Literatura

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Fuvest 2010: A Cidade e as Serras aponta problemas urbanos

Eça de Queirós criou narrador que conta a história de um amigo com toques de fina ironia



A Cidade e as Serras
(1901), de Eça de Queirós, aponta problemas da vida urbana. “Não tão diretamente quanto Capitães da Areia e O Cortiço. Mas fala do jogo de aparências, da infelicidade e de outros temas da cidade”, avalia Fernando Marcílio Lopes Couto, professor de literatura do Sistema Anglo de Ensino.

Único livro de autor português da Fuvest 2010 (além de Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente), A Cidade e as Serras encaixa-se no realismo. O narrador, José Fernandes, conta a história de seu amigo, Jacinto, que vivia infeliz em Paris (apesar de rodeado por riqueza e desenvolvimento). Em dado momento, ele larga tudo e se muda para uma região provinciana de Portugal, onde reencontra sua vitalidade. Essa transição marca o contraponto entre a cidade e as serras, explica Couto.

A linguagem do livro, detalha o professor, caracteriza-se pela ironia que Eça de Queirós empregou magistralmente em toda sua obra. Os juízos de valor emitidos por Grilo, criado de Jacinto, evidenciam essa ironia. “O que ele diz sobre o patrão faz muito sentido: primeiro, diz que ele é infeliz, depois, que renasce”.

Mas José Fernandes também carrega um tom irônico, principalmente quando se refere aos planos de vida que tanto entusiasmam Jacinto. “Isso caracteriza o distanciamento do narrador”, avalia o professor.

Outra peculiaridade do livro, diz Fernando Couto, são os recursos linguísticos destoantes da cena realista. “É extraordinário. O Eça de Queiroz agregou elementos que fogem do realismo convencional. Variou seu estilo, usando expressionismo e impressionismo para descrever a deformação moral dos habitantes da cidade e o ambiente das serras. Fala de cores, de harmonia e do clima”, explica Couto.

Segundo o professor, a intenção de Eça neste livro foi mostrar a “superioridade das serras em relação a cidade”. Nesse sentido, destaca-se a relação de espelho entre os dois mundos por onde Jacinto oscila.

Isso fica claro com a participação das duas ‘Joanas’ no enredo. A Joana da cidade, amante de Jacinto, é superficial e tem comportamento luxurioso. Na serra, “ele encontra outra Joana, que é pura, tem comportamento irrepreensível e não é fútil”, distingue Couto.

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