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Entenda o contexto histórico da Crise de 1929

A quebra da Bolsa de Nova York marcou o fim de uma era de euforia e prosperidade e preparou o cenário para uma depressão que culminaria na 2ª Guerra Mundial

Como fazia toda quinta-feira, naquela manhã de outubro de 1929 o mítico bilionário do petróleo John Rockefeller encontrou seu engraxate, com quem gostava de conversar sobre trivialidades. Enquanto lustrava o couro, o garoto olhou para o homem mais rico do mundo e disparou: “Fiquei sabendo de uns papéis que vão subir pra valer, senhor”. Rockefeller dobrou o jornal, fitou o guri e, ao voltar ao escritório, vendeu boa parte de seus papéis na Bolsa de Valores de Nova York. “Se o menino que lustra seus sapatos sabe tudo sobre o mercado, então algo muito errado está acontecendo”, afirmou.

Uma semana depois, no 24 de outubro que ficou conhecido como “quinta-feira negra”, a Bolsa da metrópole americana iniciava uma traumática queda, levando milhares de pessoas à falência. Bancos e indústrias foram arruinados. Pequenos investidores também foram à bancarrota. Eram professores, garçons, datilógrafos. Gente que havia sido atraída para o mercado de ações numa época de deslumbramento: os loucos anos 20.

É bastante provável que a história de Rockefeller, que se safou razoavelmente ileso da quebra (ou crack, em inglês, como o episódio ficou conhecido), seja lenda – criada por ele ter sido um dos poucos investidores a não perder muito dinheiro. Fato é que, três anos depois, engraxates como o do bilionário eram a profissão que mais crescia em Manhattan. O jornal The New York Times registrou que, além dos cerca de 7 mil garotos lustrando sapatos para ajudar a família (cena praticamente inexistente no verão de 1929), havia uma multidão de camelôs vendendo gravatas baratas, balões coloridos e toda sorte de bugigangas. Nova York vivia seus dias de Terceiro Mundo. A Grande Depressão assolava a América.

Loucura, loucura

Quando a Primeira Guerra terminou, em 1918, a Europa estava devastada e suas potências, enfraquecidas. Os Estados Unidos, já o país mais rico do mundo, passaram a suprir o continente de manufaturas e alimentos. Durante praticamente toda a década de 20, o aumento da produção gerou crescimento e prosperidade ao país, que dominou outros mercados, como a América Latina. Era tão grande o otimismo que se acreditava estar diante do fim da era dos ciclos econômicos – o vaivém da economia, períodos de recessão entre épocas de expansão, que ocorreram diversas vezes ao longo da história.

O governo facilitava a economia liberal, sem interferências, reduzindo impostos. Calvin Coolidge, eleito presidente americano em 1924, disse que “o negócio dos Estados Unidos são os negócios”. Com o mercado livre, leve e solto, surgiu uma nova moda, ao lado do Ford T e do jazz de Duke Ellington: investir em ações. A oferta de produtos como carros e eletrodomésticos só aumentava e empréstimos e vendas a crédito se popularizaram para ajudar as pessoas a comprar cada vez mais.

No meio da década, a Europa voltou a competir por clientela e a produção americana ficou superaquecida. Não havia consumidores para tanta oferta. Mas o otimismo não foi contido, afinal a “mão invisível” do mercado sempre se adaptaria para manter o país no rumo do crescimento. Em um discurso de 1928, o novo presidente, Herbert Hoover, declarou: “Estamos hoje mais próximos do triunfo final sobre a pobreza do que já esteve qualquer outra terra na história”.

Em 1928, a valorização das ações começou a dar passos bem mais largos do que o crescimento da própria economia. Novas tecnologias, como radiodifusão e carros, eram as queridinhas dos investidores. Uma ação da Radio Corporation of America, que em 1921 custava 1,5 dólar, valia 57 vezes mais sete anos depois. A especulação galopava. Em Salve-se Quem Puder, o historiador inglês Edward Chancellor afirma que em 1929 “os especuladores se tornaram surdos aos alertas. (…) Em vez de raciocinar, eles se alimentavam dos crescentes boatos sobre riquezas fabulosas ganhas no mercado acionário por motoristas, vaqueiros, atrizes”.

Em setembro, o índice Dow Jones, de avaliação do mercado, registrou seu pico máximo no ano e o mercado começou a sentir que uma queda se aproximava. O volume de negócios diminuiu até a situação se tornar insustentável. “Houve uma crise financeira, da bolsa, e uma econômica, de produção e força de trabalho”, explica o historiador Wagner Pinheiro Pereira, autor de 24 de Outubro de 1929. “A crise levou acionistas a colocar ações à venda. Com excesso de ações e poucos compradores, o preço caiu, arruinando as pessoas. Sem recursos, as empresas demitiram. Bancos e fábricas faliram, e os efeitos se espalharam pelo mundo.” O triunfo de Hoover nunca chegou. Mas o pior ainda estava por vir.

O ex-ministro das finanças do Reino Unido, Winston Churchill, dono de algumas ações em Wall Street, visitou a Bolsa naquele fatídico 24 de outubro. Presenciou um pânico silencioso – naquela época, não era permitido gritar ou correr no pregão –, mesmo sem o dia ter registrado nenhuma falência de grande empresa. O medo estava no ar pela simples queda dos preços das ações. Uma multidão nervosa se acotovelava do lado de fora, quando um homem subiu no alto de um prédio. O nervosismo aumentou. À toa, pelo menos naquele momento: era só um operário fazendo consertos de rotina. Porém, naquele dia foram registrados 11 suicídios, como o de uma funcionária de joalheria que se enforcou, com os papéis de cobrança sob seus pés. Para ela e outros 90% que se aventuraram na Bolsa, o investimento virou dívida.

Os preços caíram até a “terça-feira negra”, dia 29, quando o desespero tomou a Bolsa. Corretores berravam, agarravam-se pelo pescoço, rasgavam paletós. Rockefeller anunciou em público que voltaria a comprar ações diariamente, o que reanimou o mercado, mas acabou virando piada. O humorista de rádio Eddie Cantor não perdoou: “Eu bem que acredito. Quem mais ainda tem dinheiro, além dele?” Eddie, que perdera 1 milhão de dólares, tratou de criar lendas de suicídios que ficaram famosas, como a dos recepcionistas do Hotel Ritz que perguntavam a quem chegava ao hotel se iam se hospedar ou se matar, atirando-se de um andar alto – embora não tenha havido um aumento significativo de suicidas em relação ao ano anterior.

A crise, em si, acabou em novembro. Atingiu, além de Churchill, que ficou quase 600 mil dólares mais pobre, cerca de 1,2 milhão de pessoas nos Estados Unidos – menos de 1% da população. O ano de 1930 começou com novas promessas de emprego, mas a melhora do humor do mercado foi efêmera.

Em dois anos, o Produto Nacional Bruto (soma da renda de pessoas e empresas americanas) caiu 60%. Em 1931, faliram mais bancos que durante os anos 20 inteiros. “A Depressão foi de longe o pior momento da história econômica”, afirma o economista americano Randall Parker. A falta de dinheiro atingiu duramente as fábricas. Industriais faliram, entre eles William Durant, fundador da General Motors – empresa-símbolo da especulação. Em 1936, para se sustentar, Durant lavou pratos em Nova Jersey. Charles Mitchell, presidente do National City Bank (o atual Citibank) durante os anos 20, foi forçado a se demitir após ser acusado de não ter declarado impostos. Mesmo sem ser condenado por falta de provas, foi considerado um dos responsáveis pelo crack. A popularidade de Hoover afundou junto com a auto-estima da nação.

Filas se espalharam pelo país. Filas por um prato de sopa rala, filas por um pedaço de pão, filas de homens em busca de emprego. No campo, o sinal de pobreza era claro: favelas com cabanas feitas de papelão e lata proliferavam e agricultores vagavam pelas estradas à procura de serviços temporários. Enquanto nas fazendas abandonadas maçãs apodreciam e urubus comiam a carne de carneiros sacrificados em cânions (atirados pelos proprietários que não queriam gastar dinheiro com o abate), na cidade as pessoas morriam de fome. Ninguém tinha dinheiro para consumir. Assim, ninguém vendia.

Em 1932, uma comissão foi organizada pelo governo para apurar as falcatruas em Wall Street. Constatou remuneração excessiva e manipulações. A Bolsa foi definida como um “cassino”, deixando a população ainda mais insatisfeita. Com um discurso que propagava intervenção do Estado na economia, o democrata Franklin D. Roosevelt foi eleito presidente e em 1933, auge da recessão, anunciou um pacote econômico para salvar o país: o New Deal (novo acordo, em inglês).

A essa altura, com um quarto de seus trabalhadores sem emprego, a recessão dos Estados Unidos atingiu a Europa e outros rincões. Em 1931, os franceses só tiveram tempo de caçoar da “presunçosa economia anglo-saxã” antes de também cair na Depressão, assim como os ingleses. O tabuleiro mundial estava de pernas para o ar, a ponto de a União Soviética de Josef Stálin tornar-se destino para muitos jovens nova-iorquinos.

Na Alemanha, traumatizada por uma enorme crise em 1923, o terreno para a ascensão de um sistema radical e nacionalista estava preparado. O historiador Eric Hobsbawn, em A Era dos Extremos, é enfático: a Grande Depressão transformou Adolf Hitler no senhor da Alemanha. O regime de Hitler, tal qual o de Mussolini na Itália, foi bem-sucedido ao modernizar seus parques industriais. Em 1935, a produção dos dois países já voltara ao nível de 1929. Enquanto isso, nações subdesenvolvidas precisaram se industrializar, já que suas economias agrárias de exportação foram para o ralo, como a do café brasileiro.

Nos Estados Unidos, as reformas de Roosevelt começavam a dar resultado. Os efeitos econômicos da Depressão só foram superados quase uma década mais tarde, com a eclosão da Segunda Guerra, que deu ao país a chance de aumentar sua produção.

Hoje, a recessão econômica dos Estados Unidos – que o Federal Reserve (o Banco Central do país) chegou a classificar como a pior desde 1929 – reforça o fantasma de uma nova crise mundial. As opiniões divergem. “No horizonte próximo, isso não acontecerá. O Fed está muito mais bem preparado que nos anos 20 e, no mercado de ações, já houve crises piores, como a de 1987”, diz Parker. “A crise é inerente ao sistema capitalista”, contesta Wagner Pereira. Edward Chancellor, em seu livro, diz que “no passado sempre se chegou a um ponto no qual tanto a especulação como o crédito atingiam os limites da expansão. Naquele momento, o ciclo econômico ressurge (…) e a nova era é relegada à história”. Mais cedo ou mais tarde, talvez tenhamos que apertar os cintos.

O pêndulo da recessão

Crises econômicas são comuns há séculos

1637 – Amsterdã – Tulipas

Potência, a Holanda vê seu otimismo refletido nas tulipas. As flores são encomendadas de maneira antecipada. Os preços disparam e todos querem investir. Na colheita, boatos de falta de compradores semeiam pânico.

1697 – Londres – Empresas marítimas

O comércio com as Índias e a caça a tesouros fomentam o surgimento de empresas. As ações de algumas delas sobem até 500%. Após a quebra, 70% das empresas inglesas e escocesas falem.

1825 – Londres – Metais preciosos da América Latina

Investidores voltam os olhos para minas de ouro. A especulação corre solta. A inadimplência de empresas latino-americanas que haviam tomado empréstimos ajuda a afundar o Reino Unido em recessão.

1990 – Tóquio – Mercado imobiliário

Há crescimento inédito do mercado acionário. Investir na Bolsa vira moda. A especulação imobiliária dá saltos largos. O Banco do Japão decide acabar com a festa e esquemas corruptos vêm à tona.

Crise do café

No Brasil, atos de desespero

“Meu filho, este ano você não vai ganhar presente. Estamos sem dinheiro.” Jayme Wright Jr., meu avô, tinha 5 anos quando escutou isso de sua mãe no Natal de 1931. No ano anterior, a família teve que vender jóias e dispensar empregados. A “vida faustosa” ficou apertada numa casa em Santos, onde o pai e o avô dele – meu trisavô, João Francisco Wright – eram exportadores de café, principal produto da economia brasileira. O crack de 1929 atingiu quem trabalhava com o tal “ouro verde”, já que os Estados Unidos eram nossos maiores consumidores e, quebrados, não tinham mais dinheiro para o café, que representava mais de 70% das nossas exportações. Mas o problema era anterior à crise. Desde o fim do século 19, o Brasil já enfrentava a superprodução, que diminuía o valor do café, sendo obrigado a estocar a fim de segurar os preços. A partir de 1925, as queimadas se tornaram comuns. Meu avô se lembra de ver aquilo no horizonte, sem entender direito. “Olhar essa foto é como ter um registro da queda da Bastilha”, compara, sem medo de exagerar, o arquiteto Aníbal de Almeida Fernandes, cujos avós também sofreram com a crise. Aristocratas da elite cafeeira de Vassouras, interior do Rio, Joaquim Rodrigues de Almeida e a família se mudaram para a fazenda Baguary, em Araraquara (SP), em 1890. Após viver a decadência de Vassouras, Joaquim ficou abalado com a crise do café que veio depois. Ele morreu melancólico em 1937 e, no ano seguinte, a família se desfez da propriedade. Meu trisavô precisou se desfazer da fazenda, em Guarantã (SP), vendeu carros e casa e pagou suas dívidas. Em 1933, sozinho no escritório, escreveu uma carta para a família e buscou um fim para seu tormento com um tiro que disparou no próprio peito. F.D.

Post Scriptum

Perigo à vista? Crise nos EUA não derrubaria o Brasil

A crise da economia americana em 2008 trouxe o temor de uma tragédia como a de 1929. O economista Filipe Albert, graduado pela FEA-USP, especialista em Conjuntura Internacional da Consultoria Tendências, fala sobre impactos no Brasil, caso a crise se agrave.

O que aconteceria se houvesse uma recessão nos Estados Unidos do porte da de 1929?

Embora os Estados Unidos respondam hoje por 30% do PIB do mundo e sejam importantes parceiros comerciais de países em crescimento, como é o caso do Brasil, é possível dizer que haveria por aqui uma repercussão mais limitada do que a ocorrida da década de 30. Naquele tempo, o Brasil praticamente só exportava café e os americanos eram os principais compradores. Hoje, o Brasil tem uma pauta de exportação diversificada, com destaque para os produtos agrícolas, especialmente valorizados. O Brasil também diversificou seus parceiros comerciais, não está tão dependente dos Estados Unidos. É preciso dizer que, se não houvesse essa desaceleração por lá, o Brasil estaria ainda melhor do que se encontra.

A China, que registra crescimento significativo, teria a função de amortecer o impacto negativo de uma recessão nos Estados Unidos?

Isso já acontece. Esse país vem crescendo muito e tem comprado cada vez mais do Brasil. Na China, que também tem os Estados Unidos entre os principais parceiros comerciais, verifica-se, a exemplo do Brasil, uma diversificação da lista de parceiros comerciais. Dessa forma, o impacto da desaceleração americana por lá vem sendo, de certa maneira, diluído por causa de outros parceiros. E o volume de negócios fechados com o Brasil só vem aumentando. É que a China tem fome de desenvolvimento.

Qual seria o pior cenário para a economia americana?

O cenário mais pessimista seria o de um credit crunch, ou seja, uma redução drástica do volume de crédito para empresas e consumidores. Isso levaria a uma paralisia da economia americana. Mas, ao contrário do que aconteceu há 79 anos, os bancos americanos têm conseguido apoio do capital estrangeiro, que injeta neles uma dinheirama e os ajuda a driblar a crise atual. Essa crise começou com uma bolha no setor imobiliário, quando empréstimos tomados por compradores não qualificados não foram pagos aos bancos e houve um calote generalizado. Entre as principais causas da Crise de 1929 estavam a especulação desenfreada, a proliferação de dívidas e a conseqüente quebra de instituições financeiras. São os mesmos fatores que estão na raiz da crise atual. A diferença é que os bancos americanos hoje têm sido salvos pelo capital estrangeiro, por meio dos chamados fundos soberanos, como o de Cingapura e o de Abu Dhabi, que é dos Emirados Árabes.

Saiba mais

LIVROS

24 de Outubro de 1929 – A Quebra da Bolsa de Nova York e a Grande Depressão, Wagner Pinheiro Pereira, Companhia Editora Nacional, 2006

Claro, direto e didático, é uma boa referência para quem quer entender o crack sem ter que saber “economês”.

Salve-se Quem Puder – Uma História da Especulação Financeira, Edward Chancellor (Cia. Das Letras, 2001)

Tem o mérito de abordar a história econômica e ser uma leitura gostosa e empolgante ao tratar de várias crises financeiras – entre elas o crack de 29.

*Matéria publicada na revista Aventuras na História em julho de 2008