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Nicolau Maquiavel, autor de O Príncipe, conta sobre os bastidores da política

euclidesdacunha | 10/07/2012

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Originário de uma família decadente, mas antiga, Nicolau Maquiavel teve educação formal e contato com os clássicos ainda na adolescência. Começou sua carreira no governo da República de Florença com a queda de Girolamo Savonarolla. Exerceu cargos governamentais e desenvolveu missões diplomáticas na França, na Santa Sé e na Alemanha. Sua atividade política e diplomática foi, certamente, a base de seu pensamento. Com o fim da república italiana e a volta ao poder da família Médici, Maquiavel é levado a um exílio de oito anos, durante os quais escreveu a maior parte de sua obra, inclusive a principal delas, “O Príncipe”, de 1513. Na volta de seu exílio, consegue entender-se com Lourenço de Médici, dedica sua grande obra para ele e acaba historiador oficial da cidade-Estado.

Nessa entrevista exclusiva, o autor, que em nenhum momento pretendia escrever um manual da tirania perfeita, aponta erros dos governos fracos e dá exemplos de como funcionam os bastidores da política.

Euclides da Cunha: Afinal, o que é melhor: negociar ou pegar em armas?

Maquiavel: Há duas maneiras de combater: uma, segundo as leis; a outra, pela força. A primeira forma é própria dos homens, a segunda, dos animais. Mas, como a primeira frequentemente não basta, é preciso recorrer à segunda. Não há lei nem Constituição que possa pôr um freio à corrupção universal.

Euclides da Cunha: Qual é sua opinião sobre os governos que, em vez de se envolver em guerras, adotam a política da neutralidade?

Maquiavel: De toda a minha experiência nos negócios públicos e de tudo o que li sobre história não consigo me lembrar de um só caso em que a política da neutralidade tenha sido vantajosa. Tais políticas sempre são desastrosas e levam direto à ruína.

Euclides da Cunha: O governante empenhado em conduzir políticas acertadas deve ter isso sempre em mente?

Maquiavel: Não imagine nunca nenhum governo poder tomar decisões absolutamente certas; pense antes em ter de tomá-las sempre incertas, pois isso faz parte da ordem das coisas. A prudência está justamente em conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos prejudicial como sendo o bom.

Euclides da Cunha: Muitas vezes, nessa tentativa de fazer o certo, os governantes passam por cima da Constituição. Por quê?

Maquiavel: Em um Estado bem constituído, não se deve ser obrigado a recorrer a medidas extraordinárias; porque, se as medidas extraordinárias fazem bem no momento, seu exemplo traz um mal real. O hábito de violar a Constituição para fazer o bem autoriza, em seguida, a violá-la para disfarçar o mal.

Euclides da Cunha: Na prática, que o senhor conhece tão bem, é comum alterar a Constituição. Há um modo correto de fazê-lo?

Maquiavel: Quem quiser mudar a Constituição, de maneira que essa modificação seja bem-vinda, deve salvaguardar, ao menos, a sombra das formas antigas, a fim de que o povo pouco se aperceba das mudanças, mesmo que as novas instituições sejam estranhas aos antigos; porque os homens se alimentam tanto de aparência como de realidade; muitas vezes, a aparência os impressiona mais que a realidade.

Euclides da Cunha: A Constituição garante a liberdade?

Maquiavel: Em toda república existem dois partidos, o dos aristocratas e o do povo; e as leis que favorecem a liberdade resultam da luta desses partidos. Todos os legisladores que redigiram constituições sábias julgaram essencial estabelecer uma proteção à liberdade; e, conforme a maior ou menor habilidade com que essa proteção foi criada, a liberdade durou mais ou menos. As graves e naturais inimizades que existem entre as pessoas do povo e os nobres, causadas porque estes querem mandar e aqueles não querem obedecer, são os motivos de todos os males das cidades, porque dessa diversidade de humores se nutrem todas as outras coisas que perturbam as repúblicas.

Euclides da Cunha: Uma vez conquistada a liberdade, a quem se deve confiar sua guarda: às elites ou ao povo?

Maquiavel: Qualquer encargo deve sempre ser confiado a quem tenha menos inclinação a fraudá-lo. Quando o povo recebe o encargo de velar pela liberdade, ele, sendo menos inclinado a invadi-la, dará melhor conta da incumbência; e, também, sendo incapaz de violá-la ele próprio, melhor impedirá que outros o façam.

Euclides da Cunha: Mesmo que se questione as instituições?

Maquiavel: A quem me disser que a grita constante do povo contra o Senado, a indisposição do Senado contra o povo, as correrias nas ruas – a quem me disser que tais fatos são meios estranhos de atingir um fim conveniente responderei que esses mesmos fatos só podem assustar os que apenas os veem e que todo Estado livre deve dar ao povo uma válvula, por assim dizer, para as suas ambições.

Euclides da Cunha: E quando os protestos populares geram violência?

Maquiavel: Quem se der ao trabalho de examinar com cuidado os resultados das agitações, verá que elas jamais foram causa de violências e se convencerá de que, pelo contrário, elas deram de fato origem a leis vantajosas para as liberdades públicas.

Euclides da Cunha: Apesar de crítico da Igreja, o senhor não vê nenhuma atuação positiva em termos de melhorar as coisas desse mundo?

Maquiavel: Se a religião tivesse permanecido fiel aos princípios, os Estados e as repúblicas da cristandade seriam mais unidos. Não há melhor indício de seu declínio do que o fato de que os povos próximos de Roma é que são os menos religiosos. A ponto de que, se confrontarmos os princípios que presidiram a sua criação e o uso que é feito deles hoje, julgaremos próxima a hora de sua ruína ou da calamidade.

Euclides da Cunha: Que conselho fundamental o senhor daria a um governante?

Maquiavel: É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado.

Euclides da Cunha: Para um governante, é preferível ser temido ou amado?

Maquiavel: Eu respondo que é necessário ser um e outro; mas, como é bem difícil reunir as duas condições, é mais seguro se fazer temer que amar. Porque o amor se mantém por um vínculo de obrigações que, já que os homens são pérfidos, é rompido quando se ofereça ocasião de proveito particular; mas o temor se mantém por um receio de castigo, que não se abandona jamais.

*Texto original de Celso Masson, publicado na revista Aventuras na História de setembro de 2005

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