Trecho 1
"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.’Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.”
Comentário:
O início de O Ateneu já demonstra a complexidade do livro. Observe-se, por exemplo, a questão do tempo: Sérgio é o narrador adulto e relata os dois anos em que viveu no internato, no passado. A fala do pai a Sérgio, narrador criança, tem uma conotação preventiva e se instala em perspectiva de futuro. Depois dessas idas e vindas temporais, o narrador adulto centra-se no pretérito imperfeito e no presente para repassar, na memória, os maus bocados de sua estada no colégio. Esse efeito só é possível graças à intersecção entre tempo cronológico e psicológico. O primeiro é linear (os dois anos de Sérgio no colégio); o segundo, não-linear, é facultado pelo registro da memória de Sérgio adulto.
Trecho 2
“A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentáculos através do país, que não havia família, de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade doméstica mandar dentre seus jovens, um, dois, três representantes abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.”
Comentário:
Em época de merchandising corrente nos nossos meios de comunicação, O Ateneu, no século XIX, antecipa essa prática. Com discurso publicitário ativo, o colégio arrebanhava estudantes endinheirados de todo o país. Aristarco chega a ser mencionado, no livro, como homem-sanduíche, graças a seu caráter de propagandista e ególatra.
Trecho 3
“Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Pura recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas.”
Comentário:
Ao utilizar essas palavras, no desfecho do livro, o narrador Sérgio sintetiza o tom amargo de suas recordações. Fica explícita a ironia do subtítulo Crônica de Saudades. Com isso, refuta-se qualquer possibilidade de uma leitura nostálgica da infância.