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José de Alencar conta sobre sua vida e carreira

euclidesdacunha | 18/05/2012

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Filho de um senador do império, José Martiniano de Alencar cursou advocacia, mas logo tornou-se político, jornalista e escritor. Foi nessa última carreira que obteve maior destaque para a posteridade. Considerado o maior escritor do Romantismo brasileiro, Alencar criou uma literatura nacionalista, empregando um vocabulário e uma sintaxe típicos do Brasil e evitando o estilo lusitano, que prevalecia na nossa literatura. Na entrevista a seguir, o autor de O Guarani e Iracema fala sobre sua vida e profissão.

Euclides da Cunha – O senhor é filho de um padre. Mesmo depois de violar o voto de castidade, seu pai continuou exercendo o sacerdócio. Esse estigma contribuiu para que o senhor fosse uma criança tímida, que encontrou nos livros o refúgio contra os que zombavam dessa nódoa familiar?

José de Alencar – Advirto-lhe desde já que a vida privada carece da penumbra e do recato. Posso assegurar, apesar disso, que não receio de modo algum que a devassem. Não encontrarão nela nada que me desonre. Não admito, porém, que se lancem palavras vãs contra um dos mais nobres caráteres que este país já produziu: meu pai, o grande senador Alencar.

Euclides da Cunha – Apenas queria saber o quanto essa circunstância familiar contribuiu para a formação de sua personalidade…

José de Alencar – Realmente, há na existência dos escritores fatos comuns, do viver cotidiano, que todavia exercem uma influência notável em seu futuro e imprimem em suas obras o cunho individual. Mas não é esse o caso. Deixemos de bisbilhotices biográficas. Passemos logo à próxima pergunta.

Euclides da Cunha – O senhor nasceu em uma família de revolucionários. Não considera uma espécie de traição histórica sua militância no Partido Conservador?

José de Alencar – De fato, tive como berço o mais puro liberalismo brasileiro. Minha infância política, também é verdade, foi liberal. O sentimento não mudou, mas a razão se esclareceu. Outrora, liberdade para mim era a eletricidade da multidão. Hoje considero a verdadeira liberdade a felicidade calma e tranquila do povo. Pensando bem, considero-me bem mais liberal do que o senhor, que me recusa o direito de pertencer a um partido porque este não foi o partido de meus antepassados. Ao contrário do que deve ocorrer com o nobre repórter, não admito a herança de convicções.

Euclides da Cunha – Na tribuna da Câmara dos Deputados, o senhor sempre se distinguiu por condenar as propostas para a libertação dos escravos. Não acha que os negros merecem ser livres, iguais àqueles que nasceram com a pele branca?

José de Alencar – Não posso, de modo algum, apoiar uma política que tende a precipitar uma revolução social. É uma questão de princípios: sou a favor da evolução, nunca da revolução. Não basta dizer à criatura: “Tu és livre, vai, percorre os campos como uma besta fera!” Não, meu caro, é preciso esclarecer a inteligência embotada, elevar a consciência humilhada, para que um dia, no momento de conceder-lhe a liberdade, possamos dizer: “Vós sois homens, sois cidadãos!” As reformas são lentas, não são cogumelos, que nascem nas primeiras águas da chuva.

Euclides da Cunha – Muitos acham curioso que, apesar de político conservador, o senhor seja também um escritor inovador para os padrões da sua época. Como o deputado José de Alencar convive, no mesmo corpo, com o autor de folhetins e de comédias teatrais?

José de Alencar – Essa suposta contradição é outra bobagem que tem sido usada com frequência contra minha pessoa. Procuram pôr luz sobre o escritor para desqualificar o deputado. Na Câmara, alguns nobres colegas acusam-me de “conviva das musas”. Não acho que exista um Alencar à parte do outro. Minha literatura é essencialmente nacionalista, assim como meu desempenho parlamentar. Nos dois campos, defendo o Brasil. Aquela contradição que o senhor me atribui é apenas o resultado, não direi de sua ignorância, mas da precipitação com que me faz suas indagações.

Euclides da Cunha – O senhor tem fama de colecionar inimigos. Concorda com os que lhe atribuem a pecha de “encrenqueiro”?

José de Alencar – A inteligência é uma ave altaneira, que plana nas regiões elevadas do pensamento. Não se abate aos ataques pequeninos que sofro e que são, se o senhor me permite o que talvez considere uma frase de folhetim, bicadas de tico-tico. Já se referiram por aí, de forma pejorativa, a tudo o que me diz respeito: meu nascimento, meus hábitos higiênicos, minhas obras literárias e até meu físico pouco avantajado. Não sou encrenqueiro, como imagina o senhor. Apenas revido, com elegância e com estilo, às pedradas que me são atiradas sem elegância.

Euclides da Cunha – Mas…

José de Alencar – Sem mais, meu caro. No certame das idéias, onde combatem as inteligências, assim como nos duelos dos antigos cavalheiros, deve-se manter certa cortesia, certa moderação nas expressões que mutuamente empregam os contendores. Se eu tivesse uma organização robusta, seria um homem de ação. Mas minha organização débil fez-me um homem de idéias. O país precisa de ambos: os primeiros dirigem o presente, os segundos preparam o futuro. Passe bem, meu jovem. Tenho mais o que fazer.

*Texto original de Lira Neto, publicado em abril de 2006, na revista Aventuras da História

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