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Alexandre, o Grande dá a sua visão sobre as conquistas da Macedônia

euclidesdacunha | 13/04/2012

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Se nascesse hoje, Alexandre Felipe III seria grego. Mas em 356 a.C., quando veio ao mundo, sua cidade Pela pertencia à Macedônia. Filho do rei Felipe II, Alexandre tomou aulas com ninguém menos que Aristóteles, com quem aprendeu ética e filosofia e que o obrigou, ainda criança, a decorar grandes trechos da Ilíada de Homero.

A precoce morte do pai lançou Alexandre numa carreira meteórica. Com10 anos era rei. Aos 20, chefe do exército. Em seguida, partiu numa campanha militar sem precedentes, que expulsou os persas de seu território e foi além: conquistou um império que ia do Mediterrâneo à Índia. Considerado um dos maiores gênios militares de todos os tempos – jamais teria perdido uma batalha –, ele morreu cedo, aos 32 anos, mas as causas nunca foram esclarecidas. Ele pode ter contraído malária, ter sido envenenado por algum inimigo ou bebido até cair.

Para esta entrevista, o general nos recebeu em seu palácio no outro mundo e comentou a decadência da Mesopotâmia (atual Iraque), que foi centro de seu Império.

EUCLIDES DA CUNHA – Há 2 mil anos, o senhor e seus exércitos varreram a Ásia Menor e o norte da África, conquistaram cada cidade, cada nação do Mediterrâneo ao Afeganistão. Mas escolheu a Mesopotâmia para instalar e construir seu palácio. O que pensa hoje quando vê tanta guerra e tanta destruição em Bagdá, por exemplo? Existe uma solução para os conflitos naquela região?

ALEXANDRE, O GRANDE – A guerra não é exatamente um mal. A guerra é um momento de morte, de violência, sem dúvida. Mas é também um momento de conquista, de confronto entre dois modos de ver o mundo e, se você for um bom vencedor, a guerra pode abrir caminho para uma terceira via. Meu pai dizia que a guerra não é um fim, mas uma renovação de valores, uma abertura para novas ideias se firmarem e ganharem terreno. No caso da Babilônia, no meu tempo pelo menos, ela era inevitável. Há 2 mil anos, ali ficava o centro do mundo. Bagdá não existia, mas a região já era pródiga em grandes e belas cidades. É uma região muito rica, próspera, um ótimo lugar para se morar e trabalhar. É uma pena que tenha encontrado tão poucos momentos de paz.

EC – Mas a invasão no século 4 a.C. não ajudou muito a paz, correto?

AG – Veja, eu não me via como um invasor. Mas um libertador. Os persas também não tinham direito a essas terras. Houve muito combate, mas também houve cidades que nos receberam de braços abertos.

AH – Esse não é um discurso parecido com os argumentos do ex-presidente George W. Bush para invadir o Iraque? O que pensa sobre a presença dos americanos na região?

AG – Pode ser. Mas acho que as coincidências param por aí. Nós lutamos por coisas diferentes. Eu persegui os persas, admito, mas porque eles invadiram as terras de meu pai e de meu povo. Depois, eu nunca pedi a meus homens que fizessem o que eu não faria. Sei que hoje a guerra é muito diferente, mas eu liderei pessoalmente meus exércitos e, quando venci, não os abandonei. Sabia que a Mesopotâmia era importante, era um lugar de história, de tradições milenares. Eu respeitei essas tradições, incluindo o modo deles de fazer política. Fiz alianças com os representantes deles. Casei-me com uma jovem nobre da região e nomeei alguns de meus melhores generais para cuidar das principais cidades. Claro, eram outros tempos. Mas o senhor sabe que construímos muita coisa por lá. Que muita coisa que levamos foi assimilada e ficou para sempre.

AH – O senhor fala como um político. Não fica chateado que seu império tenha se dividido tão depressa?

AG – Olha, uma coisa que eu nunca fui foi político. Quando a poeira assentou e as batalhas acabaram, aí é que vieram os problemas. Eu achava que eram os meus generais que deviam governar. Pois é, eu sou um guerreiro, e os comandantes de meu exército sempre me foram leais, me parecia justo que fossem eles a governar as terras que conquistamos. E foi o que eu fiz. Alguns se deram bem, como Ptolomeu lá no Egito, outros não. Em alguns lugares os nossos ideais persistiram, em outros, logo foram superados.

AH – O que pensa sobre as histórias de homossexualismo envolvendo o senhor? Incomoda-se de falar sobre isso?

AG – Não me incomoda falar disso, não. Acho que cada tempo, cada povo tem seu jeito de ver as coisas. Eu nunca quis que as pessoas pensassem como eu e, embora eu tenha conquistado muitos territórios, procurei respeitar as diferenças entre nós e aqueles que me receberam como aliado. Em relação ao sexo e aos códigos morais acho que acontece coisa parecida. Meus avós provavelmente não tinham a mesma opinião sobre as coisas que eu tenho. Certamente o pessoal lá do século 21 deve ter suas dificuldades para entender o que fazíamos e como eram nossos relacionamentos de amizade, amor e sexo há 2 mil anos. No meu tempo, amar o amigo como a um irmão não provocava espanto. Abraçar e beijar quem você ama também não. E eu nunca me preocupei muito com o que as pessoas pudessem pensar.

AH – Mas o senhor teve relações homossexuais?

AG – Prefiro não responder a essa pergunta. Pois aquilo que eu acho que é homossexualismo, certamente não é a mesma coisa que o senhor ou seus leitores acham que é. Para encerrar o assunto, acho que cada um deve ter o sexo que quer, que pode e que merece.

*Texto original de Celso Miranda, publicado na revista Aventuras na História de 01 de março de 2005

 

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