os impérios egípcio e hitita, enfrentou sozinho 2,5 mil bigas inimigas (um carro de duas rodas, movido por dois cavalos) e saiu vivo. Além disso, Ramsés fundou uma nova capital no norte do Egito, Pi-Ramsés, cobriu o seu país e a Núbia (atual Sudão) de monumentos aos deuses e estabeleceu uma paz no reino de cerca de 50 anos. Mesmo com tanta agitação na política, o mais bem-sucedido faraó teve tempo de ter oito rainhas – das quais Nefertari era a preferida –, mais de uma centena de esposas secundárias e concubinas e quase 200 filhos. Se não bastasse, a biografia de Ramsés II tem espaço também para controvérsias: é considerado por alguns pesquisadores como o faraó do Êxodo, a libertação dos hebreus relatada na Bíblia. Nesta entrevista, o faraó fala sobre seus feitos e polêmicas.

Euclides da Cunha – Existe algo que intriga os pesquisadores até hoje: o que aconteceu realmente na batalha de Qadesh, logo no início do seu reinado?

Ramsés – Ainda é difícil falar dessas coisas, mesmo mais de 3 mil anos depois… Tudo aconteceu na primavera de 1274 a.C. Eu acreditava numa vitória fácil sobre os hititas. Assim, logo de início, consolidaria os feitos de meu pai, Sethi I. Mas não foi desse jeito. Estava perto do acampamento egípcio liderando a coluna de Amon, uma das quatro que levei, quando, de repente, uma nuvem de hititas furou a coluna e atacou o campo… Foi o terror! Invoquei Amon-Rá, meu deus. Com ele, enfrentamos sozinhos as milhares de bigas hititas.

Euclides da Cunha – Desculpe, Ramsés, mas realmente Amon-Rá interveio nesta batalha?

Ramsés – Tenho que confessar que uma tropa de elite surgiu, vinda de Amurru (atual Líbano), e manteve nossa posição até que outra coluna, a Seth, chegasse e nos salvasse. Não perdi e nem ganhei, e ainda consegui um tratado de paz duradouro com os hititas. E mais: uma nova esposa para o meu harém. Imagine para onde iria minha reputação se eu chegasse ao Egito dizendo que tomei uma coça dos hititas… Por isso sou um fiel devoto de Amon-Rá.

Euclides da Cunha – Mudando de assunto, você foi um dos faraós que conseguiu se tornar deus com culto ainda em vida. Como foi isso?

Ramsés – Antes de mim, Amenhetep III e Akhenaton tentaram, mas não conseguiram. Se fosse nos dias de hoje, é como se o chefe do seu país tivesse templos, santuários com suas estátuas, e todos os dias vocês fizessem preces e oferendas para ele, pedindo trabalho, saúde, casamento, aumento, divórcio, essas coisas. Era assim que era feito comigo. Visite o templo de Abu Simbel no sul do Egito e você verá como fico bem entre os principais deuses no santuário. Ser deus é bom, ser rei também, mas ser ambos não tem preço.

Euclides da Cunha – Ouvimos sempre falar de suas centenas de mulheres e filhos. É tudo verdade?

Ramsés – Claro! Tanto é verdade que construí uma tumba para os meus filhos, que aqueles seres horrendos, os tais egiptólogos, acabaram descobrindo e chamaram de KV5. Até agora eles descobriram 130 câmaras e acham que pode ter 200. Só que eu não vou dizer quantas eram. Agora que abriram a tumba, que trabalhem até encontrar.


Pintura parietal representado Nefertari, em seu túmulo

Euclides da Cunha – Nefertari era mesmo sua rainha favorita?

Ramsés – Nefertari, Nefertari… Eu a amava profundamente. Construí um templo para ela próximo ao meu, em Abu Simbel. Só para ela fiz isso. Era meu braço direito. Você sabia que ela foi atuante nas relações diplomáticas entre o Egito e Hatti (o país dos hititas na Turquia)? Grande mulher.

Euclides da Cunha – E essa história do Êxodo dos hebreus? Foi mesmo no seu reinado?

Ramsés  - Os pesquisadores não acreditam nisso. Alguns acham que, se o Êxodo aconteceu mesmo, os hebreus atravessaram o mar de Juncos, que é bem rasinho, e não o mar Vermelho. No meu tempo não tínhamos nem um nome para os hebreus. Diversos grupos do Retennu (atual Palestina) eram chamados de apiru. Só por volta de 1100 a.C. meu filho Mer-en-Ptah escreveu pela primeira vez o nome Isr numa estela, quando conquistou a região. O nome foi traduzido como Israel depois.

*Texto original de Júlio Gralha, publicado em novembro de 2005 na revista Aventuras na História

 

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