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O Ateneu - resumo e análise da obra de Raul Pompéia

Sérgio, o protagonista, relembra os dois anos em que viveu no internato chamado Ateneu, num texto marcado por características do naturalismo, mas que não se limita a seguir os preceitos desse movimento literário

O Ateneu, livro de Raul Pompéia que tem como subtítulo Crônica de Saudades, foi publicado em folhetins em 1888. Considerada uma das grandes obras da literatura brasileira, narra os dois anos em que Sérgio, o protagonista, vive no internato chamado Ateneu.


A primeira dificuldade na análise do livro é enquadrá-lo numa categoria fixa, ou seja, fazer uma classificação rígida sobre que tipo de romance ele representa. Pode ser considerado desde um relato autobiográfico até um romance de formação, ou ainda uma típica narrativa de cunho naturalista. Vistas isoladamente, no entanto, essas abordagens deixam a dever no entendimento final da obra.

NATURALISMO SUBVERTIDO
De acordo com os preceitos do romance naturalista, ao qual se pode associar o livro, depreende-se em O Ateneu uma crítica feroz às instituições de ensino das elites do século XIX. O colégio é visto como microcosmo da sociedade. Para isso, o narrador utiliza descrições de toda ordem, físicas ou psicológicas, levadas a cabo com rigor e riqueza de detalhes quase científicos.


A narrativa é assim apresentada num movimento linear de fora para dentro, do macro para o micro. É como se o leitor penetrasse em um organismo vivo. Inicialmente, a instituição educacional é mostrada a partir de um foco externo: as festas, os discursos, os ginastas e suas coreografias, a princesa imperial, que prestigiava os eventos, e, principalmente, a figura central de Aristarco, pedagogo e dono do colégio.


Desse ponto de vista, o narrador encara o Ateneu com certa perplexidade e maravilhamento. O colégio não se revela ainda um mundo rebaixado, como se verá mais tarde. Nesse nível, a percepção do que é a escola se situa no âmbito do discurso publicitário, “dos reclames”, no dizer do narrador, o que é sublinhado, de forma irônica, por meio do personagem Aristarco.


Esse primeiro exame dá conta do viés naturalista. Há, porém, um aspecto que deixa a leitura mais complexa. A estética naturalista concebe uma arte na qual o autor assume o papel de observador, daí seu pretenso distanciamento em relação à matéria narrada, para que possa criticar de forma mais adequada as doenças do mundo. Era a maneira – que naquele momento tinha grande prestígio na Europa – de conceber as artes: o artista se coloca como cientista e se isola do mundo por ele examinado.


Em O Ateneu, no entanto, há um narrador-protagonista. O foco em primeira pessoa subverte os preceitos naturalistas, de isenção e distanciamento. Sérgio narra e comenta o mundo narrado. Desse modo, a compreensão sobre o que é o Ateneu se estrutura na obra com as impressões do personagem principal. E, como elemento complicador, isso se realiza pautado na perspectiva adulta. O romance é um relato a posteriori das memórias de Sérgio a respeito dos dois anos em que passou no internato.


Há, então, uma matéria narrada (o mundo do Ateneu), impregnada da consciência, das impressões do narrador, e recuperada por sua memória daquele tempo. Essa atitude literária afasta a obra do modelo clássico de realismo/naturalismo. Por outro lado, o romance abriga vários aspectos naturalistas, como o determinismo, a presença do homossexualismo e os aspectos animalescos (comparações de personagens com animais).

ESPAÇO
A obra é claramente dividida em dois espaços: fora e dentro do colégio. O primeiro é visto como ambiência do mundo natural. O segundo funciona como rito de iniciação, acontecimento traumático por meio do qual ocorre a passagem do universo infantil para o adulto, espaço para a formação do homem.


O Ateneu, contudo, em vez de formar, deforma o homem. Trata-se de uma formação às avessas, ou seja, o que se espera de uma instituição é subvertido por uma educação bárbara. O ensino no colégio é determinado por um espaço no qual impera o ideal da força sobre os mais fracos.

TEMPO
O tempo é dividido em tempo psicológico e tempo vivido. O primeiro é o da memória, manuseado pelo narrador da maneira que lhe vem na consciência. Assim, na narração temos os episódios que ficaram na memória narrativa do autor. Já o tempo vivido se circunscreve linearmente aos dois anos de internato vividos pelo protagonista. Isso garante complexidade à obra e confere maior densidade a sua leitura.

ENREDO
Após a entrada de Sérgio no Ateneu, o local é apresentado de forma minuciosa e estilizada. Há abundância descritiva de detalhes. O narrador se atém a cada episódio, buscando na memória o fio condutor da narrativa. Tudo isso amparado por metáforas e comparações, o que garante uma prosa formalmente hiperbólica, com tom de grandeza, como se o estilo elevasse aquele mundo por meio da linguagem. Assim, a cada episódio são descritos os colegas, os desafetos, os baderneiros, os protetores, os professores, Ema e, principalmente, Aristarco.


As relações entre esses personagens, no relato de Sérgio, formam o Ateneu. Esse, por sua vez, como em O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, funciona na estrutura do livro como personagem. Essa é mais uma das singularidades do romance em relação ao que prescrevia a estética naturalista, para a qual o meio se sobrepunha sempre ao indivíduo, determinando-o, como no caso do citado romance de Aluísio de Azevedo. Em O Ateneu, isso quase sempre ocorre, mas, na caracterização formal que envolve Aristarco e o Ateneu num mesmo grupo de características, o meio e o indivíduo se identificam. Isso torna as forças de determinação do meio quase nulas, colocando em ação a determinação estrutural edificada pelo poder – como acontece na hierarquia institucional, nas relações de trabalho e nas relações sociais.


Aristarco é construído no mesmo processo. Ambos – a escola e seu diretor – são abordados de maneira grandiloqüente, nas comparações com vultos da Antiguidade clássica, deuses e monumentos sacros. No entanto, essa construção mascara um lado torpe. Por baixo da carapaça de uma instituição educacional de renome, há o pior dos mundos, retratado em relações homossexuais degradadas, nas quais os mais fortes subjugam os menores.


Aristarco é visto, inicialmente, como um pedagogo-modelo. Essa imagem, no entanto, como a do próprio internato, não passa de fachada. O diretor é conivente com o ambiente mórbido das relações entre alunos e professores. Tome-se, por exemplo, o caso de Franco, um dos internos, personagem que encarna o aspecto mais doentio do colégio. Abandonado pela família, serve como bode expiatório para Aristarco.


Aristarco e o Ateneu se determinam um em função do outro, tanto no processo de sua construção como na desconstrução, quando tragicamente um interno ateia fogo ao colégio. Ema, esposa de Aristarco, aproveita o momento para fugir e abandonar o marido.



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