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Antecedentes da Revolução Russa: a era das contradições

Quanto mais os capitalistas ganhavam dinheiro, mais os trabalhadores eram explorados. Desse conflito nasceriam o marxismo e as revoluções socialistas

Em 1917, o povo russo, conduzido por uma vanguarda revolucionária, destronou seu czar, eliminou o caráter oficial de sua igreja e expropriou sua aristocracia. Com a revolução, a Rússia punha fim a sua Idade Média, colocando no lugar do imperador absolutista um governo de trabalhadores. As origens e influências de tal movimento vieram principalmente dos países europeus, que – já havia quase dois séculos – experimentavam as conseqüências do desenvolvimento do capitalismo.

A França foi um dos primeiros países a ter uma burguesia forte e endinheirada no poder. A Revolução de 1789 acabou com o Antigo Regime e deu lugar aos ideais do liberalismo clássico. As exigências dos burgueses foram delineadas na famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. E a propriedade privada passou a ser entendida como direito natural, sagrado, inviolável e inalienável. Três semanas após a Queda da Bastilha, em 14 de julho daquele ano, toda a estrutura social do feudalismo francês simplesmente ruiu, acompanhada da máquina estatal da realeza.

Embora tenha consolidado o capitalismo precocemente, a França não foi o primeiro país a destruir o Antigo Regime. Mais de um século antes, a poderosa Inglaterra já havia julgado e executado seu primeiro rei. Com burgueses ricos no comando do governo, o lucro privado e o desenvolvimento econômico haviam sido aceitos como supremo objetivo da política governamental. Na segunda metade do século 18, portanto, os britânicos estavam cheios de dinheiro e ávidos por novas experiências.

Foi então que os primeiros ricos aventureiros decidiram investir na indústria de algodão. O negócio era vantajoso, pois a matéria-prima vinha toda das colônias britânicas a um preço bem baixo. O país estava tão ansioso por um novo boom comercial que bastaram alguns inventos – como a máquina de fiar, em 1767 – para que a Inglaterra desse início a um surto industrial.

O algodão manufaturado passou a ser vendido pelos ingleses para o resto da Europa e para todas as colônias. Em 1833, essa indústria já empregava 1,5 milhão de pessoas diretamente. À invenção da máquina de fiar, seguiram-se outros aprimoramentos. A ferrovia e as máquinas a vapor proporcionariam um incrível impulso à industrialização, que se propagaria para outros setores da economia e outros países. Estava em curso uma revolução nas formas de trabalho.

Resistir ou resistir

A Revolução Industrial possibilitou aos capitalistas produzir mais e com menor custo, o que aumentava suas margens de lucro. E, quanto mais dinheiro os burgueses ganhavam, mais investiam em novas produções. A técnica mais comum e amplamente usada para multiplicar o ganho era reduzir ao máximo o valor dos salários pagos aos operários – o ideal era que eles recebessem o mínimo para a sobrevivência. Um erro nesses cálculos resultou, em 1795, na morte de 500 mil tecelões manuais em Bolton, na Inglaterra.

Aos trabalhadores, que não tinham propriedades nem capital para investir, sobrava a opção de vender a única coisa que lhes restava: sua força de trabalho. De acordo com Eric Hobsbawn, em seu livro A Era das Revoluções, eram três as possibilidades dos pobres na época: “eles podiam lutar para se tornarem burgueses, permitir que fossem oprimidos ou se rebelar”. Com a dificuldade de enriquecer e com o aumento sucessivo da exploração, a saída mais próxima era a temida revolução.

A revolta dos trabalhadores contra a exploração imposta pelo capitalismo tomou forma já no começo do século 20. As primeiras manifestações, contudo, foram ingenuamente organizadas contra as máquinas. Era o movimento luddista, que pregava o fim dos equipamentos por considerá-los os verdadeiros causadores do desemprego.

A condição deplorável do operariado era conhecida e estudada desde muito antes. Na Alemanha, o crescente empobrecimento da classe operária foi tema de pelo menos 14 publicações em 1830. Intelectuais como Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier elaboraram as primeiras teorias socialistas. Mas, ao propor projetos ideais para a construção de uma sociedade futura, os estudos distanciaram-se da prática. E esses estudiosos acabariam ficando conhecidos como socialistas utópicos.

Com o passar do tempo, os trabalhadores começaram a amadurecer suas idéias e a fazer exigências concretas. Em 1838, o movimento operário cartista elaborou um documento em que a principal reivindicação era sufrágio universal e voto secreto. Seus integrantes acreditavam que, indo às urnas e podendo votar em quem quisessem, seriam capazes de introduzir as mudanças desejadas por meio da lei. Naquela época, os primeiros sindicatos foram formados e as possibilidades de revolta aumentavam.

Dez anos mais tarde, em 1848, as massas mostraram seu poder. Revoluções de cunho liberal tomaram a Europa. Conduzidas pela burguesia, elas tinham os trabalhadores em suas linhas de frente. Mas as classes operárias ainda careciam de liderança e alicerce político-ideológico. Mesmo os sindicatos estavam restritos a poucas centenas ou milhares de associados.

A solução marxista

Já naquela época, uma nova forma de pensamento surgiu na Europa. Mais maduro e concreto que a versão utópica de Robert Owen, o socialismo científico proposto por Karl Marx atraiu os trabalhadores. Marx propunha a destruição do capitalismo por uma revolução armada, que levaria à instauração de uma ditadura socialista. Nesta fase, a propriedade privada desapareceria e os meios de produção seriam coletivizados, criando o que Marx esperava que fosse uma sociedade sem classes. Quando a revolução se estendesse a todos os países, seria possível suprimir o Estado e estabelecer uma sociedade inteiramente igualitária: a sociedade comunista.

O Manifesto Comunista, publicado em 1848 por Marx e Friedrich Engels, pedia aos operários do mundo todo que se unissem contra a exploração. Assim, teve início a internacionalização do movimento, que permitiu uma intensa troca de idéias e experiências. Em 1864, uma reunião de comunistas de vários países culminou na criação da chamada Primeira Internacional Comunista. Liderada por Marx, a organização inspirou partidos e lideranças políticas mundo afora, que passaram a empreender suas próprias lutas nacionais. Esta foi, inclusive, uma data importante para o movimento na Rússia, que, naquela época, estava ainda criando raízes. De acordo com o pós-doutor em História e professor da Universidade de São Paulo Osvaldo Coggiola, “a criação da Internacional encorajou a criação do Partido Operário Social-Democrata Russo, em 1898”.

Já em 1871, os comunistas, aliados aos socialistas utópicos e a uma facção de esquerda ainda mais radical, os anarquistas, realizaram aquela que se tornou a maior insurreição proletária antes da Revolução Russa de 1917: a Comuna de Paris. Ao negar a derrota na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), os operários parisienses tomaram a cidade. Mas o poder durou pouco nas mãos dos revoltosos. Quase duas semanas após sua proclamação, em 18 de março, a Comuna já havia perdido a iniciativa. Ainda assim, disseminou pânico e histeria, graças, principalmente, à reação da imprensa internacional, que a acusava de expropriar os ricos e provocar massacres generalizados.

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Corrida capitalista

Naquele final de século 19, uma forte depressão econômica abalava as potências da Europa – que procuravam urgentemente investimentos externos para assegurar o retorno de seu capital. Essa era a chance de que o Império Russo precisava para dar início a seu tardio processo de industrialização. “Havia uma espécie de corrida pela colonização econômica da Rússia, principalmente entre a França e a Alemanha”, explica Coggiola. Com o capital de investimentos europeus (principalmente franceses), injetados na década de 1870, a Rússia pôde montar suas primeiras indústrias. Sua burguesia finalmente entraria na era da Revolução Industrial – e assistiria ao nascimento de uma nova classe, o proletariado.

Boa parte dos operários de países como Inglaterra, França e Alemanha, àquela altura, já pareciam “anestesiados” pelos regimes liberais. Eles haviam sucumbido, por exemplo, ao sistema de representação parlamentar adotado nessas democracias. Na Rússia, onde não havia essa tradição e tampouco era possível introduzir reformas por procedimentos constitucionais, a situação radicalizou-se.

Os dirigentes do movimento operário russo sabiam que, para obter reformas, era preciso acabar com o regime existente. E isso não se daria sem violência. A revolução proposta por Marx e Engels no Manifesto Comunista poderia ser levada a cabo, quase na íntegra, pelos trabalhadores. Afinal, eles não teriam quase nada a perder. Correriam, no máximo, o risco de ir parar na cadeia. Em compensação, teriam um mundo inteiro a ganhar se saíssem vitoriosos da empreitada.

O tempo não para

Da máquina de fiar à Revolução Russa: o tortuoso caminho da classe operária rumo ao paraíso

1767 – MÁQUINA DE FIAR

A invenção do carpinteiro inglês James Hargreaves agilizou em 30 vezes o processo manual de produção têxtil. Simples e barata, permitiu que os industriais produzissem mais e com custos menores. Para obter lucro recorde, os capitalistas diminuíam ao máximo o salário dos operários – obrigados a trabalhar cerca de 14 horas diárias, sem descanso. Nas fábricas, mulheres e crianças também eram empregadas, com salários ainda menores.

1799 – SOCIALISMO UTÓPICO

O homem que criou a palavra “socialismo” era um visionário. Aos 40 anos, o britânico Robert Owen comprou uma fábrica de tecidos na Escócia. Sua intenção, ao contrário dos outros industriais, era mostrar como lucrar sem explorar os trabalhadores. Seus empregados trabalhavam apenas 10 horas por dia e tinham benefícios – boa moradia e escola para os filhos. Ele repetiu a experiência nos EUA, mas não teve o mesmo sucesso. Na volta ao Reino Unido, em 1828, seguiu com seus estudos sobre socialismo, criando os trade unions – primeiros sindicatos britânicos. Esse idealismo rendeu-lhe – assim como a outros pensadores, entre eles Saint-Simon e Charles Fourier – a alcunha de socialista utópico.

1811 – LUDISMO

Entre 1811 e 1816, um grupo de trabalhadores ingleses liderados por um homem de pseudônimo Ned Ludd rebelou-se contra o desemprego e decidiu destruir todas as máquinas têxteis. Os chamados ludistas acreditavam que os equipamentos eram os maiores responsáveis por todas as suas mazelas. Homens de negócios e fazendeiros acabaram simpatizando com a causa, já que não viam tantas vantagens na industrialização da economia. O ápice do movimento ocorreu em 1812, quando o industrial William Horsfall foi assassinado pelo grupo.

1838 – CARTISMO

Surgido na Inglaterra, foi o primeiro movimento político da história organizado por operários. A pressão dos cartistas, liderados por William Lovett, conseguiu transformar em lei várias reivindicações da classe trabalhadora – entre elas sufrágio universal e voto secreto. Em 1839, o movimento foi abalado com o esmagamento de uma revolta em Newport e o banimento de seus líderes.

1848 – MANIFESTO COMUNISTA

Em fevereiro, os pensadores alemães Karl Marx e Friedrich Engels publicam o Manifesto Comunista, obra na qual defendem a seguinte idéia: quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais se aproxima uma inevitável revolução operária. Segundo os autores, a internacionalização desse movimento revolucionário conduziria ao comunismo – uma sociedade sem classes, com todos trabalhando e recebendo de acordo com suas habilidades e necessidades.

BARRICADAS EM PARIS

Cinco meses depois, em junho de 1848, os trabalhadores de Paris tomaram as ruas, decididos a acabar com o Antigo Regime. Bem organizados, eles armaram barricadas em pontos estratégicos da cidade. Mas acabaram sendo brutalmente esmagados pelo Exército. A rebelião terminou com um saldo de 10 mil mortos.

1857 – MASSACRE EM NOVA YORK

Pela redução da jornada de trabalho, 129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton, em Nova York, cruzaram os braços – a primeira greve nos EUA conduzida apenas por mulheres. Reprimidas pela polícia, as operárias refugiaram-se dentro da fábrica. Os patrões mandaram trancar as portas e os policiais ajudaram a atear fogo no prédio. Todas morreram carbonizadas. Mais tarde, a data dessa tragédia – 8 de março – seria transformada no Dia Internacional da Mulher.

1864 – PRIMEIRA INTERNACIONAL

Com a ajuda de Marx, é fundada em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), ou Primeira Internacional Socialista. A entidade reunia vários grupos de esquerda e sindicatos. O objetivo era guiar os operários, conferindo-lhes consciência de classe e afastando-os dos partidos burgueses. Disputas ideológicas – principalmente entre o comunista Marx e o anarquista Bakunin – acabam por arruiná-la. Em 1872, teve sua sede transferida para os EUA. E foi dissolvida quatro anos depois.

1867 – O CAPITAL

Neste ano, Marx publicou sua obra mais famosa. O livro é uma análise do sistema capitalista obtida por meio de uma abordagem filosófica incomum: a mistura de ciências economias, história e sociologia. Escrito em alemão, o livro foi rapidamente traduzido para diversos idiomas – o primeiro deles, russo.

1871 – COMUNA DE PARIS

No dia 18 de março, Paris acordou sob gritos de “Viva a Comuna!”. Ao negar a derrota na Guerra Franco-Prussiana, os operários tomaram a cidade e decretaram: dali em diante, o regime seria socialista. Seguiram-se dois meses de guerra com o Exército, que acabou por esmagar o movimento. Embora fracassada, a Comuna de Paris serviu de referência para muitos revolucionários que vieram mais tarde. Lenin, depois de liderar a Revolução Russa de outubro de 1917, contaria os dias até poder finalmente comemorar: “Já duramos mais do que a Comuna!”.

1886 – GREVE GERAL EM CHICAGO

No principal centro industrial dos EUA, cerca de 800 mil operários – de diferentes fábricas – resolveram parar em protesto contra as péssimas condições de trabalho. Bem organizados em sindicatos, eles faziam as reivindicações costumeiras, entre elas a redução da jornada diária para oito horas. A greve foi violentamente reprimida. E a data – 1º de maio – passou a ser considerada o Dia do Trabalho.

1889 – SEGUNDA INTERNACIONAL

A facção marxista da extinta AIT funda a Segunda Internacional, reunindo socialistas, sociais-democratas e trabalhistas. A organização envolveu-se profundamente nos assuntos de interesse dos trabalhadores em cada país. Adotou a luta pelas oito horas de jornada diária. E decidiu transformar o 1º de maio em Dia Internacional do Proletariado.

1917 – REVOLUÇÃO RUSSA

A revolução proletária prevista por Marx e Engels acontece na Rússia. Trata-se do primeiro levante operário vitorioso do mundo – um acontecimento que alterará o curso da história e determinará o destino de milhões de pessoas durante o século 20.

Saiba mais

A Era das Revoluções, Eric Hobsbawn, Paz e Terra, 2007

Escrito por um dos mais importantes historiadores do mundo, o livro descreve a vida européia entre 1789 e 1848, analisando causas e conseqüências das revoluções Francesa e Industrial.

Rumo à Estação Finlândia, Edmund Wilson, Companhia das Letras, 2006

A obra mais importante do historiador americano é um estudo das teorias revolucionárias européias, da Revolução Francesa até a revolução Russa, em 1917.

*Matéria publicada na revista Aventuras na História em outubro de 2007