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Aventuras na História

Cachaça era moeda oficial do tráfico de escravos negros para o Brasil

Felipe Van Deursen | 01/07/2006 00h00

O produto brasileiro mais conhecido pelos comerciantes de escravos na África no século 17 era a cachaça. A jeribita, um de seus tantos sinônimos, era tão popular no tempo da colônia que Portugal tentou diversas vezes – sempre em vão – coibir sua produção e consumo, para proteger o comércio de suas bebidas típicas – a bagaceira e o vinho. A proibição estimulou ainda mais o tráfico da bebida e, quando Portugal retomou Angola do controle holandês, em 1650, a colônia africana passou a receber um mar de cachaça anualmente.

O historiador Luis Felipe de Alencastro, no clássico O Trato dos Viventes – Formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI e XVII, afirma que, entre 1710 e 1830, um em cada quatro escravos trazidos da África foi trocado por cachaça em Luanda. Juntamente com o tabaco baiano, outro produto usado no tráfico, quase 1 milhão de negros, que tinham contato com a bebida já nos porões dos navios, chegaram ao Brasil.

 

Pinga da boa

Batizada

Segundo Henrique Carneiro, historiador da USP, os traficantes chegavam a misturar água do mar e pimenta na aguardente brasileira antes de chegar a Angola. Tudo para aumentar o volume da bebida que seria trocada por escravos.

Gramática, lisa, Tome-Juízo...

Por estar presente no folclore, na religião, nos costumes e na cultura do Brasil há séculos, a cachaça acumulou centenas de sinônimos (de suor-de-alambique a quebra-munheca). No Aurélio, há 147 termos para a aguardente, enquanto no Houaiss são 420.

Registrada

Para estimular a exportação, há um decreto de 2003 que determina que “cachaça” mesmo é só a aguardente de cana produzida no Brasil. A tequila, feita no México, também tem a proteção de origem garantida. Por isso, dizer “cachaça brasileira” é chover no molhado.

 

No Caribe, negócio era com rum

Felipe Van Deursen

Provavelmente você já ouviu falar que o rum era a principal moeda dos traficantes de escravos nas Américas Central e do Norte. A aguardente típica do Caribe (feita com o melaço da cana, enquanto a cachaça vem da garapa) tinha a mesma função comercial da cachaça, embora poucas pessoas saibam dessa utilidade do nosso destilado. Para Henrique Carneiro, historiador da Universidade de São Paulo e autor de Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas, as poucas informações que existem a respeito “talvez ocorram porque a história oficial buscou ocultar muitos aspectos da escravidão, especialmente o uso de aguardente e tabaco na obtenção dos escravos”.

Para ele, apesar de ignorado pela maioria dos livros didáticos, o tráfico negreiro movido a bebidas ajudou na formação do sistema moderno de comércio mundial.

 

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