Guia do Estudante

Análise da redação sobre ensino a distância, tema do Vestibular 2010 da UFMG

Ana Prado | 25/03/2013

Veja a análise da redação enviada por um de nossos leitores. Para ler a proposta, clique aqui.

Análise 1

A redação escolhida:

Vale a pena pagar de tão longe?

A procura por ensino à distância vem crescendo muito no país,inclusive mais em relação aos cursos presencias.Mas será que ele é tão eficaz assim,ou é só mais um jeito de instituições ganharem dinheiro,aproveitando-se da “falta de tempo” das pessoas?

Esta resposta é fácil de ser respondida.Não é eficaz!O indivíduo pode até aprender um pouco sobre o curso,mas não terá mesma eficácia do que os cursos presenciais.Não há relação social entre as pessoas que fazem estes cursos,o que conta muito para ser um bom profissional.

Ir uma vez por semana para ter aula,apresentar trabalhos ou fazer provas,não é suficiente.O restante da semana a pessoa assiste às aulas em um DVD.Além do convívio entre os indivíduos do curso ser mínimo,as pessoas não terão tanta responsabilidade em assistir às aulas pelo computador,já que estarão em casa,e não na faculdade.Isto pode gerar preguiça,falta de vontade por parte do estudante.

No curso presencial,ficam só os mais dedicados,independente da distância da faculdade em relação à casa da pessoa,ou até dos horários das aulas,já que o estudante terá que ir até a instituição,pois caso contrário,reprovará o ano por faltas.

O profissional formado por universidades convencionais têm muito mais prestígio,reconhecimento, do que os que se formaram por faculdades à distância, uma vez que, estes criaram responsabilidade, tem maior aprofundamento sobre o curso.A relação custo benefício destes cursos não é satisfatória.

A análise:

A dissertação “Vale a pena pagar de tão longe?” é um bom texto, por estar nele presente uma razoável argumentação a respeito da validade ou não (neste caso específico, o aluno optou pelo “não”) do ensino à distância; ou seja, trata-se de um texto com uma discussão bem adequada ao recorte temático proposto; não há fuga, nem tangenciamento do tema. Acertadamente, o aluno coloca no papel o que, real e efetivamente, interessa para a discussão indiciada pela proposta redacional.

Além do tratamento temático, o aluno acerta ao embasar a sua “resposta” (o ensino à distância não é eficaz) ao que fora “perguntado”. Indícios desse acerto: estão presentes, no texto, fundamentações como a ausência do convívio social, a suposta irresponsabilidade de não assistir às aulas em DVD, a volitiva preguiça, a provável falta de dedicação e, ainda, o desprestígio profissional possivelmente gerado em decorrência de um diploma de ensino à distância. Também de acordo com a argumentação do autor, em sua última frase: “a relação custo benefício destes cursos não é satisfatória”.

A argumentação é boa, mas poderia ser bem melhor se houvesse um desenvolvimento maior das ideias expostas, aliado a um trabalho coesivo e de linguagem provido de mais qualidade: há frases sem a coesão adequada, o que diminui, muitas vezes, a potência que o argumento teria se a linguagem estivesse mais bem cuidada. Em alguns momentos, essa desatenção coesiva gera até mesmo ambiguidade. Exemplo: “Não há relação social entre as pessoas que fazem estes cursos, o que conta muito para ser um bom profissional.” Pode-se interpretar que “o que conta muito para ser um bom profissional” é a ausência da relação social entre as pessoas (“não há relação social entre as pessoas”, no texto) o que, claro, leva a uma leitura equivocada; ou seja, pelo que está escrito, pode-se entender exatamente o oposto do que, provavelmente, o aluno quis dizer.

Os elementos coesivos adequados estão ausentes também entre os parágrafos, o que evita que haja no texto um aspecto muito importante para uma boa dissertação: a progressão argumentativa. Sem a devida ligação entre “as partes do todo”, o texto não flui; sendo assim, o trabalho argumentativo parece não progredir, não caminhar e nem chegar a um desfecho. E por falar em desfecho, eis outro problema da dissertação: não há desfecho, não há conclusão. No texto, não há, no último parágrafo, a retomada do que foi discutido ao longo do texto. O último parágrafo é apenas “mais um”; mais um parágrafo argumentativo; não conclusivo. Uma pena.

Análise 2

A redação escolhida:

Nos dias de hoje a internet vem cada vez mais tomando um papel social imensurável. Uma grande inovação nesse campo, que vem mexendo com opiniões diversas, é a educação à distância. Será que podemos classificar esse novo modo de aprendizagem como verdadeiramente adequado? Ele pode mesmo substituir o papel da escola?

Por mais que a ideia de assistir uma aula no conforto de um sofá ou uma cama pareça tentadora, não é. A relação professor-aluno é fundamental para um bom aprendizado. A relação, o contado direto de indivíduo para indivíduo, é algo que não pode faltar em um vínculo educativo. O foco que se tem quando está em uma sala de aula é outro, totalmente diferente daquele que se tem em casa, onde mil e uma coisas pode levar a distração.

A representatividade da escola em uma sociedade é de uma relevância insubstituível. Além do objetivo principal de ensinar o aluno, de guia-lo para um bom caminho, de ajuda-lo a descobrir que profissão seguir, essa instituição exerce outro papel fundamental: o de integração social. As relações sociais, o respeito, o companheirismo, são coisas que não podem faltar em um bom profissional. A coletividade deveria ser a palavra de ordem.

Portanto, não podemos pensar em alternativas de mudar a forma de ensino. A internet nos proporciona coisas boas, sim, disso todos sabem, mas não tanto quanto o colégio. A praticidade nem sempre é o caminho certo a se guiar. Poderíamos ganhar umas horas a mais nesse cotidiano tão turbulento, mas, sem a concretude de uma escola, ganharíamos muito mais que algumas horas; ganharíamos a vida.

A análise:

O texto “O mundo por uma tela” é uma boa dissertação, pois nela está presente uma boa e clara “resposta temática”: o aluno defende que a educação à distância não é uma boa forma de promoção do ensino. Portanto, o aluno opta por uma possibilidade de tratamento temático que estava dentro do limite do recorte redacional proposto sendo esse – por si só – um ponto bem positivo da produção textual.

Além disso, o trabalho argumentativo feito para sustentar a linha temática é muito bem feito: há embasamento, há explicação, há fundamentação das ideias apresentadas; há, enfim, tudo o que se espera das características tipicamente dissertativas.

Os senões da dissertação estão restritos a deslizes de linguagem: são muitas as passagens com pequenos equívocos de utilização da norma da língua portuguesa. A falta da preposição “a” em “assistir uma aula” ou o erro de concordância verbal e a ausência do acento grave em “mil e uma coisas pode levar a distração” ou ainda a não-utilização do acento agudo em “guia-lo” e “ajuda-lo” são alguns exemplos dessas distrações linguísticas. Nada, claro, que atrapalhe gravemente a boa avaliação que esse texto merece. Parabéns!

As análises das redações foram feitas pela professora Liliane Negrão, do cursinho Oficina do Estudante

Related posts:

  1. Comentário da redação “Sorria, você está sendo filmado” – proposta do vestibular 2010 da UFRN
  2. Análise da redação: “Gerações diferentes se julgam como se fossem do mesmo tempo” – proposta retirada do vestibular 2010 da Unicamp
  3. Análise da redação “Consumismo” – tema do vestibular 2013 da Fuvest

Compartilhe

Comentários: 4 pessoas comentaram

Categoria: Correção

Tags: ,

Comente!