Guia do Estudante

Análise da redação “Consumismo” – tema do vestibular 2013 da Fuvest

Mariana Nadai | 06/03/2013

Na primeira análise de redação de 2013, o GUIA DO ESTUDANTE resolveu fazer algo diferente. Devido a grande quantidade de redações que recebemos, decidimos selecionar duas para serem analisadas pelos professores do cursinho Oficina do Estudante, de Campinas.

Veja a proposta aqui.

A seguir, confira as análises:

Texto 1

“Escravos Capitalistas”

Há na sociedade contemporânea uma problemática que torna-se exponencialmente incontrolável: a combinação entre o consumismo exacerbado e a interferência da mídia no cotidiano de cada cidadão.

Substituímos a compra por necessidade e estamos aderindo a todas as inovações tecnológicas, por pleno prazer e, também, por status. Com a exorbitante otimização em empresas, busca-se promover comodidade e conforto aos consumidores e, portanto, as inovações são intermináveis e á curto prazo, fazendo com que exista uma obrigação em adquirir o melhor produto, o mais avançado, sendo que o antigo na maioria das vezes ainda mantem um bom desempenho funcional.

Além disso, para contribuir com o consumismo, contamos com o capitalismo selvagem, priorizando puramente o lucro e, o papel das mídias que influem no comportamento de cada um: omitir informações a respeito de produtos para que a venda seja realizada com maior facilidade, é um dos artifícios clássicos da propaganda, por exemplo; oferecer facilidade em compras parceladas e omitir juros significantes para consumidores leigos é também outra forma de ostentar o dinheiro.

Assim sendo, com o consumismo incontrolável estamos cada vez mais nos estereotipando como escravos do capitalismo, pois aparentemente só reconhecemos valores materiais e não mais o valor pessoal que cada um carrega consigo, já que não é necessário consumir para adquirir e comprovar uma boa posição social, pois o acúmulo de dinheiro tem nos tornado apenas mais carentes.

Análise texto 1

A dissertação “Escravos Capitalistas” pode ser avaliada como um texto de mediano a bom. Ideias relevantes acerca do recorte temático (consumismo), um considerável desenvolvimento argumentativo e uma adequada coesão entre os parágrafos garantem uma argumentação progressiva razoável. Mas alguns problemas com elementos coesivos (dentre eles, a pouca pontuação) e/ou com escolhas lexicais equivocadas no interior dos segmentos frasais acabam afetando as relações de coerências em “pontos” determinados o que, por acúmulo, prejudica a qualidade da produção.

No primeiro parágrafo, já se nota uma escolha lexical não muito certeira, comprometendo, portanto, a clareza das ideias que estão para serem expostas: em “a interferência da mídia no cotidiano de cada cidadão”, percebe-se, pelo contexto temático proposto pela prova, que a questão não se trata especificamente de “culpa da mídia” na rotina do cidadão, uma vez que esta é apenas um veículo para as grandes empresas, indústrias, lojas e entidades comercias as quais – estas sim – almejam atingir o dia-a-dia dos indivíduos para neles incutir a necessidade da compra.

No final do terceiro parágrafo, tem-se que “é também outra forma de ostentar o dinheiro: a ideia da ostentação do dinheiro parece deslocada, pouco elucidativa. Talvez o autor pudesse ter pensado em “(…) outra forma de incitar ao consumo desnecessário”. No quarto e último parágrafo, a utilização do advérbio “aparentemente” (“pois aparentemente só reconhecemos valores materiais e não mais o valor pessoal que cada um carrega consigo”) deixa a frase ambígua e, portanto, com uma imprecisão nada esperada em um trecho do texto que deveria ser contundentemente conclusivo.

O bom título –“Escravos Capitalistas” – é um dos vários indícios de que a dissertação, se for retrabalhada, repensada e reescrita, tem grandes chances de deixar de ser um texto mediano ou bom para se tornar uma excelente produção dissertativa.

Texto 2

“Consumismo, alienação e sustentabilidade: um novo desafio”

A economia mundial está baseada na obtenção do lucro; e para alcançar tal objetivo as empresas submetem a sociedade ao “vale-tudo” capitalista, no qual consumir é o primeiro mandamento.

Comprar o necessário não condiz com o novo modelo econômico que supervaloriza o status e a aparência em detrimento do essencial. O valor do caráter humano deu lugar à superficialidade presente nas marcas das roupas e nos preços dos carros. Gradativamente, o próprio homem tornou-se um produto da ditadura do consumo. Pessoas felizes, bonitas e satisfeitas fazem parte dos anúncios publicitários, a fim de plantar nos receptores a vontade de comprar e de usufruir da mesma alegria.

São muitas a s armas usadas com o objetivo de conquistar o maior número de clientela possível. O crédito fácil é uma das causas do alto endividamento da população brasileira a qual, na maioria das vezes, adquire mais do que o orçamento permite. As crianças também são alvos diários: os pais acabam substituindo a educação tradicional e a presença familiar pelo brinquedo de última geração que o filho deseja. Assim, esta “doença” perpetua-se iniciando novos ciclos viciosos.

Não há como esquivar-se das propagandas presentes no dia-a-dia, porém a escolha de comprar está no poder de cada cidadão. Saber diferenciar o necessário do supérfluo pode ser difícil, no entanto, diante da situação crítica na qual o planeta encontra-se, todos são capazes de compreender a necessidade de diminuir a produção de lixo. Num mundo onde as coisas são criadas para a obsolescência, é dever do ser humano dizer não ao consumo exacerbado, a fim de construir um planeta sustentável.

Análise texto 2

O texto Consumismo, alienação e sustentabilidade: um novo desafio pode ser avaliado como regular.

Há, nele, boas ideias acerca do recorte temático (consumismo) proposto pela Fuvest 2013: a “superficialidade presente nas marcas das roupas e nos preços dos carros” , ou ainda “o próprio homem tornou-se um produto da ditadura do consumo” são dois bons trechos extraídos do segundo parágrafo. Há também “são muitas as armas usadas com o objetivo de conquistar o maior número de clientela possível”, no início do terceiro parágrafo. Mas o pouco desenvolvimento argumentativo, entremeado por algumas linhas de raciocínio não tão relevantes (a da sustentabilidade é um exemplo) para a abordagem que a proposta exigia, acaba prejudicando esta dissertação.

A ausência de elementos coesivos unindo mais e melhor as partes do texto também constitui outro senão: com problemas na coesão, a argumentação não progride o que, claro, é ruim. Um indício dessa falha argumentativa está na “conclusão” que, efetivamente, quase nada conclui sobre a reflexão que a Fuvest exigia. A parte final da dissertação traz, por exemplo, a ideia de que “saber diferenciar o necessário do supérfluo pode ser difícil”, mas essa linha ideológica (que seria até interessante para o enfoque temático proposto) não foi discutida, não foi elucidada anteriormente: o que é necessário? O que é supérfluo? Qual a relação entre supérfluo e consumismo (tema da prova)? Essas respostas deveriam, mas não estão presentes no texto em questão.

Aliás, nem o que é “consumismo” está bem trabalhado no texto: nele, não há o conceito claro de “consumismo” como um consumo exagerado/desnecessário; não há, portanto, uma explícita e desenvolvida distinção entre “consumismo” e “consumo”. Essa diferenciação está presente apenas de forma tangencial, no segundo parágrafo (“comprar o necessário não condiz com o novo modelo econômico que supervaloriza o status e a aparência em detrimento do essencial”).

Voltando ao último parágrafo como exemplo de falha na estratégia temático-argumentativa, depois de “saber diferenciar o necessário do supérfluo pode ser difícil” tem-se que “no entanto, diante da situação crítica na qual o planeta encontra-se (…)”. Como apontado no início deste comentário, a linha ideológica da “sustentabilidade” – presente, também, no título dado ao texto – diante de tantas outras possibilidades, mostra-se pouco relevante para o bom tratamento temático. Fica até parecendo uma “forçação de barra”, ou seja, fica a aparência de que se utiliza de um assunto – o da sustentabilidade – apenas porque se trata de um tema bastante comentado ultimamente.

Nesta edição de 2013, dada a pouca coletânea oferecida ao candidato, a Fuvest apenas apontou “caminhos” para a reflexão que deveria ser engendrada. Esses apontamentos estavam no segundo parágrafo, no trecho textual posterior à imagem acompanhada dos dizeres publicitários (“Aproveite o melhor que o mundo tem a oferecer com o cartão de crédito X”). Lá, havia a seguinte indicação: “se o observarmos bem, veremos que ele expressa uma determinada mentalidade, projeta uma dada visão de mundo, manifesta uma certa escolha de valores e assim por diante”. Para a produção da dissertação, o aluno teria que ter pensado: qual é a mentalidade expressa pela propaganda? Qual é e como é a visão de mundo projetada? Quais valores estão manifestados, direta e indiretamente, na campanha publicitária? Infelizmente, há pouco, muito pouco dessas respostas em “Consumismo, alienação e sustentabilidade: um novo desafio”.

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