O livro de contos Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles, foi publicado em 1977. Sobre a obra, disse a autora: “São 14 textos que giram em torno de temas que me envolvem desde que comecei a escrever: a solidão. O amor e o desamor. O medo. A loucura. A morte – tudo isso que aí está em redor. E em nós. Quando fico deprimida vejo claramente essas três espécies em extinção: o índio, a árvore e o escritor. Mas reajo: não sei trabalhar sem a esperança no coração”.
O século XX foi marcado por grandes transformações. Na política, houve duas grandes guerras, a emergência do comunismo, a polarização com as potências capitalistas durante a Guerra Fria e inúmeras ditaduras. No campo tecnológico, viu-se o domínio das máquinas, cada vez mais rápidas e eficientes. Nas artes e na cultura, o modernismo e as vanguardas, a psicanálise e a revolução sexual.
Tudo isso irrompeu de forma avassaladora, como a imagem de uma invasão de ratos dispostos a roer as antigas certezas e guinchar novas idéias para um mundo novo. E tudo também diante da perplexidade de seres humanos que, se não possuíam controle sobre sua vida, ao menos conservavam a ilusão disso, pois estavam acostumados a lentas mudanças.
Na obra, Lygia retrata alguns desses conflitos. Seu texto é preciso, busca registrar as situações como uma máquina fotográfica, mas, ao mesmo tempo, está impregnado de humanismo. Com sensibilidade, a autora procura flagrar e revelar a reação dos personagens ante os dilemas e as incertezas de sua relação com os outros e com o mundo.
Em muitas narrativas, Lygia ultrapassa a fronteira do real, rumo ao fantástico. Traz, assim, a reflexão de que os esforços para encontrar explicações sobre certos fenômenos, universais ou individuais, nem sempre levam a conclusões claras e objetivas. Uma das grandes virtudes do livro é imortalizar questionamentos que o pragmatismo da sociedade atual não consegue evitar.
É útil ler algo que a escritora assinalou a respeito de seu ofício: “Um conto pode dar assim a impressão de ser um mero retrato que se vê e em seguida esquece. Mas ninguém vai esquecer esse conto-retrato se nesse retrato houver algo mais além da imagem estática. O retrato de uma árvore é o retrato de uma árvore. Contudo, se a gente sentir que há alguém atrás dessa árvore, que detrás dela alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer, se a gente sentir, intuir que na aparente imobilidade está a vida palpitando no chão de insetos, ervas – então esse será um retrato inesquecível”.
AS FORMIGAS
Trata-se de um conto fantástico no qual duas primas alugam um quarto em decadente sobrado. A narradora é estudante de direito e a outra, de medicina. Na casa, as garotas encontram um caixote cheio de ossos, que a futura médica constata pertencerem a um anão e se propõe a montar o esqueleto. Nas noites seguintes, porém, entre cheiros estranhos, pesadelos e vigílias, o quarto é invadido por formigas, que aparecem e somem misteriosamente e realizam progressivamente a reconstituição do esqueleto na caixa. Diante dessa aterrorizante situação, as primas rapidamente abandonam a pensão.
SENHOR DIRETOR
Maria Emília, senhora solteira, virgem, de moral rígida e solitária, ao completar 61 anos, vê em uma banca uma revista que tem na capa a foto de um casal em pose sensual. Indignada, começa a pensar em uma carta para o diretor de um programa de TV, enquanto reflete sobre sua vida. Em um cinema, relembra a infância e se questiona sobre a validade de uma vida como a de sua amiga Mariana, de 64 anos, que teve vários amores. Cumpre destacar a presença do monólogo interior e do fluxo de consciência, em que a personagem fala consigo mesma sem a interferência do narrador, revelando assim o intimismo. A ação interna, psicológica, impõe-se sobre a externa.
TIGRELA
Nesse conto fantástico, a narradora encontra uma amiga, Romana, em um café, bêbada e desolada por ter se separado do quinto marido. Conta, também, que divide o apartamento com uma tigresa, trazida da Ásia: Tigrela. O nome ambíguo, misto de animal e mulher, revela uma ambigüidade ainda maior, já que o felino apresenta características humanas, como ouvir música, embebedar-se e ter ciúme, principalmente quando Romana parecia se reconciliar com o ex-marido, Yasbeck. Ao final, Romana imagina o suicídio de sua companheira: “Volto tremendo para o apartamento porque nunca sei se o porteiro vem ou não me avisar que de algum terraço se atirou uma jovem nua, com um colar de âmbar enrolado no pescoço”.
HERBARIUM
Em primeira pessoa, o conto relata a paixão de uma pré-adolescente por um primo botânico, mais velho e doente. Para conquistar seu amor, a menina muda de comportamento, prometendo, por exemplo, não mais mentir. Num bosque, procura folhas de plantas para ele. No entanto, uma moça muito bonita vai buscar o rapaz. A narradora, que havia encontrado um tipo de folha rara, por pirraça e/ou ciúmes, resolve escondê-la. No final, acaba lhe entregando a folha. Diante da impossibilidade do amor, a menina cede a folha como se, simbolicamente, estivesse abrindo mão dessa primeira paixão, o que ilustra também um princípio de maturidade.
A SAUNA
O protagonista, pintor bem-sucedido, mergulha em seus pensamentos na busca do autoconhecimento. É casado com uma mulher rica, Marina, que o acusa de nunca ter amado ninguém de verdade. Em uma sauna masculina, ele reflete sobre isso, lembrando-se de uma ex-namorada, Rosa. Recorda que chegou de Goiás, pobre, recebendo a ajuda de um amigo, e roubou-lhe Rosa. Seu desvio de caráter se torna mais evidente quando manda um tio cego da garota para um asilo, com a intenção de usar seu quarto como ateliê. Em um fluxo de consciência intenso, relembra ter tido amantes, negligenciado Rosa, o que a fez ficar deprimida e comer excessivamente, tornando-se obesa. Depois de engravidá-la, obriga-a a abortar e a vender a casa para que, com o dinheiro, ele pudesse fazer um curso de pintura na Europa. Finalmente, abandona-a para se casar com Marina, por interesse financeiro. Ao final, depois de ter chorado no vapor, sai mais leve.
POMBA ENAMORADA OU UMA HISTÓRIA DE AMOR
Tudo começa quando, em um baile da primavera, uma garota romântica se apaixona perdidamente por um homem rude e grosseiro, Antenor. A partir daí, as coisas dão sempre errado para a pobre “Pomba”, que passa a ser rejeitada constantemente pelo alvo de seus afetos. Telefonemas, convites para ir ao cinema, simpatias e feitiços, tentativa de suicídio, tudo inútil, pois Antenor já está comprometido e não quer nada com ela. Ambos casam-se com outras pessoas e tocam a vida sem manter contato. Anos depois, já avó e idosa, a mulher consulta uma cigana que prevê a chegada de seu verdadeiro amor na rodoviária, em um domingo.
WM
Num primeiro momento, o narrador Wlado parece acompanhar, cheio de zelo, a irmã Wanda ao médico. O casal é filho de uma atriz, Webe. À medida que os fragmentos que compõem as lembranças de Wlado se organizam, porém, descobre-se que, na verdade, Wanda morrera ainda na infância. Pouco antes, ela o ensinara a escrever a letra W, como um M ao contrário. A partir da morte da irmã, Wlado parece desenvolver uma obsessão pelas duas letras, riscando-as constantemente em todos os lugares, mas sempre atribuindo esses gestos à menina morta. No final, constata-se que ele sofre de esquizofrenia. O paciente do doutor Werebe não era Wanda, e sim Wlado, internado num hospital psiquiátrico após assassinar, com cortes formando as iniciais WM, a namorada chinesa Wing.
LUA CRESCENTE EM AMSTERDÃ
Lygia mostra, nesse conto, o desgaste da relação amorosa. A narrativa enfoca um casal, faminto, pois ambos abriram mão de tudo por amor e resolveram se aventurar pelo mundo. Em uma praça de Amsterdã, veem uma menina que segura um pedaço de bolo. Ela foge, assustada, por não entender a língua do casal. Depois de uma discussão entre os namorados, os dois decidem dormir no banco da praça. Contudo, o maravilhoso ocorre e, quando a menina retorna com o bolo, não encontra na praça os amantes, mas um passarinho (ele) que bica uma borboleta (ela).
O X DO PROBLEMA
É uma crítica à alienação. Uma família pobre vê um programa de televisão que promete dar 1 milhão se o personagem Aryosvaldo acertar as respostas a determinadas perguntas. A ironia é percebida quando se descobre que a família mora em uma casinha simples, alagada pela enxurrada. O aparelho de TV está com a imagem ruim, e a grande preocupação é com a torcida pelo participante do programa televisivo.
A MÃO NO OMBRO
Um homem sonha que a morte põe a mão em seu ombro. Depois de uma manhã com a família, atento aos pequenos detalhes do dia-a-dia, quando entra no carro, para sair, eis que o sonho invade a realidade e ele sente o ombro tocado de leve.
A PRESENÇA
Um jovem se interessa em ficar em um hotel. Apesar de o funcionário avisá-lo de que ali só se hospedavam idosos, o rapaz, quase de forma provocativa, insiste em permanecer. A reação contra o intruso se dá de forma inusitada: os velhos começam a envenená-lo.
NOTURNO AMARELO
Laura é uma mulher perseguida pela consciência. Aparentemente, causou sofrimento a muitas pessoas e agora uma vida maçante faz com que tente acertar as contas com seus fantasmas. A avó, a quem nunca visitava, compondo ao piano a música que dá título ao conto, a peça de xadrez que roubou do avô, assim como o namorado, Rodrigo, que tomou da prima Eduarda, para depois abandoná-lo à bebida, são algumas das contas que parecem estar sendo acertadas.
A CONSULTA
Conto em que predomina o humor. O doutor Ramazian, precisando se ausentar, e sem sua secretária, pede a Maximiliano que atenda os telefonemas e anote os recados. Um paciente, com medo patológico da morte, antecipa a consulta, fazendo com que Max finja ser o doutor. Ocorre que Max também era um paciente. E, embora relativamente coerentes, os conselhos que dá ao interlocutor não são nada recomendáveis: sugere que ele se mate para superar o temor da morte.
SEMINÁRIO DOS RATOS
É uma crítica à ineficiência dos órgãos públicos. O conto inicia-se com uma epígrafe de Carlos Drummond de Andrade: “Que século, meu Deus! – exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício”. De fato, na narrativa, os ratos devoram tudo – comida, pessoas, roupas, móveis. Depois que alguns integrantes do poder público se reúnem em uma mansão restaurada para resolver o problema dos ratos, apenas um homem escapa do ataque, pois se abrigou em uma geladeira. Enquanto isso, a burocracia se empenhava em criar mecanismos para exterminar os roedores.