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Machado de Assis, criador do Realismo brasileiro, fala sobre sua vida e obra

euclidesdacunha | 15/06/2012

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Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre e doente, tinha epilepsia. Neto de escravos alforriados, foi criado no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Ajudava a família como podia, não tendo frequentado regularmente a escola. Sua instrução veio por conta própria, devido ao interesse que tinha em todos os tipos de leitura. Aos 16 anos empregou-se como aprendiz numa tipografia e publicou os primeiros versos no jornal “A Marmota”.

Na década de 1870, publicou os poemas “Falenas” e “Americanas”; além dos “Contos Fluminenses” e “Histórias da meia-noite”. O público e a crítica consagraram seus méritos de escritor. Em 1873, o escritor foi nomeado primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras públicas. Anos depois foi nomeado diretor geral do Ministério da Viação, o que garantiu a sua estabilidade financeira.

Nos anos de 1980, o escritor inaugurando o Realismo na literatura brasileira. Os romances “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881); “Quincas Borba” (1891); “Dom Casmurro” (1899) e os contos “Papéis avulsos” (1882); “Histórias sem data” (1884), “Várias histórias” (1896) e “Páginas recolhidas” (1899), entre outros, revelam o autor em sua plenitude. O espírito crítico, a grande ironia, o pessimismo e uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira são as suas marcas mais características. Em 1897, fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente.

Após a morte de sua esposa Carolina, Machado de Assis fala, com exclusividade, com o GUIA DO ESTUDANTE. Confira.

Euclides da Cunha – Por que o senhor não teve filhos? Foi por não querer legar a eles nossa miséria, como está escrito nas Memórias Póstumas de Brás Cubas?

Machado de Assis - Eu bem que gostaria de ver esta casa movimentada. Desde que minha Carola se foi, nada mais aqui tem graça, nem mesmo as borboletas. Mas quero crer que o senhor não tenha vindo fazer-me perguntas de cunho íntimo.

Euclides da Cunha – Peço desculpas. É que parece haver tanta desesperança em suas histórias… O senhor não acha que a esperança é importante?

Machado de Assis – A esperança é importante, mas pode tornar-se um demônio, uma planta daninha que come o lugar de outras plantas melhores. A esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto.

Euclides da Cunha – Vejo ali um belo espelho emoldurado em madeira e me lembrei do conto O Espelho, em que a imagem do alferes, de farda, se confunde com a imagem real. Por que há tantos espelhos em sua obra?

Machado de Assis – Porque a vaidade é um tema que me fascina. Ela tem mil formas, inclusive a mais comum, a da modéstia. E os espelhos são obras humanas; imperfeitos, como todas as obras humanas.

Euclides da Cunha – O senhor foi um poeta romântico e escreveu alguns livros românticos, em que o coração é guiado por paixões contraditórias. Por que o senhor abandonou o romantismo?

Machado de Assis – Será que o abandonei algum dia? Continuo achando, como escrevi em Ressurreição, que, para um coração desenganado, não há imediatamente compensações possíveis nem eficazes consolações. E que a descrição da vida não vale a sensação da vida. Desculpe-me pelas autocitações. Mas eu mesmo sou exemplo de como é insubstituível a sensação de amar e ser amado.

Euclides da Cunha – Mas o senhor é tido como o escritor que rompeu com o romantismo ao escrever Brás Cubas.

Machado de Assis – É verdade, meu jovem, mas nenhuma verdade é inteira. O romantismo foi meu leite de infância, meu doce licor de juventude. Nunca apreciei o rosbife naturalista, isto sim. O realismo a que aderi em meus anos de teatro não foi uma simples oposição ao romantismo. Entre um e outro tentei trabalhar, pois no homem há lugar para todas as contradições. Os extremos se tocam.

Euclides da Cunha – Daí vem o seu gosto pela ironia?

Machado de Assis – Precisamente. Contraí esse gosto dos gregos decadentes, de Luciano, de Swift e Voltaire, dos céticos e desabusados. Aqui no Brasil não prezam a ironia. Preferem a chalaça, a gozação, que têm plateia cativa. Em nosso país, a vulgaridade é um título, a mediocridade, um brasão. E assim continua no regime republicano.

Euclides da Cunha – Muitos, porém, o acham extremamente melancólico e pessimista.

Machado de Assis – É que eles prefeririam que eu lhes dissesse que está tudo bem. Os otimistas costumam ser bobos. Eu tenho minhas rabugens de pessimismo, mas também tenho momentos de expansão alegre, ao menos na presença dos amigos próximos. De resto, prefiro ser reservado. O estilo não é o homem.

Euclides da Cunha – O senhor foi crítico literário, defendeu a independência da literatura brasileira, fundou a Academia Brasileira de Letras para proteger os escritores da desagregação política. Vê bom futuro para a literatura nacional?

Machado de Assis – Nossa independência não se fará em uma ou duas gerações. Mas o senhor pode observar os livros que têm sido escritos nos últimos dez ou 15 anos, como Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Minha Formação, de Joaquim Nabuco, para encher-se de ânimo. Lá na Academia temos, além desses, nomes como José Veríssimo e Olavo Bilac. Exemplos não faltarão para o futuro.

Euclides da Cunha – Esses amigos e colegas acadêmicos chamam-no de mestre. É bom saber que se tem a reputação de um sábio?

Machado de Assis – Agora, meu rapaz, sou obrigado a concordar com Brás Cubas. É como ele diz: “Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas”. Eu trocaria minha reputação pela vida de Carolina, que era o meu par de botas, senão minha roupa inteira. E aqui sigo aquecendo os pés como posso, suportando os remédios amargos que atenuam meus pecados do corpo. Os da alma não têm cura. A alma é tão sutil e complicada que traz confusão à vista nas suas operações exteriores.

*Texto original de Daniel Piza, publicado na revista Aventuras na História de dezembrode 2005

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Getúlio Vargas fala em primeira mão sobre os seus anos de governo

euclidesdacunha | 27/04/2012

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Gaúcho, vascaíno, revolucionário e ditador, Getúlio Dornelles Vargas esteve na presidência do Brasil por quase 20 anos. Tomou o poder em 1930, foi eleito indiretamente em 1934 e fechou o Congresso em 1937, inaugurando a ditadura do Estado Novo. Só saiu em 1945, quando se exilou em sua cidade, São Borja. Mas voltou, eleito pelo povo em 1950. Em meio à crise que atingiu seu mandato, avisou que só morto sairia do poder. Às 8h30 de 24 de agosto de 1954, a promessa foi cumprida pela bala de revólver que disparou contra o próprio peito. Aos 72 anos, saía da vida para entrar em História.

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Euclides da Cunha – O senhor ficou 19 anos no poder. Não se cansou de ser presidente?

Getúlio Vagar - Imagine! Eu achava uma delícia. Claro que havia ossos do ofício. O Carlos Lacerda pegando no meu pé, por exemplo, era um verdadeiro saco. Aquele asa-negra foi um dos articuladores do golpe militar de 1964 – e, não fosse minha… “saída estratégica” em 1954, ele teria conseguido seu intento muito antes.

EC – Por “saída estratégica” o senhor quer dizer “suicídio”?

GV - É, isso mesmo. Eu não gosto da palavra, sabe?

EC – Qual foi sua prioridade na política?

GV – Eu tinha um projeto para o país. Queria libertar a nação do modelo agrário-exportador, fundar as bases para o desenvolvimento da indústria, levar o Brasil à modernização. Eu insisti no lance da Petrobras, da Eletrobrás, da Companhia Siderúrgica Nacional e da Vale do Rio Doce.

EC – Entendo. Mudando de assunto, gostaria de saber se a alcunha de Pai dos Pobres lhe agrada?

GV - Eu acho até que bonitinha. Mas foi muito usada pela oposição para fazer graça. Eles começaram a me chamar de Mãe dos Ricos. Como é sabido, implementei muito rápido uma política de direitos para os trabalhadores: décimo-terceiro, férias, salário mínimo, descanso remunerado… Agora, é fácil criticar e desmerecer isso quando você é um intelectual que nunca pisou num chão de fábrica.

EC – O que o senhor achou de Fernando Henrique Cardoso ter dito, em 1994, que a era Vargas havia acabado?

GV - Bah, tchê! Acho ingênuo. O Brasil segue, para o bem e para o mal, baseado nas mesmas políticas de desenvolvimento que eu implantei. As legislações sindical e trabalhista, por exemplo, continuam basicamente as mesmas.

EC – E a famosa carta-testamento? O senhor mesmo a redigiu?

GV - Tem gente que diz que foi um assessor que a escreveu. Mas isso é intriga da oposição. Não que eu fosse lá um grande escritor, mas ocupei até cadeira na Academia Brasileira de Letras. Claro que minha eleição para a ABL foi, em boa parte, iniciativa do cordão dos puxa-sacos. Mas não elegeram o Sarney, anos depois? Parece que os imortais lá gostam de ter um presidente por perto.

EC – O senhor se arrependeu do seu suicí… quero dizer, de sua saída estratégica?

GV - Mas qual! Eu mudei o Brasil. Não fosse meu governo, as pessoas provavelmente estariam morando em uma fazenda e pagando caríssimo por coisinhas bestas, como um rádio ou um aparelho de TV. Me diverti muito com as imitações que o Oscarito fazia de mim, fiquei no imaginário popular, fui tema de marchinhas, livros e séries e batizei avenidas em incontáveis cidades do Brasil. Renunciar é que eu não ia, apesar dos abutres esperarem por isso feito os meus conterrâneos esperam um bom churrasco. Voltei ao Catete nos braços do povo, como havia predito, e só saí de lá morto – também como havia avisado. Sou um gaúcho de palavra. E me orgulho disso.

* Texto original de Clarissa Passos, publicado na revista Aventuras na História em agosto de 2007

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