“Foram ter com Maria-Regalada, que mesmo na véspera lhes tinha mandado dar parte que se mudara da Prainha e oferecia-lhes sua nova morada. A comadre, de tudo inteirada, fez parte da comissão. Quando entraram em casa de Maria-Regalada, a primeira pessoa que lhes apareceu foi o major Vidigal, e, o que é mais, o major Vidigal, em hábitos menores, de rodaque e tamancos.
– Ah! – disse a comadre em tom malicioso, apenas apareceu a Maria-Regalada – pelo que vejo isto por aqui vai bem...
– Não se lembra – respondeu Maria- Regalada – daquele segredo com que obtive o perdão do moço? Pois era isto!...”
COMENTÁRIO
Nesse trecho, vemos um exemplo do equilíbrio entre ordem e desordem, entre certo e errado. O major Vidigal, emblema da ordem, aparece na cena “em hábitos menores”: da cintura para cima, era ainda uma autoridade, mas, da cintura para baixo, era um homem em situação constrangedora e imoral, para os padrões da época. A linguagem utilizada nos diálogos é sempre velada ou ambígua. O termo “isto”, usado por ambas as personagens, sintetiza o fato de o major ter libertado e promovido Leonardo em troca dos favores sexuais de Maria-Regalada, que, por sua vez, fala de um “segredo” e do perdão do “moço”, termos genéricos, exemplos típicos de como Manuel Antônio de Almeida soube representar a malandragem nacional.