“Nos silenciosos corredores, onde me era doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde a madrugada, ranchos de operários, de blusas brancas, assobiando o Petit-Bleu, e intimidando meus passos, quando eu atravessava em fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava com perícia algum andaime obstruindo as portas – logo se esbarrava com uma pilha de tábuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente, como num cadáver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os sensíveis nervos de arame, os negros intestinos de ferros fundidos.”
Comentário:
Essa é uma descrição da residência de Jacinto em Paris, no número 202. O local se torna, no decorrer do romance, uma torre de babel: todas as inovações tecnológicas que Jacinto tenta desenvolver falham, operários trabalham sem cessar em reformas cada vez mais complicadas, o destino da casa é explodir. A vida em seu interior, que deveria ser confortável, se torna aos poucos insuportável. No fim, o 202 é comparado a um animal sendo dissecado, uma figura bizarra e híbrida, com “nervos de arame” e “intestinos de ferros fundidos”. “E comer um fruto é saber-lhe o sentido.”
“Nem este meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergéis e lezírias de trinta províncias; e de Bancos em que retine o ouro universal;e de fábricas fumegando com ânsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos ônibus, tramas, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões duma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo – o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver!”
Comentário:
O processo metonímico – representar a cidade apresentando partes dela – é largamente utilizado. A hipálage, característica do estilo do autor, que a usa através do deslocamento do adjetivo, também está presente. Por exemplo, na expressão “fila atroante dos ônibus”, a ordem direta seria “fila dos ônibus atroantes”, o que resultaria em perda estilística. A atribuição de qualidades de seres animados a seres inanimados é comum: “fábricas fumegando com ânsia”. Aí, uma locução adjetiva – “com ânsia” – substitui o advérbio “ansiosamente”, que só pode ser aplicado a seres animados, já que indica um estado psicológico. Esse é mais um exemplo do estilo agudo do autor.
-Confira as fichas dos personagens de "A Cidade e as Serras"