Guia do Estudante

Aventuras na História

Adolescência

Transformações no corpo não levavam a crises de rebeldia e transgressões

Juliana Parente | 01/07/2006 00h00

Pêlos surgindo, espinhas pipocando, mudanças de voz, menstruação. As alterações físicas pelas quais passam as crianças com a chegada da puberdade são, há milênios, idênticas às de hoje. Mas as coincidências param por aí. Por um motivo muito simples: o conceito de adolescência como um limbo entre a infância e a idade adulta não existia até 300 anos atrás.

Os romanos passavam da infância para a idade adulta sem direito a períodos de adaptação ou amadurecimento psicológico. “As mudanças do corpo eram o único termômetro”, diz Pedro Paulo Funari, professor do departamento de História da Unicamp. Para os meninos, o marco era o aparecimento de pêlos. Bastava surgir uns fiozinhos de barba e o garoto era enviado ao Exército, onde ficava até os 35 anos. Nas meninas, a menstruação colocava fim instantâneo à infância: era hora de casar.

Isso não mudou na Idade Média, quando meninos eram tidos como homens pequenos que, para se tornar adultos, só precisavam fazer uma coisa: crescer. “A criança mal adquiria porte físico e era misturada aos adultos, partilhando com eles trabalhos e jogos”, escreve o historiador Philippe Ariès no livro História Social da Criança e da Família. Segundo ele, essa situação duraria até o século 17, quando a escola substituiu o sistema de aprendizagem, baseado na figura dos tutores e mestres de ofício. “As crianças deixaram de ser misturadas aos adultos e apareceram as salas de aula reunindo alunos em faixas etárias e níveis de aprendizado semelhantes.”

“Mesmo isso mudou pouco a vida das meninas, que continuou, até o século 19, dividida em duas fases: antes e depois do casamento”, diz o historiador Luiz Marques, da Unicamp.

Então a adolescência não é natural? Não. No começo do século 20, a antropóloga Margaret Mead realizou um estudo com habitantes de Samoa, na Polinésia. “Ela mostrou que a adolescência, tal como nós vemos hoje em dia, não passa de uma ficção, de uma construção cultural”, explica Sara Albieri, professora do departamento de História da USP. “Margaret provou que a rebeldia e a insatisfação consideradas típicas da idade não fazem parte da natureza humana. Elas são uma experiência social, não fisiológica.”

 

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