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Getúlio Vargas fala em primeira mão sobre os seus anos de governo

euclidesdacunha | 27/04/2012

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Gaúcho, vascaíno, revolucionário e ditador, Getúlio Dornelles Vargas esteve na presidência do Brasil por quase 20 anos. Tomou o poder em 1930, foi eleito indiretamente em 1934 e fechou o Congresso em 1937, inaugurando a ditadura do Estado Novo. Só saiu em 1945, quando se exilou em sua cidade, São Borja. Mas voltou, eleito pelo povo em 1950. Em meio à crise que atingiu seu mandato, avisou que só morto sairia do poder. Às 8h30 de 24 de agosto de 1954, a promessa foi cumprida pela bala de revólver que disparou contra o próprio peito. Aos 72 anos, saía da vida para entrar em História.

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Euclides da Cunha – O senhor ficou 19 anos no poder. Não se cansou de ser presidente?

Getúlio Vagar - Imagine! Eu achava uma delícia. Claro que havia ossos do ofício. O Carlos Lacerda pegando no meu pé, por exemplo, era um verdadeiro saco. Aquele asa-negra foi um dos articuladores do golpe militar de 1964 – e, não fosse minha… “saída estratégica” em 1954, ele teria conseguido seu intento muito antes.

EC – Por “saída estratégica” o senhor quer dizer “suicídio”?

GV - É, isso mesmo. Eu não gosto da palavra, sabe?

EC – Qual foi sua prioridade na política?

GV – Eu tinha um projeto para o país. Queria libertar a nação do modelo agrário-exportador, fundar as bases para o desenvolvimento da indústria, levar o Brasil à modernização. Eu insisti no lance da Petrobras, da Eletrobrás, da Companhia Siderúrgica Nacional e da Vale do Rio Doce.

EC – Entendo. Mudando de assunto, gostaria de saber se a alcunha de Pai dos Pobres lhe agrada?

GV - Eu acho até que bonitinha. Mas foi muito usada pela oposição para fazer graça. Eles começaram a me chamar de Mãe dos Ricos. Como é sabido, implementei muito rápido uma política de direitos para os trabalhadores: décimo-terceiro, férias, salário mínimo, descanso remunerado… Agora, é fácil criticar e desmerecer isso quando você é um intelectual que nunca pisou num chão de fábrica.

EC – O que o senhor achou de Fernando Henrique Cardoso ter dito, em 1994, que a era Vargas havia acabado?

GV - Bah, tchê! Acho ingênuo. O Brasil segue, para o bem e para o mal, baseado nas mesmas políticas de desenvolvimento que eu implantei. As legislações sindical e trabalhista, por exemplo, continuam basicamente as mesmas.

EC – E a famosa carta-testamento? O senhor mesmo a redigiu?

GV - Tem gente que diz que foi um assessor que a escreveu. Mas isso é intriga da oposição. Não que eu fosse lá um grande escritor, mas ocupei até cadeira na Academia Brasileira de Letras. Claro que minha eleição para a ABL foi, em boa parte, iniciativa do cordão dos puxa-sacos. Mas não elegeram o Sarney, anos depois? Parece que os imortais lá gostam de ter um presidente por perto.

EC – O senhor se arrependeu do seu suicí… quero dizer, de sua saída estratégica?

GV - Mas qual! Eu mudei o Brasil. Não fosse meu governo, as pessoas provavelmente estariam morando em uma fazenda e pagando caríssimo por coisinhas bestas, como um rádio ou um aparelho de TV. Me diverti muito com as imitações que o Oscarito fazia de mim, fiquei no imaginário popular, fui tema de marchinhas, livros e séries e batizei avenidas em incontáveis cidades do Brasil. Renunciar é que eu não ia, apesar dos abutres esperarem por isso feito os meus conterrâneos esperam um bom churrasco. Voltei ao Catete nos braços do povo, como havia predito, e só saí de lá morto – também como havia avisado. Sou um gaúcho de palavra. E me orgulho disso.

* Texto original de Clarissa Passos, publicado na revista Aventuras na História em agosto de 2007

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