Literatura

Todos os campos são obrigatórios

Triste Fim de Policarpo Quaresma - trecho comentado

TRECHO
“Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma asneira!”

COMENTÁRIO
Esse trecho, que está no fim do romance, é o clímax da longa reflexão que Policarpo Quaresma tece sobre a própria trajetória. É interessante traçar um paralelo com outro defunto solitário, o machadiano Brás Cubas, que, no último capítulo do livro de suas memórias, afirma: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Em Lima Barreto, porém, essa reflexão perde algo da agudeza irônica de Machado e se deixa contaminar pela expressão de uma negatividade mais prolixa. A chave de ouro das reflexões de Policarpo é a última frase do trecho selecionado, “e sem sequer uma asneira!”, que surge como surpreendente exclamação no momento em que o texto resvalava no sentimentalismo autopiedoso. Fique-se bem entendido: morre sozinho e sem grandes feitos, mas lúcido, absolutamente lúcido.



Ofertas

Nas bancas!