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Francisco Ferdinando: a gota d’água para a Primeira Guerra

Com um tiro à queima-roupa, Gavrilo Princip mata o príncipe austro-húngaro, Francisco Ferdinando. É o pretexto para a guerra

Por pouco, o plano não foi por água abaixo. Inexperientes, os três jovens sérvios, Gavrilo Princip, Nedjelko Cabrinovic e Trifko Grabez, estiveram a um passo do fracasso de sua missão: matar o herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando. Mas uma trapalhada da segurança do arquiduque colocou Princip de cara com o seu alvo. O tiro atingiu Ferdinando no pescoço. O crime foi a gota d’’água para o início da Primeira Guerra Mundial, o conflito que deixou um saldo de 10 milhões de mortos.

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Por trás do atentado estava a sociedade secreta Mão Negra. A organização nacionalista não havia engolido a anexação da Bósnia ao Império Austro-Húngaro, em 1908. E, em 1914, contratou o trio de sérvios para matar o arquiduque, em Sarajevo. Em seguida, os assassinos deveriam cometer suicídio com cianureto. Eles foram escolhidos justamente porque já estavam condenados à morte pela tuberculose. Não tinham o que perder.

Com um arsenal de quatro pistolas e seis bombas, a idéia era que os rapazes, com a ajuda de agentes da organização, se distribuíssem no caminho que seria feito pela comitiva de Ferdinando com destino à prefeitura. O plano, no entanto, não saiu como eles imaginavam. Mas a sorte – ou azar – estava com Princip, que deu fim à vida do herdeiro do trono austro-húngaro em 28 de junho de 1914.

No total, oito homens foram presos. Princip foi condenado à pena máxima: 20 anos de prisão. O que ele desejava, no entanto, era morrer. “Minha vida já está arruinada. Eu sugiro que me preguem em uma cruz e me queimem vivo. Meu corpo em chamas será uma tocha para iluminar meu povo no caminho para a liberdade”, declarou. Mas o jovem ainda viveria para ver, um mês mais tarde, a eclosão de um conflito que mobilizou todas as grandes potências mundiais.

Apesar da ameaça de guerra já estar sendo gestada há anos pelos dois lados, o ataque à família real austro-húngara merecia uma resposta imediata – e à altura. Um ultimato, preparado pelo conselho ministerial austríaco, tornou inevitável o confronto. Foi a última tentativa diplomática de paz. Princip morreria antes do final da refrega, em 28 de abril de 1918.

Obra do acaso: O passo-a-passo do atrapalhado assassinato de Francisco Ferdinando

1. A chegada
O relógio marca pouco mais de 10h, quando Francisco Ferdinando e sua esposa chegam à estação de trem de Sarajevo, capital da Bósnia. O casal segue em comitiva oficial até a prefeitura. Mesmo alertado dos rumores de atentado, o arquiduque percorre a cidade em carro aberto. O primeiro homem na rota traçada pela Mão Negra é Muhamed Mehmedbasic. Com um policial bem nas suas costas, Mehmedbasic vacila e não atira a bomba.

2. A primeira tentativa
Às 10h10, quando a comitiva passa em frente à estação policial, Nedjelko Cabrinovic joga uma granada na direção do carro do arquiduque. Só que a bomba atinge o automóvel que vem atrás, ferindo dois passageiros e 12 pedestres. Confiante do sucesso, Cabrinovic engole cianureto e se atira no rio. Mas não morre, e é preso. A velocidade dos carros no restante do trajeto impede os outros três terroristas de agirem. A comitiva se dirige para a prefeitura e cumpre agenda oficial.

3. Palavras finais
“O que há de novo no seu discurso? Eu venho a Sarajevo para uma visita e sou recebido com bombas. É um absurdo!”, esbraveja Ferdinando, interrompendo a recepção de boas-vindas do prefeito. Ao saber da situação dos feridos pelo ataque, o arquiduque insiste em visitá-los no hospital. O general Oskar Potiorek, responsável pela segurança dos visitantes, garante que o trajeto é seguro dizendo: “Você acha que Sarajevo está cheia de assassinos?”.

4. O erro fatal
Para evitar o centro da cidade, Potiorek traça uma rota alternativa. Só que ele se esquece de avisar justamente o motorista de Ferdinando, que segue o caminho original. O erro foi fatal. Sem aparelhos de comunicação, os terroristas não sabiam do desenvolvimento do plano e, por isso, continuavam atentos. Gravilo Princip – que tomava um café na rua Franz Joseph – dá de cara com o carro oficial e dispara dois tiros, a cerca de 1,5 metro de distância do veículo oficial. Às 11h30, o primeiro disparo fatal acertou Sofia, supostamente grávida, no estômago. O segundo atingiu o pescoço de Francisco Ferdinando.

Arma do crime
Depois de décadas desaparecida, a pistola Browning, modelo 1910, usada para matar Ferdinando e sua mulher, Sofia, foi reencontrada em junho de 2013. Logo após o assassinato, a arma ficou sob a guarda do padre jesuíta Anton Puntigam, que deu a extrema-unção ao arquiduque. A guerra impediu Puntigam de realizar seu desejo: abrir um museu dedicado a Ferdinando. Sua ideia era reunir, além da pistola de Princip, outros objetos ligados ao crime, como o uniforme usado por Ferdinando no momento do atentado, e também o carro imperial. Com a morte do sacerdote, em 1926, a família do arqui-duque solicitou os materiais, mas deixou a arma para trás. O convento vienense Ignaz Seipal Platz encontrou a pistola em seus arquivos e a entregou ao Museu de História Militar, na capital austríaca, onde agora está exposta.