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Literatura

"Nação Crioula" - resumo da obra de José Eduardo Agualusa

20/08/2012 16h 00

Nesse romance epistolar, Agualusa ressuscita uma personagem criada por Eça de Queirós, Fradique Mendes, para narrar as contradições e os conflitos das sociedades coloniais.

- Leia a análise de Nação Crioula

Resumo
A história tratada em "Nação Crioula" se desenvolve no período que vai de 1868 com a chegada de Fradique Mendes à Luanda, Angola, até o ano de 1900. Exceto a última carta, que é escrita por Ana Olímpia à Eça de Queirós, todas as demais cartas são de autoria de Fradique Mendes e são endereçadas à sua amante Ana Olímpia, à sua madrinha Madame Jouarre ou a outros amigos. Fradique trata em suas cartas desde assuntos pessoais e íntimos, até eventos políticos e sociais dos países pelos quais passa: Portugal, Brasil e Angola.

Em sua primeira carta, Fradique Mendes escreve à sua madrinha, Madame Jouarre, contando de sua chegada à Luanda. A cidade lhe pareceu confusa, bagunçada, com gritaria de pessoas que caminhavam entre ruas mal empedradas e tortas. Fradique foi recebido pelo coronel comandante das províncias do Bié, Bailundo e Embo (local onde Portugal sequer exercia poder) Arcénio de Carpo, que, apesar do título de coronel, não era militar. Como todos que enriqueceram nessa época em Angola, Arcénio trabalhava como traficante de escravos.

Após um mês de estadia em Angola, Fradique começou a se envolver com os hábitos e costumes locais, deliciando-se com a culinária e divertindo-se com a dança. É apresentado, então, a Gabriela Santamaria, mulher feia e violenta, e seu total oposto Ana Olímpia, a mais bela entre as mulheres. Ana Olímpia nasceu escrava, mas tornou-se uma das mulheres mais ricas, poderosas e respeitadas da Angola.

Fradique Mendes passa a viajar pelo interior da Angola em busca de amigos seus, mas acaba descobrindo um novo mundo, o que o torna cada vez mais aberto às diferenças culturais. Em certo momento, Fradique encontra com um velho que consulta o inkisse, uma espécie de oráculo, e, apesar de achar um pouco estranho, também não desacredita no poder desse instrumento. Para ele, se é possível conversar por telefono, porque não seria possível a um boneco de pau falar?

Ana Olímpia é mais uma vez tornado escrava, visto que após a morte de seu marido, que nunca chegou a lhe dar a alforria, sua propriedade seria transferida a seu cunhado. Então, ela é vendida a Gabriela, que mantinha Ana Olímpia trancada em casa. Algum tempo depois, Fradique consegue salvá-la e os dois fogem para o Brasil.

Os dois chegam em Porto de Galinhas, Pernambuco, em um brigue carregado de escravos cujo nome era Nação Crioula. Os dois partem, então, em direção à Olinda, onde Fradique mais uma vez fica entorpecido com o ambiente. O que mais lhe chama a atenção é que os ricos eram “odiosamente ricos” e o povo, miserável. Do Pernambuco, Fradique parte para o Recôncavo baiano, onde se torna senhor de engenho.

Na Bahia, Fradique convive com remanescentes da rebelião de 1835 e com o velho Cornélio, que sonha poder voltar à África. Com a ajuda de Cornélio, ele passa a tentar entender os motivos da rebelião que abalou Salvador em 1835 e traça um perfil da sociedade que o cerca. Afastado nos engenhos, Fradique sonha em viver tranquilamente com Ana Olímpia.

Porém, após dois meses no engenho, Fradique resolve alforriar todos os seus escravos, o que chama a atenção de diversos abolicionistas. Nesse ponto da narrativa, passa-se a expor os argumentos e ideias centrais dos abolicionistas ao longo do livro. Temendo perder suas propriedades, os coronéis da região juram Fradique de morte. Dessa forma, Fradique entra de cabeça no movimente abolicionista e vai ao Rio de Janeiro e à Europa para denunciar os horrores da escravidão.

De volta à Lisboa, Fradique encontra com seu amigo Eça de Queirós em uma taverna da Mouraria, em meio ao povo cantando fado e cheirando a alho e suor. E assim, Fradique diz que se sente próximo tanto dos melancólicos cavalheiros dos luxuosos salões parisienses, quanto de um canibal do Alto Amazonas. Para ele, Portugal não tem qualquer importância nas colônias africanas, mesmo para os colonos portugueses que para lá foram e acabam por esquecer da terra natal.

O romance se encerra com uma carta de Ana Olímpia à Eça de Queirós datada de agosto de 1900, após a morte de Fradique Mendes. Com um tom que mescla felicidade e tristeza, Ana Olímpia narra dentre outras coisas o final da escravatura.

Lista de personagens
Carlos Fradique Mendes: é uma personagem inventada pelo grupo Cenáculo, do qual Eça de Queirós fazia parte. Seria um poeta satanista a moda de Baudelaire, viajado e culto, estaria sempre a par das novidades da ciência.

Madame Jouarre: grande amiga e confidente, é uma espécie de madrinha de Fradique Mendes.

Arcénio de Carpo: rico traficante de escravos em Angola que sustentava um título de comandante, mas sequer era militar.

Gabriela Santamaria, "Boca Maldita": mulher feia e violenta, que adorava ter criadas brancas.

Ana Olímpia Vaz de Caminha: amante de Fradique, nasceu escrava e se tornou uma das pessoas mais ricas de Angola.

Eça de Queirós (1845-1900): um dos mais importantes escritores do movimento realista português.

Sobre José Eduardo Agualusa
José Eduardo Agualusa nasceu em Huambo, Angola, em 13 de dezembro de 1960. Estudou silvicultura e agronomia em Lisboa, Portugal. Nação Crioula foi escrito através de uma bolsa de iniciação literária concedida pelo Centro Nacional de Cultura em 1997. Com outras bolsas do gênero, Agualusa pode visitar Goa, onde escreveu Um estranho em Goa, e Berlim, onde escreveu O ano em que Zumbi tomou o Rio.

Atualmente escreve crônicas para a revista portuguesa LER e tem um programa de rádio na RDP África chamado “A hora das cigarras” onde fala sobre música e poesia africana. Além disso, escreve para o jornal angolano “A Capital” e é membro da União dos Escritores Angolanos. Juntamente com Conceição Lopes e Fatima Otero, lançou em 2006 a editora Língua Geral, que é dedicada exclusivamente a escritores de língua portuguesa.

Suas principais obras são: "Estação das chuvas" (1996), "Nação Crioula" (1997), "O vendedor de passados" (2004) e "As mulheres do meu pai" (2007). Além de romances, José Eduardo Agualusa escreve também poemas, contos e peças para teatro.

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